Blog do Vinho

"O Filme da Minha Vida" e o passado do vinho brasileiro

Tony e os vinhedos O Filme da Minha Vida, em cartaz na cidade, tem um personagem oculto. Intuí a sua presença logo nas primeiras cenas da Maria Fumaça engolindo a velha estrada de ferro. O vinho. Não há citação explícita, apenas uma ou duas cenas em que a bebida é mencionada. Mesmo assim o vinho é onipresente nas quase duas horas da obra que confirma a competência de Selton de Mello como diretor. O roteiro é uma adaptação assinada por Selton e Marcelo Vindicattodo do romance Um Pai de Cinema, do chileno Antonio Skármeta.

A fotografia de Walter Carvalho, filtrada em delicada sépia, nos leva ao início dos anos 1960, em meio a uma paisagem desbravada pelos imigrantes italianos e alemães que desembarcaram aos milhares por essas terras, trazendo idioma, costumes, comidas e, importante, videiras. O DNA do vinho brasileiro está subentendido na atmosfera. Basta buscá-lo nas imagens. Nas cenas de estrada, por exemplo, os vinhedos pós-colheita estão lá, como pano de fundo, se preparando para a fase de dormência. Não é apenas uma vaga impressão.

AS meninasO vinho camponês não faz parte da história, mas sabe-se que integra cotidiano daqueles personagens e isso ninguém precisa dizê-lo. Ele simplesmente paira nas colinas, nas mesas, nos armários, nas barricas, às vezes como cenário, às vezes como coadjuvantes, às vezes como elemento de identidade...  Aqui e ali, sempre discreto, mas palpável para aqueles que já visitaram aquela região e tomaram o vinho que surgiu por lá.

Tudo se passa nas cidades fictícias de Remanso e Frontera, ambientadas em municípios que contam a história da enologia nacional: Bento Gonçalves, Garibaldi, Farroupilha, Monte Belo do Sul, Cotiporã e Santa Tereza. Essas cidades pertencem à Serra Gaúcha e tradicionalmente cultivam videiras. Na ficção, os moradores de Remanso costumam viajar para Frontera de trem conduzido pelo velho maquinista Giuseppe, interpretado magistralmente por Rolando Boldrin. É a mesma Maria Fumaça que hoje faz o passeio turístico de 23 quilômetros entre Carlos Barbosa e Bento Gonçalves, programa obrigatório aos que visitam a região. Alguns “achados” de enquadramento de câmera acontecem nesse trem.

São especiais também as imagens da estrada de terra, que liga Remanso a Frontera. Chamo a atenção para a cena em que o protagonista Tony (Johnny Massaro) aprende a andar de bicicleta, auxiliado pelo pai, o francês Nicolas (Vincent Cassel). É a estrada que liga a progressiva Garibaldi de hoje, onde 370 famílias associadas à Cooperativa Vinícola Garibaldi produzem cerca 20 milhões de litros de vinho ao ano, à bucólica Santa Tereza, de apenas 1.700 habitantes. E que plantas são aquelas que margeiam a estrada?

VinhedosO Filme da Minha Vida nos predispõe à nostalgia. A saga do jovem professor de francês atormentado pelas saudades do pai, que foi embora sem qualquer explicação, mostra um Brasil sobrevivente ao tempo. O Cine Roxy, de Frontera, que exibe o clássico Rio Vermelho (1948), de Howard Hawks, com John Wayne e Montgomery Clift, tem como locação a fachada repaginada da casa paroquial do município de Cotiporã, cidade de 4 mil habitantes, a 123 quilômetros de Porto Alegre. Já o interior do cinema foi rodado na Casa das Artes, em Bento Gonçalves. O som do projetor, os namoricos nas poltronas e os olhos vidrados do público compõem uma pintura singela, carregadas de memórias.

A casa de madeira do criador de porcos Paco (Selton Mello) fica nos arredores de Farroupilhas. No interior da construção tosca, em que a luz de fora vaza por entre as frestas das tábuas, repousam vinhos nas prateleiras, nos barris e sobre a mesa, confirmando a sensação de que estamos sendo levados à terra dos primeiros fazedores de vinhos do Sul, que se distraiam entre goles generosos da bebida e os programas de rádio que começavam a dividir espaço com a ainda “improvável” televisão.

A fotografia antiga fala o tempo todo e, aos poucos, vamos nos sentindo íntimos do nosso próprio País. Há momentos de extremo lirismo, como a cena em que as irmãs Madeira, Luna e Petra (Bruna Linzmeyer e Bia Arantes) ensaiam uma coreografia no pátio do colégio, fazendo Tony levitar diante de tanta sedução. A dança das jovens é emoldurada pelos muros de pedra da Escola Estadual Santo Antônio, em Garibaldi, cenário que parece saído de uma fissura longínqua de séculos idos. Há também passagens de incômoda solidão, como o silêncio da mãe de Tony, Sofia (Ondina Clais Castilho) com os olhos perdidos na paisagem rural, amargando a falta do marido.

Rio das AntasPara os cinéfilos mais disciplinados, vale a pena ficar atento à sequência que se passa no prostíbulo, em Frontera. As cenas foram gravadas na Associação dos Moradores de Cotiporã, que recebeu uma fachada cenográfica, e contam com uma ponta especial de Skármeta, o autor do livro que deu origem ao filme. E para complementar as curiosidades, o Rio das Pedras onde Tony e Luna trocam confidências, é o Rio das Antas, entre Bento Gonçalves e Cotiporã

Não é um filme triste. Tem até algumas tiradas de humor (dispensáveis na minha opinião), mas passa longe das comédias predominantes no cinema brasileiro atual. Pelo contrário, é uma obra consistente, profunda, que oferece muitos ângulos de observação. Neste aspecto, se aproxima do cinema europeu. Um filme bem dirigido. Ponto para Selton Mello, que já tinha demonstrado ser um diretor maduro em O Palhaço e Feliz Natal. Saúde!

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Quatro programas para tirá-lo de casa nos próximos dias

Gallo NeroOs bons ventos continuam soprando a favor do vinho. Pelo menos é o que diz a agenda de programas dedicados à bebida na cidade. Está fácil tomar bons vinhos, encontrar gente que compartilha o mesmo interesse e ampliar conhecimentos em degustações orientadas, pois elas pipocam pela cidade.

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O vinho do meu pai e o tempo aprisionado

Dia do Pais - LágrimaDevo admitir que sou meio negligente com datas comemorativas. A sucessão de efemérides que salpicam todo o calendário anual me dá uma certa preguiça e acabo deixando passar em branco boa parte. Com o Dia dos Pais ocorre uma coisa curiosa.

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Quer um palpite para o vinho do Dia dos Pais?

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Top fiveJá temos a lista dos melhores vinhos do sétimo Encontro de Vinhos de Campinas, eleitos pelo júri técnico da ABS-Campinas, em degustação às cegas, como manda o figurino.

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