Blog do Vinho

Relatos da madrugada 1*: O meu vinho preferido é...

Francine Van HoverExistem algumas perguntas que todas as pessoas que demonstram interesse por vinho escutam com frequência. Uma das mais repetidas, ironicamente, não tem resposta. Lá vai: “Qual é o seu vinho preferido?” Eu sempre me apresentei como entusiasta do vinho, nunca como sommeliére, e isso me dá uma certa vantagem, ou permissão, para responder a tudo sem responder a nada. Digo que gosto de muitos vinhos e que abro garrafas de acordo com o prato, com as companhias, com a estação do ano e, importante, com o que resta na adega de alta rotatividade que mantenho sem nenhuma organização.

Não caio na tentação de dizer que o “melhor vinho é aquele que mais lhe agrada”, embora essa frase bonitinha soe como Bach aos ouvidos dos curiosos. Se fosse tão simples, aqueles “líquidos” que lembram suco de uva... arghnnn... estariam no top ten dos grandes rótulos. Sabemos que não é assim, pois há vinhos incríveis com aromas que mal conseguimos identificar de tão esquisitos que são... e nem estou falando da raposa molhada, do esparadrapo ou do xixi de gato, que costumam encantar os loucos por terciários (aromas complexos, comuns em vinhos de guarda... humm...).

Antes de ser uma questão de gosto pessoal, vinho tem a ver com a ocasião e a sua qualidade está amalgamada com o equilíbrio de elementos como álcool, acidez e tanino que aprendemos a aferir por meio de alguma leitura, muita curiosidade e oceanos de garrafas abertas. O estilo desse ou daquele pode até não ser o seu preferido, mas pode ser ideal para o cardápio que está sendo servido, para a temperatura do ambiente, se tem sol ou chuva, se estamos numa piscina ou num restaurante chique... enfim, há muitas variantes que inspiram a próxima rolha a ser sacada.

Outro dia me perguntaram que vinho não pode faltar na minha adega. Para desapontamento do atento interlocutor que esperava ouvir marca, uva, safra, país e produtor etc e tal, respondi sem fazer cara de mistério: espumante, tinto, branco, rosé, doce... pode ser do velho e do novo mundo. Ou seja, todos os vinhos são bem-vindos e, realmente, costumo tê-los ao alcance para o que der e vier. E aqui vai mais uma revelação chocante: raramente compro um rótulo que já conheço. Sou completamente volúvel nas minhas opções na hora de colocar a mão no bolso. E, posso assegurar, essa é a maior graça para quem curte vinho e não quer consultar Robert Parker ou Jancis Robinson a cada aquisição (qualquer hora falo mais sobre os vinhos pontuados).

O universo do vinho é amplo, dinâmico e diversificado demais para nos determos em exemplares que já experimentamos. Ultimamente, ando viajado mais a países como Grécia, Líbano, Austrália, Nova Zelândia e Brasil do que aos consagrados paraísos do continente europeu. Sim, você leu Brasil. É impressionante o que a enologia brasileira vem avançando nos últimos anos. Todo dia me deparo com marcas novas, regiões diferentes, cortes inéditos... E, garanto, me surpreendo positivamente com as descobertas.

Agora, caro e raro leitor, uma confissão que vai pôr à prova a sua paciência com a permissividade com que eu desfruto o vinho. Está sentado? Pois, permaneça assim: eu compro vinho em supermercado, fico atenta a promoções e não tenho constrangimento em aparecer na casa de amigos com uma garrafa cujo preço fica bem abaixo de dois dígitos (desde que eu sabia o que estou fazendo, certo?). E obviamente, frequento também lojas especializadas, sites de vendas e clubes de vinho.

Aproveitando: você já notou como o vinho está acessível? Supermercado, loja de conveniência, hortifrútis, padarias, açougues... em todo lugar existe uma adega razoável, com seções organizadas por países, preços legais, flexibilidade de atendimento e, se der sorte, degustação de graça para os visitantes. Acha pouco? Lembre-se que já tomamos muito o insoletrável, impronunciável e (hoje) intragável vinho da garrafa azul (Liebfraumilch), fora os Chapinha e Sangue de Boi do dia a dia, pois era o que tínhamos... E não faz tanto tempo assim. Saúde!

(A imagem que Ilustra este post é uma gravura da artista francesa Francine Van Hove, conhecida por pintar mulheres jovens, belas, levemente entediadas)

 * Morro de inveja daquelas pessoas abençoadas que acordam no meio da noite com alguma ideia genial, acendem o abajur, anotam a epifania e voltam a dormir (dizem que existem). Eu acordo de madrugada com insônia e nunca tenho nada em especial para registrar. E também não consigo voltar a dormir, mesmo que esteja longe de o despertador soar. Às vezes, pego um livro ou o celular e fico lendo os textos longos que não consegui terminar durante o dia. Ou então fico só curtindo a verdadeira e única zona de conforto que conheço que é a cama quentinha. Nem perco tempo contando carneirinhos. Dia desses, decidi tentar dar alguma produtividade a essas horas soltas. E resolvi escrever. Não, não é um raio de inspiração que me atingiu em alguma das cinco fases do sono. São só relatos soltos, vira-latas, que vou compartilhar neste espaço, quando me parecerem razoáveis. Prometo ler com atenção na manhã seguinte antes de publicar. E, como ainda acredito que vou reconquistar as tais oito horas seguidas de sono, não garanto nenhuma regularidade nesses devaneios da madrugada que o texto acima inaugura.

 

   

    

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