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Algumas reflexões sobre uma noite histórica

Clóvis de Barros Filho e Leandro Karnal Café Filosófico em Campinas Castro Mendes

Ironias e brincadeiras à parte, a verdade é que tivemos nesta terça-feira à noite, dia 21 de junho de 2016, uma noite histórica dentro e em frente ao nosso Teatro Municipal José de Castro Mendes

Foram 2.700 pessoas que lotaram o teatro e a Praça Correa de Lemos em uma noite bastante fria para ouvir durante quase duas horas uma excelente palestra conjunta de dois professores universitários, Clóvis de Barros Filho (USP) e Leandro Karnal (Unicamp), promovida pelo Instituto CPFL. Um filósofo, outro historiador. Ambos falando sobre felicidade, tema do livro deles "Felicidade Ou Morte", lançado durante o evento.

O imenso público de ontem contrasta com o de domingo passado (19/06), quando eu estive no Castro Mendes pela manhã assistindo ao ótimo concerto da Sinfônica de Campinas, e à noite assistindo à ótima peça "Titus Furia", do grupo Trezencena. No primeiro, com ingressos a R$ 30, havia em torno de 200 pessoas. No segundo, gratuito, em torno de 100. Ambos mereciam um público maior, como muitos outros bons espetáculos locais que têm sido realizados em um Castro Mendes meio vazio nos últimos anos.

O que ocorreu ontem deveria instigar reflexões para todos os profissionais ligados à Cultura em nossa cidade. A mim instigou várias e vou tentar lembrar aqui de algumas delas.

Pra começar, demonstra que, ao contrário do que muita gente pensa e afirma, existe um potencial imenso de público em Campinas interessado em Cultura. Os Cafés Filosóficos da antiga CPFL Cultura, hoje Instituto CPFL, já mostravam isso há 10, 12 anos. Lembro de assistir lá a palestras com lotação esgotada de caras como Leonardo Boff, Amyr Klink e Marcelo Gleiser. Lotava o café (200 pessoas), o teatro (160) e até a biblioteca com gente sentada no chão (100), como ocorreu na palestra do Gleiser.
Também me lembro do imenso sucesso dos Saraus, organizados pelo Tucun, que lotaram o café durante anos, do Festival de Teatro da CPFL, realizado em 2010, com filas que começavam 2 horas antes e que ao longo de um mês e meio lotou o auditório e obrigou a realização de duas sessões de várias peças. E de concertos, como o de Antonio Menezes e Celina Szrvinsk, que lotaram o café e o auditório, e do Quarteto Brasileiro de Violões, que lotou o auditório.

Café Filosófico Especial Clóvis de Barros Filho e Leandro Karnal em CampinasAlguns dirão: "Ah, mas são eventos gratuitos". Sim, são. Como são todos os do Sesi, que costumam ter bom público, mas nem sempre lotam os 366 lugares do teatro, e da Prefeitura na Estação Cultura, Concha Acústica e praças e parques públicos.

Mas esta "potência de público" também vem sendo observada em espetáculos pagos --e muito bem pagos-- no Teatro Iguatemi (ex-Brasil Kirin), do Shopping Iguatemi. Só pra citar dois exemplos recentes: a peça "O Camareiro", com Tarcísio Meira e grande elenco, que tinha ingressos a R$ 100 e ainda assim lotou o teatro e deixou gente pra fora em boa parte de suas 6 apresentações, e a peça "O Topo da Montanha", com Lázaro Ramos e Taís Araújo, que tinha ingressos a R$ 120 experimentou o mesmo fenômeno em metade de suas quatro apresentações, além de uma extra.

O que me faz pensar que a falta de público em muitos espetáculos gratuitos ou pagos em nossa cidade está menos ligado ao fato de serem gratuitos ou pagos, embora isso faça muita diferença, e, sim, ao fato do real interesse que despertam nas pessoas.

"Ah, mas faltou divulgação", a velha ladainha que ouvimos sempre que um bom espetáculo tem um público ruim também precisa ser relativizada. Já estive em vários espetáculos vazios que tiveram a mesma divulgação de outros lotados. A divulgação da palestra de ontem mesmo bombou aqui no Facebook (mais de 5,7 mil pessoas confirmando presença) muito antes de sair em sites, jornais, rádios ou TV.

Café Filosófico Especial Clóvis de Barros Filho e Leandro Karnal em CampinasÉ claro que uma boa divulgação ajuda a atrair público. Se as pessoas não ficarem sabendo que um determinado show, concerto, peça ou espetáculo de dança ocorrerá, não irão. Mas apenas o fato de ficarem sabendo também não garante um bom público. Em geral, a grande maioria não vai, como demonstram as pesquisas a respeito da fruição cultural em nosso país. Apenas uma minoria (menos de 10%) frequentam teatros, museus e galerias de arte. Uma porcentagem maior frequenta cinemas. A maior parte fica em casa vendo TV ou navegando pela internet, por falta de grana em muitos casos e, na maior parte deles, por falta de interesse.

Claro que em termos de divulgação, o fundamental é fazer com que as pessoas que tenham interesse por um determinado evento fiquem sabendo da realização do mesmo. Nesse ponto, antigamente, a CPFL com seu mailing de 30 mil e-mails, e Sesi, com seus 7 mil, eram campeões.

Hoje, e-mails, embora ainda importantes, viraram uma ferramenta menos eficaz e as redes sociais passaram a ser muito mais utilizadas para divulgar qualquer evento. E todos tentam usá-las pra incrementar a divulgação de seus espetáculos.
Ainda assim, canso de ver convites aqui no Face de bons shows e peças nos quais o autor convida 1000, 2000 pessoas e consegue umas 20, 30 confirmações de presença. Dias depois do evento, muita gente escreve: "Poxa, perdi, quando vocês voltam?"

Enfim, tudo isso deve nos fazer refletir sobre como transformar essa "potência de público" em realidade. Ontem, eu pensava que boa parte daquele público que esperou horas para entrar no teatro e aquele que resistiu bravamente ao frio na praça, poderia ter ido assistir a "Titus Furia", no domingo, e a tantos outros bons espetáculos feitos por artistas locais no Castro Mendes nos últimos 4 anos. As produtoras do Feverestival --Festival Internacional de Teatro de Campinas-- conseguiram fazer isso em fevereiro e o teatro esteve quase lotado em todas as apresentações.

O sucesso de público de ontem também coloca por terra diversos lugares comuns que vira e mexe ouvimos certo sabichões da cidade falando ou escrevendo: "não há público", "campineiro só se interessa por espetáculos com artistas globais", "falta divulgação", "as pessoas não vão no Castro Mendes porque não tem estacionamento", "frio e chuva espantam público", "Campinas não tem mais jeito", "Campinas não tem nada de bom pra ver, temos que ir pra São Paulo".

Café Filosófico Especial Clóvis de Barros Filho e Leandro Karnal em CampinasQue o nível cultural médio do campineiro (e do brasileiro) caiu bastante nos últimos anos, é fato. A classe média, em especial, "emburreceu" e restringiu seu repertório cultural. Cinema tomou boa parte do público do teatro. As tevês por assinatura, internet e equipamentos como home theater, prendem muito mais as pessoas em casa hoje em dia do que há 20 anos, quando não existiam. A insegurança pública também é um fato que afasta muita gente de eventos noturnos.

Ainda assim, o Café Filosófico Especial de ontem à noite demonstrou que quando as pessoas têm um real interesse por ver uma palestra/show/peça/concerto, elas vão. Independente de clima, de local, de horário, do que seja. E foi lindo, emocionante mesmo, ver aquela multidão em silêncio, prestando atenção no que era falado, rindo e aplaudindo nos momentos certos. O Leandro Karnal expressou essa emoção no início e no final, quando leu um pequeno texto que escreveu ao longo do dia. Uma noite realmente histórica.

Que todos que trabalham com eventos culturais em nossa cidade reflitam e discutam mais os temas expostos neste "textão" foi o meu objetivo ao escrevê-lo, baseado em tantas reflexões que a noite de ontem me instigou.

Comentem à vontade!

Fotos: Danilo Leite Fernandes 

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