CineCultura

"La La Land - Cantando Estações": saudosismo que encanta

la la land, ryan gosling, emma stone, musical, damien chazelleNascido juntamente com o cinema falado, o gênero musical teve seu apogeu nas décadas de 1930, 1940 e início dos anos de 1950, celebrando a cultura norte-americana através de histórias otimistas e puramente divertidas. Sua crise se dá com a decadência do sistema de estúdios nos anos de 1950, com a influência do cinema europeu nos Estados Unidos e uma busca por um cinema mais autoral e de engajamento social das décadas seguintes. Com isso, o gênero, tenta se impor nas próximas décadas com os filmes de rock’n’roll (Elvis Presley, The Beatles), a ópera-rock (Jesus Cristo Superstar, Tommy) ou espetáculos de puro entretenimento da era disco dos anos de 1970 (Os embalos de sábado à noite, Grease) ou do pop dos anos de 1980 (Fama, Flashdance).

A partir dos anos de 1990, o gênero realiza alguns revivals (Chicago, Moulin Rouge, Canções de Amor), virando moda teen com High School Musical e Glee. Mas ainda faltava um grande filme que viesse preencher a lacuna dessa grande “homenagem” aos musicais clássicos, ao mesmo tempo em que propusesse algumas ousadias em sua encenação: La La Land: Cantando Estações (2016), vem para tentar, novamente, popularizar esse gênero tão pouco apreciado na contemporaneidade.

Ainda que trabalhe sob um roteiro pífio, com uma história simples focada em seus dois protagonistas, eliminando praticamente os coadjuvantes de cena, La La Land acerta justamente na escolha dos atores para esses personagens, Ryan Gosling e Emma Stone casam a perfeição com a proposta do diretor Damien Chazelle. Se, falta aos dois, potência musical e vigor nas performances coreográficas (Ryan e Emma não são nenhum Fred Astaire e Gingers Rogers, respectivamente, mas quem se iguala a esses dois ícones dos musicais?), sobra em carisma, fazendo-nos acreditar o quão crível são os seus sentimentos. E, justamente, o fato de não serem exímios bailarinos e cantores, é o que traz o grande charme à La La Land, nos evocando uma magia singela em meio as dificuldades de uma vivencia que aspira por anseios transformadores.

Essa imperfeição e fragilidade dos números musicais operam em constante sintonia com a errância dessas duas almas apaixonadas que se veem em cheque durante seu percurso romântico, fazendo com que a as músicas saiam da narrativa como um complemento aos dramas de cada um, sem nunca parecer gratuito.

Mas nem só de ousadias é feito La La Land. Há uma grande ironia na sua construção dramática pois, ainda que seu protagonista seja apaixonado pelo improviso que só no jazz é capaz de acontecer, o filme opera dentro de uma rígida construção que obedece fielmente a cartilha do gênero musical. Desde as cores que explodem na tela, as coreografias em plano aberto, até as canções e suas letras, tudo respira os áureos tempos que os musicais eram o modelo do grande entretenimento hollywoodiano, sinônimo de grandes bilheterias e de apostas certeiras de diversão para uma ida ao cinema. la la land, ryan gosling, emma stone, musical, damien chazelle

Engana-se também quem espera do filme uma grande ode ao amor, como seu trailer deixa entrever. Por mais romântico que seja em determinados momentos, ainda é um filme sobre a melancolia e a nostalgia na construção de sua narrativa, um olhar para o passado carregado de saudade/ternura/decepção daquilo que não foi vivido ou do que poderíamos ter sido ou, como diria o poeta, “a vida inteira que poderia ter sido e que não foi”.

Seus protagonistas nunca estão em dúvida do quanto se amam, mas a dúvida aqui é quanto o sucesso talvez seja mais importante que esse amor que eles nutrem um pelo outro. Portanto, é extremamente sintomático, que o filme que emule um gênero que exalta a beleza, a cor e a vida, se passe justamente em Los Angeles, mas especificamente em Hollywood na sua construção de sonhos, muitas vezes, inatingíveis. Assim como o personagem de Ryan Gosling, que luta para que o jazz não seja “esquecido” no meio maisntream, La La Land chega como um grito de amor aos musicais para que esses não sejam engolidos pela indústria de entretenimento que prioriza aventuras de heróis uniformizados, sabres de luz, parques de dinossauros, entre outros temas, que tão pouco espaço tem deixado para uma maior diversidade de obras exibidas na tela grande.

La La Land, do mesmo modo que o jazz, olha para o futuro sem esquecer do passado, entregando um filme para gerações que nunca viram os musicais clássicos, mas que podem vislumbrar de onde eles surgiram e o quanto são encantadores.

Veja a programação nos cinemas de Campinas

Comentar

Globo de Ouro 2017: os cinco melhores momentos

Menos afoito a protocolos, os Golden Globes Awards sempre se propuseram a ser uma festa mais descontraída e "informal" do que o Oscar. Os votantes dos Golden Globes, os membros da Associação da Imprensa Estrangeira de Hollywood, parecem mais à vontade para ousarem de forma mais incisiva em suas premiações, mesmo com alguns escândalos que envolvem “propinas” relacionadas a algumas indicações e/ou vitórias.

Comentar

Os melhores filmes de 2016

aquarius, elle, heartstone

Aquarius (BRA/FRA, 2016, Direção: Kleber Mendonça Filho)

Elle (FRA, ALE, BEL, 2016, Direção: Paul Verhoeven)

Comentar

“Batman vs Superman: a origem da justiça” ou a origem do desapontamento

batman, superman, bem aflleck, henry cavill, zack snyderNa atual conjuntura todos já sabem que, mesmo com um incrível sucesso de bilheteria, Batman vs Superman: a origem da justiça (2016) tem recebido críticas em sua maioria negativas ou que demonstr

Comentar

“Spotlight”: saudosismo em elogio ao “antigo” jornalismo

spotlight, michael keaton, mark ruffalo, rachel mcadamsGrande vencedor do Oscar de Melhor Filme de 2016, Spotlight – segredos revelados (2015) é um filme à moda antiga, desconectado de seu tempo, emulando um passado de repórt

Comentar

“O Regresso”: vingança e luta pela sobrevivência

o regresso, leonardo dicaprio, alejandro gonzález iñárritu, tom hardyCom um início auspicioso no México com o filme "Amores Brutos" (2000) e sua estreia em solo americano com "21 gramas" (2003), tudo que Alejandro González Iñárritu faz é seguir por um caminho decrescente em sua filmografia, com obras que

Comentar

“A garota dinamarquesa”: personagem transgressor em filme conservador

garota dinamarquesa, eddie redmayne, alicia vikander, tom hooperEm um momento em que a discussão sobre transgêneros ganha visibilidade em debates ao redor do mundo, é gratificante que uma produção mainstream se aventure nessa temática, mas infelizmente, não só de boas intenções se faz um filme qu

Comentar

"A Grande Aposta": mercado imobiliário, caldo de peixe e Selena Gomez

a grande aposta, the big short, christian bale, brad pitt, ryan gosling, steve carrellO que nos causa problemas não é o que não sabemos.
É o que temos certeza que sabemos e que, no final,

Comentar

Carol: instantâneos de melancolia

carol, cate blanchett, rooney mara, todd haynes“O grande homem é aquele que, no meio da multidão,
mantém com perfeita doçura a independência da solidão”
Ralph Waldo Emerson

 

Comentar

Os 8 Odiados: uma decepção em grande estilo

oitoodiados, tarantino, faroeste, Alardeado como o oitavo filme de Quentin Tarantino, tendo o número oito também em seu título, Os 8 Odiados (2015), vem acompanhado da proposição de que Tarantino se aposente após seu décimo filme.

Comentar

Páginas