Blog do Vinho
É a nossa vez de descobrir Portugal
por Suzamara Santos
Publicado em 11 de junho de 2018

Na semana que passou, recebemos a visita de dois importantes enólogos portugueses: Jorge Serôdio Borges, do Douro, e Anselmo Mendes, do Minho. Esqueça por enquanto os clássicos Vinhos do Porto e Vinho Verde, famosos de suas regiões de origem e tão habituais na mesa brasileira. A vitivinicultura de lá tem muito mais a mostrar. O moderno vinho português se apresenta com espírito novo, porém, sem desdenhar a generosidade de uvas nativas de sua natureza ou apelar para o mainstream de fruta, álcool e tanino comum nos quatro cantos no mundo.

Jorge Serôdio comandou uma descontraída degustação na Adega Abadesco na segunda-feira e não deixou dúvidas de que merece a fama de ser um dos mais interessantes enólogos do momento. Seu foco é em vinhas velhas e fidelidade ao terroir. Sempre uvas autóctones (Portugal é um paraíso delas), distribuídas irregularmente pelas difíceis escarpas do Douro. Várias cepas na mesma área vinificadas juntas. Agricultura orgânica. E o mais surpreendente: Serôdio usa com convicção a tradicional “pisa humana” para elaborar seus tintos. Sim, a cena clássica dos lagares que muitos imaginam extinta, ou praticada apenas como entretenimento para turistas, na sua vinícola, a Wine & Soul, é procedimento fundamental para alcançar a complexidade e elegância dos seus vinhos. Mais conhecimento, menos tecnologia. E esse é um enólogo moderno. Há um paradoxo aí.  Tomamos o branco Guru 2014, Manoella Tinto 2015, Pintas Character Tinto 2015 e o Quinta da Manoella 2015. Se são bons? Prove e comprove. Uma curiosidade: os nomes Guru e Pintas são homenagens a dois cachorros da casa.

Já Anselmo Mendes, convidado da Decanter, mostrou que a região do Vinho Verde, no Minho, ao norte do país, é muito mais do que os divertidos vinhos com agulha, ou levemente frisante, perfeitos para acompanhar frutos do mar. Ênfase total para as uvas brancas portuguesas, tão pouco exploradas por aqui. Os vinhos de Alvarinho e Loureiro se mostraram frescos, originais, em pé de igualdade com as castas francesas mais famosas, como a Chardonnay e a Sauvignon Blanc. Anselmo serviu quatro rótulos de seu portfólio, no almoço para convidados no Maialini e no jantar no Romano’s. na quarta-feira: Loureiro Muros Antigos, Alvarinho Contacto, Alvarinho Muros de Melgaço e Alvarinho Parcela Única. Fora os ótimos vinhos, a visita valeu também pela agradável conversa. Anselmo encantou os presentes com seu otimismo em relação ao nosso produto – “eu acredito mais no vinho brasileiro do que os próprios brasileiros”. Só para constar, Anselmo é um winemaker que dá consultoria no mundo inteiro, inclusive no Brasil, onde tem trabalhos desenvolvidos na Quinta das Neves (SC) e Vinícola Hermann (RS). E não faltou futebol ao repertório. Ele contou que chorou quando a seleção brasileira da Copa de 1982 foi desclassificada e relembrou grandes jogadas de Zico, Sócrates, Falcão e outros craques. Não podia ser mais simpático.

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