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Era dos Ventos: o anárquico vinho laranja
por Suzamara Santos
Publicado em 14 de Maio de 2018

Prometi voltar a esse assunto. A última edição do Guia Descorchados, a mais respeitada referência de vinhos sul-americanos que temos, trouxe uma surpresa. O rótulo brasileiro melhor pontuado foi o vinho laranja Era dos Ventos Peverella 2014. É a primeira vez que o Descorchados inclui no seu radar os vinhos tranquilos brasileiros – até então a publicação dedicava-se apenas aos nossos espumantes, que dividiam espaço com toda a produção do Chile, da Argentina e do Uruguai. E, de repente, os 94 pontos alcançados por um exemplar nacional conhecido apenas por alguns gatos pingados provocou um certo frisson no meio.

Na real, esse tal “vinho laranja brasileiro” vinha causando burburinho não é de hoje: uns comentários aqui e ali, degustações entre iniciados, colunistas atentos anunciando a sua existência… Mas até então a novidade era tratada como uma experiência, uma curiosidade. A façanha do Era dos Ventos no guia não é pequena, porém a confirmação de sua influência nesse mercado tão específico ainda vai levar algum tempo. Pois, pequeno mesmo é o número de garrafas produzidas – 600 exemplares, o que restringe o seu alcance entre os consumidores. E tem também o preço, alto para os padrões brasileiros: R$ 220 em sites de vendas.

O Era dos Ventos é uma criação de Luís Henrique Zanini, enólogo da ótima Vallontano Vinhos Nobres, do Vale dos Vinhedos, em parceria com o empresário Pedro Hermeto (Restaurante Aprazível, Rio) e o enólogo Álvaro Escher. Em poucas palavras, pode-se definir o rótulo como um “branco vinificado em tinto”. Traduzindo, durante o processo de vinificação o mosto fica em contato com as cascas e engaços, procedimento totalmente vetado aos brancos “normais”. Vem daí a cor laranja, ou âmbar, como preferem alguns produtores. Zanini gosta de dizer que o seu Era dos Ventos é “anárquico”, já que não se enquadra em nenhuma tendência atual.

A ousadia do vinho que o enólogo insinua inclui, por certo, a escolha da cepa italiana, praticamente extinta e resgatada aqui no que Zanini chama de Projeto Peverella, iniciado em 2000 e concretizado em 2008, com o lançamento da linha Era dos Ventos. As uvas são oriundas de vinhedos velhos da Zona Caminhos de Pedra. A cepa foi introduzida na Serra Gaúcha no final do século 19 por imigrantes vindos do Norte da Itália, especialmente do Trento e do Vêneto. Até os anos 70, era bastante utilizada como base para vinhos espumantes brasileiros. Depois disso, “sumiu”.

Dá para intuir que se trata de um vinho de exceção, elaborado de maneira artesanal, com inspiração na cartilha da mínima intervenção, que remete aos biodinâmicos e aos naturais, porém sem abdicar dos sulfitos no engarrafamento. O suco foi macerado com as cascas por duas semanas em tinas abertas de carvalho. O passo seguinte é o mais curioso: o vinho amadurece por dois anos em barricas velhas de ipê (não carvalho), antes de ser engarrafado. Mas, afinal, o que chamou a atenção dos degustadores do Descorchados para colocar esse vinho à frente de tantos outros brasileiros?

“Aqui há muita força, muitos taninos dando voltas no paladar, mas também muitas notas de frutas cítricas, muita laranja confitada. Dêem tempo a ele na garrafa. Necessita de pelo menos cinco anos.” Observe que a descrição fala em força, taninos, guarda, o que tem mais a ver com um vinho tinto estruturado do que com um branco.

Os “laranjas” são mais antigos do que parece. E nem ouse compará-los a extravagâncias como o juvenil “vinho azul”, cuja a tonalidade é gerada por corantes adicionados ao vinho branco. Sua origem está na Geórgia (Cáucaso) e Armênia, sendo chamado em alguns meios de “vinificação georgiana”. Algo como introduzir os cachos com sementes e engaços em ânforas impermeabilizadas com cera de abelhas e enterrar para que o processo se complete em temperatura estável. Pasme, isso tem 8 mil anos.

O Era dos Ventos não é o único vinho laranja brasileiro. Outro rótulo que divide espaço com ele é o Cave do Ouvidor Insólito, também elaborado com a Peverella. No mundo, o movimento (será que já podemos chamar assim?) começou com o enólogo italiano, de origem eslovena, Josko Gravner, considerado o “papa dos laranjas”. Hoje, esse estilo de vinho já é encontrado em países com larga tradição em enologia, como França, Itália e Chile. Saúde!

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