Conversa de cidade

Revisitando memórias: Campinas de ontem e hoje!

Vivi os últimos cinqüenta anos da história de Campinas. Dei-me conta de minha existência na casa e depois em suas ruas. Era algo único por ser apenas o que eu conhecia. Lembro de paralelepípedos, enxurradas, prédios, bondes!!! E balas frumelo... Meu inconsciente sepultou algumas poucas madrugadas de terror onde a bronquite me asfixiava ou a cólica me torturava. Havia árvores, vizinhos, parentes e logo fiz uma longa e fantástica viagem onde fui apresentado ao mar. Na praia dormi o sono arquetípico dos bem aventurados e ali começava minha paixão pelo Atlântico (depois dividida com o Mediterrâneo, sorry!).

Conheci um prédio enorme, um verdadeiro palácio onde me deixaram só, solitário e sozinho com uma gente estranha, crianças e adultos, eu apenas com cinco anos e filho único semi-mimado (mas sem muita frescura). Não gostei e o berreiro foi uma prova cabal do que pensava daqueles calabouços. Nos dias seguintes eu chorava para não ir embora porque descobri o prazer de brincar com a molecada do Colégio.

Desde cedo percebi a efemeridade da vida. Meu avô morreu, os bondes se foram, casas eram demolidas para dar lugar a avenidas e logo eu saía de casa sozinho para passear e conhecer os arredores. Colegas de colégio moravam perto e logo uma alcatéia se formava para subir nos muros, invadir terrenos abandonados e acabar de derrubar casas condenadas já em ruínas. Gostava dos prédios altos e sonhava um dia morar lá em cima, mesmo sem ter quintal, mato e tralha antiga guardada sem motivo. Sempre fui urbano. Visitava fazendas, dormia algumas vezes nelas, mas não me sentia à vontade.

Uma outra paixão avassaladora foi Viracopos – o aeroporto (sic). Desde moleque colecionava folhetos de viagens, mapas, roteiros que pedia nas agências de viagem do centro. Mas as companhias aéreas eram o máximo. Aí, quando o Concorde e o Boeing 747 Jumbo vieram se mostrar na cidade, peguei o ônibus (se não deixassem eu fugiria), enfrentei filas enormes para ver as máquinas voadoras sentindo uma pueril esperança de conseguir dar uma volta, algo impossível para um menino de 10 anos. Mas depois dos dezesseis matei  a vontade com ganas e estilo.

Tinha o mar, lá longe, os bairros que conhecia aos poucos, os aviões e a imensidão de São Paulo, onde visitava os tios. Na seqüência a imensidão do Brasil. O povo da cidade se mostrava para mim no colégio particular (Coração de Jesus), na escola pública (Culto à Ciência), no Senac (uma escola exemplar pela qualidade) e nas farras insanas do cursinho, em 1977. Era época das repressões da ditadura nas ruas do centro e da explosão de liberdade e esperanças. Fiquei um tempo em Sampa e depois voltei para terminar as graduações (turismo e filosofia, na PUCC). Viajava muito. Tinha amizades e contatos, a noite da cidade era uma passarela de barzinhos, festas, repúblicas, alternando com campings e viagens para visitar os amigos que estudavam em outras cidades. Trabalhava em São Paulo, viajava pelo mundo (era guia internacional) e agora comparava Campinas com outras cidades brasileiras e do mundo. Mas fui conhecer mesmo a complexidade urbana quando me convidaram para ser diretor de turismo da Prefeitura e fiquei os quatro anos do mandato do Jacó Bittar (1989-1992). Grande cidade. Grandes amizades, dentro e fora do partido, entre civis e militares, acadêmicos e sambistas. Campinas se desvelava com mais ousadia e temperos sutis, mas poderosos, que nada deixavam a dever a outros centros médios do mundo. Tinha um certo provincianismo, mas isso é comum em Curitiba, Porto Alegre, Salvador...

Quando minha gestão terminou entrei no doutorado em educação da Unicamp e já era professor de turismo da PUCC e de um cursinho. Também me diverti – e muito – como professor de cursinho, por uns três anos. Tenho duas paixões editoriais primordiais: o jornal Correio Popular e a editora Papirus, os primeiros a me publicarem, em minha cidade. Já vivia a tempos na academia mas mantinha fortes as amizades do turismo. Até hoje. Alunos e alunas se tornaram amigos, antigos colegas de graduação viraram colegas acadêmicos e, desde 1995, me dividi entre Campinas e São Paulo.Mantenho residência na cidade onde tenho parentes e amigos, mas muitos se dividiram pelo Brasil e pelo mundo. Não dá para citar nomes, são tantos que seria uma lista imensa e injusta, pois alguém seria esquecido.

Hoje Campinas é mais um hub interligado e, depois de alguns problemas adquiriu uma feição mais cosmopolita e integrada. Quero curtir uma cidade descolada, moderna, equilibrada e com qualidade de vida, mesmo que seja para passar final de semana. Para mim é uma delícia sair de São Paulo e aportar, tarde da noite, no meu prédio de onde a varanda se debruça para uma mata preservada (APA). De lá vejo os aviões pousarem e decolarem, lá bem longe, de ... Viracopos.

Eu nem penso que as peças folclóricas que aprendi a acreditar desde criança ainda não se concretizaram: a segunda pista do aeroporto, o trem de alta velocidade e o centro de convenções. Mas a rodoviária monstruosa foi implodida (não sei como insistiram em manter um contrato daquele traste, exemplo de má gestão), surgiram novos condomínios, shoppings e rodovias. Demorou, mas a gastronomia aprimorou-se, a hotelaria deu um show e os serviços profissionalizaram-se. Aí há que se dar nomes aos responsáveis: TRIP, The Royal Palm Plaza Resorts e o Campinas e Região Convention and Visitor Bureau. Eles fizeram a diferença para melhor no turismo regional. Ainda há muito a fazer, mas houve avanços.

E há o nosso lindo e verdejante entorno de cidadezinhas com chácaras, condomínios, ruas de prazer (lojas, bares, restaurantes, baladinhas) e pertinho, a cidade mais descolada da América Latina: São Paulo.

Os problemas? No mês do aniversário de Campinas (236 anos) não falarei das mazelas que atingem várias cidades do país, inclusive a nossa! Mas me aguardem. Sou campineiro, posso falar bem ou mal, à vontade, com conhecimento de causa.

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