Blog do Vinho
A incrível história do vinho “campineiro” na Casablanca
por Suzamara Santos
Publicado em 1 de outubro de 2018

Angela Mochi e Marco Attílio, proprietários da Attilio & Mochi: totalmente realizados. Fotos: Divulgação

Dia desses bateu uma nostalgia danada dos meus primeiros passos na jornada do vinho. Eu ainda era editora da revista Metrópole (Correio Popular) e fui fisgada pela enofilia durante uma reportagem sobre tesouros escondidos em adegas particulares. Foi quando conheci o casal Angela Mochi e Marcos Attilio, ambos engenheiros de alimentos formados pela Unicamp, que tocavam dois negócios bem-sucedidos em Campinas, ambos no Cambuí: a Cachaçaria Brasil, especializada em cozinha brasileira, e a Art du Vin, loja de vinhos que rapidamente se converteu em espaço de eventos, onde os apaixonados pela bebida se encontravam para trocar informações, compartilhar momentos e cultivar o amor pelo vinho.

Deslumbrada com esse universo, virei frequentadora de carteirinha da Art Du Vin quase instantaneamente. Posso me gabar, fiz lá o primeiro curso básico da Associação Brasileira de Sommeliers (ABS-SP) fora da capital paulista e assisti ao nascimento da unidade campineira da entidade (hoje Sociedade Brasileira de Sommeliers). A lembrança desses bons tempos me despertou a curiosidade para saber o que andam fazendo hoje Angela e Marco. Bastaram dois cliques no Google e a surpresa.

Estão morando no Vale de Casablanca, Chile, onde são proprietários da vinícola Attilio & Mochi, empreendimento novo que já chama a atenção pelos rótulos de alta qualidade que produz. Eles deixaram para lá a fama de “exótico casal de brasileiros que faz vinho tinto na Casablanca” (a região é especializada em brancos) e passaram a se impor como vinhateiros audaciosos, com gana para quebrar regras e inventar moda. O gosto pessoal rege o perfil da marca – vinhos de clima frio costeiro, elegantes e gastronômicos.

A bodega hoje integra o Movimiento de Viñateros Independentes do Chile (Movi), que nesta quinta (04/10/18) promove no Museu do Vinho, em São Paulo, a 2ª Movinight, uma grande festa do vinho chileno, com 37 marcas participantes. Depois de algumas trocas de mensagens entre Angela e eu, saiu esta entrevista, em que ela refaz a sua surpreendente trajetória de Campinas ao Chile e conta como foi implantar um projeto ainda pequeno em números, mas nada modesto em conceito. “O vinhedo é altamente tecnológico, emprega postes metálicos, está orientado para maximizar a insolação e a ventilação, não ocupamos herbicidas ou agroquímicos (com exceção do enxofre), a nutrição das plantas é a base de composto a partir dos resíduos da bodega e todo o sistema de irrigação é movido a energia solar.” Segue o papo:

Vinhos Attilio e Mocchi primam pela elegância, frescor e mineralidade: influência marítima                                                             .

Blog do Vinho – Você e o Marcos Attilio foram bastante atuantes entre os anos 2000/2010 em Campinas, como proprietários de restaurante, a Cachaçaria Brasil, e loja de vinhos, a Art du Vin. Vocês já pensavam em produzir vinhos naquela época?

Angela Moch – Nós começamos a produzir vinhos aqui no Chile quando ainda morávamos em Campinas, em 2006. No início estava mais para hobby, mas nossos clientes gostaram tanto que resolvemos levar a sério. A marca era Sucre, e talvez alguns Campineiros ainda se lembrem desse Cabernet Sauvignon e Carmenère que foram nosso pontapé inicial como produtores. No princípio, comprávamos uvas dos agricultores locais e arrendávamos espaço em uma bodega para poder produzir. Em 2009, tomamos a decisão de vir para cá após uma semana de férias em um paraíso chamado Tunquen, uma praia deserta que fica na costa de Casablanca.

Por que escolheram o Chile para se instalarem e não o Brasil, que há alguns anos vive uma fase de expansão da indústria do vinho?

Mais que escolher o Chile escolhemos Casablanca. Nossa decisão de vir para cá foi motivada por dois fatores: Primeiro, melhor qualidade de vida, poder viver tranquilos, no campo e perto do mar; depois para fazer vinhos de alta qualidade, em escala humana, vinhos de clima frio e costeiro, que são elegantes e harmônicos com a comida. Somos absolutamente apaixonados por esse estilo de vinho e aqui temos as condições ideais para produzir. No Brasil essa condição não existe.

Como foi a transição do Brasil para o Chile? Foi difícil idealizar e realizar o projeto Tunquen Wines Attilio & Mochi?

O começo foi muito difícil. Chegamos aqui em 2011 e somente em 2012 conseguimos encontrar o campo dos nossos sonhos. Mas para converter um campo cru em vinhedo e vinícola, muito trabalho foi necessário. Nos primeiros anos compramos uvas e arrendando espaço em bodega de terceiros. Com o tempo, plantamos o vinhedo e construímos a bodega. Agora, recém em 2018 estamos comemorando a segunda colheita de nossas próprias uvas. Essa jornada foi marcada por muitos desafios. Você imagina convencer os chilenos que um casal de Brasileiros poderia fazer bons vinhos no Chile? E ainda escolher Casablanca, uma terra de brancos, para fazer tintos? Não foi fácil…. Muitos dos nossos amigos juravam que voltaríamos ao Brasil no primeiro ano! Com sorte, trabalho árduo e persistência, hoje somos reconhecidos no país (e também fora dele) pela qualidade e também por inovações que aplicamos no vinhedo, na bodega e nos processos que realizamos. Me dá muito orgulho termos sido convidados pelo governo a representar o setor de vinhos em uma reunião entre Michelle Bachelet e John Kerry há dois anos. Da mesma maneira, que Tunquen Malbec tenha sido eleito o Melhor Malbec do Chile no ano passado foi algo incrível.

Vinho experimental laranja está em sua segunda edição: blend de Roussanne com Viognier

Vocês estão no Valle de Casablanca, uma região elogiada pela qualidade dos vinhos brancos, mas produzem tintos de muita expressão. Como você define esse terroir?

As regiões mais conhecidas do Chile – Maipo, Colchagua e Maule – estão em um vale protegido da influência do Pacífico pelas montanhas da Cordilheira da Costa e, por consequência, o clima é mais quente e favorece a produção de uvas tintas de colheita mais tardia, como a Cabernet Sauvignon e a Carmenère. Casablanca, por outro lado, dá de frente para o Pacífico (nossa propriedade está a somente 20km do mar) e recebe a brisa fria do oceano durante todo o dia, o que possibilita a criação de vinhos elegantes e com bastante frescor, muito gastronômicos. Já o solo é uma mistura de granito, areia e argila, entregando essa característica “mineral” aos vinhos do Vale. Por estarmos em uma região fria, os vinhateiros locais se especializaram em brancos e Pinot Noir, variedades que amadurecem mais cedo. Agora, o fato de sermos muito inquietos nos faz tentar coisas diferentes, e gostamos de desafiar as verdades estabelecidas. Por isso, entre as 8 variedades que plantamos, cinco são tintas. Temos Pinot Noir, Syrah, Cabernet Franc, Malbec (que foi eleito o Melhor do Chile no ano passado) e o único Grenache de Casablanca. Já entre os brancos, produzimos Sauvignon Blanc, Viognier e Roussanne.

Vocês já trabalham só com uvas próprias ou ainda compram de outros produtores? Emendando: quais são as que você considera melhor adaptadas ao local?

2018 foi o primeiro ano que vinificamos somente uvas próprias, e estamos absolutamente contentes com a qualidade que obtivemos do vinhedo. As oito variedades que temos plantadas estão indo muito bem, mas acho que ainda é cedo para eleger as melhores. Quando decidimos plantar Grenache, muitos disseram que era loucura e que não daria certo, mas o resultado que tivemos em tão pouco tempo, mostra que essa era outra “verdade” equivocada. Casablanca tem uma história de pouco mais de 30 anos, então muita experimentação ainda tem que ser realizada para poder definir o que é melhor para o vale. Um detalhe importante é que Casablanca está dividida em sub-vales, que por sua posição geográfica apresentam maior ou menor influência do mar. Nós estamos em Orrego Arriba, mais próximos ao Pacífico, e aqui o microclima é especial, pois somos mais extremos em relação aos outros sub-vales. No Inverno, nossas temperaturas são mais baixas, temos mais problemas com geadas. Por outro lado, no verão, temos mais horas de sol, o que permite a perfeita maturação das uvas tintas.

Campo tem 5,5 hectares, dois deles plantados em alta densidade, o que se traduz em 7 mil plantas/ha

A vinícola é propriedade de dois engenheiros de alimentos. Têm enólogos na empresa ou são vocês que fazem tudo e tomam todas as decisões?

Marcos e eu somos responsáveis por 100% das decisões, seja no vinhedo ou na bodega. Não temos enólogos e nem assessores.

Tem algum vinho ou linha de vinhos que você considera o cartão de visita da Attilio & Mochi? Por quê?

No começo éramos “os brasileiros que fazem tintos em Casablanca”. Essa foi uma marca bastante importante. Hoje, já estamos na oitava safra e cada vez mais gostamos de experimentar com coisas diferentes. Nosso portfólio inclui um branco (Sauvignon Blanc), cinco tintos (Malbec, Cabernet Franc, Pinot Noir, Syrah, Grenache), também um vinho “laranja” chamado Amber que está na segunda edição (blend de Roussanne com Viognier) e logo vem um fortificado, que por ora estamos chamando de Saudade, feito a partir de Malbec e Syrah. Então, cada vinho é único e nossa marca é fazer os vinhos que gostamos de beber, ainda que para isso seja necessário desmistificar os padrões existentes.

Pode descrever em números a vinícola: produção anual, cepas, hectares plantados, infraestrutura?

Nossa empresa é muito pequena, somos três pessoas trabalhando. O campo tem 5,5 hectares, dos quais dois estão plantados em superalta densidade, o que se traduz em quase 7.000 plantas/ha. O vinhedo é altamente tecnológico, emprega postes metálicos, está orientado para maximizar a insolação e a ventilação, não ocupamos herbicidas ou agroquímicos (com exceção do enxofre), a nutrição das plantas é a base de composto a partir dos resíduos da bodega e todo o sistema de irrigação é movido a energia solar. Da mesma maneira, a bodega – apesar de bastante pequena – também conta com tecnologia que nos permite alcançar os resultados que queremos. Fermentamos em tanques de aço inox e envelhecemos os vinhos em barricas, 95% francesas e europeias. A estrutura da bodega está construída com contêineres reefers, que nos permitem manter a temperatura ideal das salas de barrica e de guarda de garrafas sem que seja necessário o uso de energia elétrica. Nossa produção anual está entre 15 e 20 mil garrafas

Tunquen, praia deserta da Casablanca, batiza parte dos principais vinhos produzidos pelos campineiros

Vocês têm estrutura para receber visitantes, com passeio nos vinhedos e degustação. Recebem muitos brasileiros? Aproveitando, é preciso se inscrever antes?

Recebemos brasileiros, mas ainda são poucos. A maioria dos que nos visitam são europeus e americanos. Como vivemos na propriedade, não temos “portas abertas”, então uma reserva com antecedência é necessária, pois não recebemos sem reserva confirmada. Gosto muito de receber as pessoas aqui, e sempre me desdobro para liberar a agenda para isso. Uma dica que deixo é sempre nos contatar com a maior antecedência possível, pois assim vou organizando meus horários. As reservas podem ser realizadas pelo email info@attiliomochi.com, pelo Facebook ou por nossa página www.AttilioMochi.com

Seus rótulos são vendidos no Brasil? Como é o mercado para os seus vinhos?

Ainda não são, por incrível que pareça. Temos empresas interessadas e espero que em breve possamos despachar para o País. Como temos uma produção muito pequena, toda ela está comprometida com os clientes atuais, e recentemente conseguimos disponibilizar algumas caixas para o Brasil. Hoje a maior parte da produção vai para a Europa e Ásia. O volume restante fica no Chile e é vendido diretamente na vinícola e em restaurantes e hotéis.

 Têm algum projeto em andamento?

Acho que seria chato se tivéssemos só um, temos vários. Em relação aos vinhos, em 2018 lançaremos o primeiro Grenache de Casablanca, que considero uma vitória pessoal. Está sendo maravilhoso mostrar que Casablanca tem muito mais diversidade que se esperava. Também estamos lançando o primeiro vinho fortificado do Vale, e a 2ª versão do nosso vinho laranja experimental, o Amber. Estamos construindo uma área de recepção a visitantes (que espero estar pronta para o verão) e também desenhando a ampliação da bodega, o que deve ocorrer no ano que vem. Trabalho por aqui é o que não falta!!

Vocês estão realizados como vitivinicultores?

Muito realizados. Foi a melhor decisão que tomamos. Mais que produzir vinhos, a Attilio & Mochi nasceu como um projeto de vida. E viver no campo, produzir os vinhos que gostamos, ter um cachorro encantador, uma horta em casa, morar ao lado do mar. Não tem preço!!

 

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