Consoantes Reticentes…
A Minha Paixão Nacional
por Marcelo Sguassábia
Publicado em 24 de janeiro de 2012

24 de janeiro. Véspera da comemoração de 458 anos da cidade de São Paulo? Aniversário da minha tia Patrícia? Um dia após a completude dos meus 22 anos e 5 meses? Não. A data soa especial pra mim por um motivo que foge do gosto habitual do brasileiro e reflete uma subversão proposital das padronizações impostas pela sociedade tupiniquim. Hoje foram anunciados os indicados ao Oscar 2012. Este é o momento de perguntas do tipo: “Mas o que isso muda na sua vida?”. E foi pensando neste questionamento, por vezes plausível, que escrevo este texto, na ousada pretensão (perdoem-me o pleonasmo) de incentivar cinéfilos em potencial a se apegarem a alguma causa que extrapole o fanatismo gratuito e agregue valor à sua existência e ao seu desenvolvimento pessoal e intelectual.

Pra ser mais específico, minha crítica vai para os adoradores do futebol, um esporte que, admito, mobiliza milhões em torno de uma atividade que os distancia de ofícios menos saudáveis, além de ser a alavanca para a transformação social de muitos moleques com suas bolinhas de papel em cada canto deste país. O problema reside, no entanto, em quem utiliza o status de torcedor para menosprezar aqueles que têm opiniões diversas das suas, como se torcer para um time que, naquele momento, seja adversário em determinado campeonato, fosse motivo para retaliações e violência.

Talvez se eu dissesse que a razão pela qual meu 24 de janeiro tenha sido especial fosse a final de um campeonato futebolístico, isso não gerasse olhares denunciativos. Vejam bem: não estou anulando a possibilidade da coexistência entre as duas visões, mas é inegável a monopolização do gosto brasileiro por uma atividade que gera tantos riscos à existência do torcedor que pretende apenas torcer.

Com o cinema é diferente. Tudo é diferente. Eu posso torcer pelo terror, e nem por isso ser esfaqueado pelos fãs das comédias românticas; eu posso gostar dos dramas sem ter de prestar contas aos espectadores das ficções científicas; o embate existe, as retaliações são comuns, mas elas moram no patamar do conhecimento, das ideias, da vivência cinematográfica, das sensações que apenas uma sala escura e uma tela gigante proporcionam, sem resvalar para uma rixa ilógica, irracional. Quem escolhe este caminho, sabe que, além de ter suas percepções apuradas pelo encontro das artes que convergem no cinema, pode desenvolver sua argumentação, sua escrita, sua oratória, tudo isso tendo a mesma disciplina daqueles que vivem pelo futebol.

Eu vivo pelo cinema, e acho fantástico poder acompanhar, mesmo que de longe (por enquanto) o desenvolvimento de uma arte que me faz rir, chorar, denunciar, indignar-me, sofrer, amar, ter medo, sonhar, viajar. Como não se apaixonar por algo que, em 90 minutos, proporciona um misto de sentimentos, além de conhecimento e uma ampla visão de mundo? No começo do texto eu usei o termo plausível para definir os narizes torcidos de quem não entende que 24 de janeiro entra pra história da minha vida ao abrir um mês de experiências sensoriais inesquecíveis até seu auge, em 26 de fevereiro, dia da entrega das estatuetas do Oscar.

Utilizei o “plausível” por concordar que esta premiação não é exatamente um termômetro fiel do que há de melhor no mundo do cinema (por questões comerciais, políticas, econômicas), mas o Oscar foi para mim um meio pelo qual eu iniciei meu relacionamento com o cinema. Foi acompanhando o desenrolar das premiações que eu conheci os grandes clássicos, tive parâmetros para definir o que é bom e o que não é, cresci e me tornei o que sou hoje. Eu e os outros adoradores da sétima arte somos todos um grande time, sem a necessidade de embates que interfiram no nosso convívio. Trocamos experiências, ajudamos uns aos outros a crescer e compartilhamos, sempre, a nossa paixão pelo cinema.

O uso do cinema neste texto é um mero exemplo para dizer que, independente do que se ame fazer, nenhum crescimento acompanha a ignorância. Por mais arraigados que estejam alguns preceitos em nossa sociedade, é de sua responsabilidade construir um amanhã sólido, pacificado e inteligente. Quanto ao caminho, só você pode descobrir, mas de uma coisa tenho certeza: a cultura, nas suas mais diversas manifestações, é a instituição na qual mais confio para atribuir a responsabilidade de mudar vidas, de construir futuros, e não apenas dias vazios.

A partir de hoje começo a viver o meu fanatismo cinematográfico. É hora de torcer, roer as unhas, acompanhar freneticamente os noticiários, ter falta de ar, igualzinho a uma final de Copa do Mundo entre Brasil e Argentina. No próximo mês, te convido a jogar comigo neste gramado de sensações e acompanhar, filme a filme, lance a lance, a escalação dos indicados ao grande prêmio do cinema mundial, a caminho do gol. Vamos compartilhar, juntos, nossa grande paixão nacional. 

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