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Amansado: vinhas antigas, trato orgânico e muita personalidade
por Suzamara Santos
Publicado em 10 de março de 2019

Linha de vinhos Amansado: direto da sub-região de Luja de Cuyo, em Mendoza. Foto: Divulgação

Antes de falar das novidades que acabam de chegar ao portfólio da Nuova Esperienza Mendoza, da Vecchio Mondo, um recado: se você é daqueles que se referem aos produtos orgânicos, biodinâmicos e naturais como “coisa de natureba” é bom ajustar o vocabulário, pois corre o risco de parecer desatualizado. A expressão carrega um ranço preconceituoso que não faz justiça a uma tendência cada vez mais consistente, não só na vitivinicultura, como em praticamente toda produção de alimento no mundo. O assunto vai longe e requer fôlego à parte, já que cada uma das categorias alinhadas com as preocupações ambientais tem particularidades e regras próprias que variam de país para país.

Mas vai aqui um resumo. Para ser breve, vou considerar como vinho orgânico aquele proveniente de agricultura de manejo orgânico, ou seja, sem uso de pesticidas químicos, fungicidas, herbicidas e qualquer outro insumo que não venha da natureza. Muitos produtores já aderem a tais práticas em busca de um produto mais puro e conectado com a ecologia e o meio ambiente, embora abram mão de colocar o selo correspondente no rótulo, o que lhe exigiria a adequação a uma série de protocolos rígidos, impostos pelas agências certificadoras.

Quanto à elaboração, ou seja, o trabalho do enólogo na vinícola, o orgânico pode ou não adotar as práticas convencionais desenvolvidas pela enologia (clarificação, filtragem, correção de acidez e de tanino, uso de leveduras especiais e de sulfitos etc). Ou seja, é orgânico, mas pode ser convencional na vinícola. Já o vinho biodinâmico, também tem liberdade para usar os recursos enológicos convencionais e as vinhas recebem os mesmos cuidados da agricultura orgânica. A principal diferença, é que os biodinâmicos veem uma conexão ainda mais complexa entre homem, natureza e universo, mesclando conhecimentos químicos, geológicos e astronômicos. Essa linha empresta as ideias holísticas do austríaco de Rudolf Steiner (1861–1925) e levam para o vinhedo a interpretação das fases da lua, os movimentos dos planetas, o equilíbrio no entorno etc. Mas atenção: não se trata de esoterismo.

Se você achou os orgânicos e os biodinâmicos radicais, prepare-se para encarar os vinhos naturais. Aqui, sim, além de respeitar as normas da agricultura orgânica, rejeita-se praticamente todos as estratégias da enologia tradicional, colocando o vinho o mais próximo possível de “uva engarrafada”. A grande polêmica é quanto ao uso de conservantes, no caso, os sulfitos. Para uns, o sulfito é um recurso sanitário importante para a qualidade e segurança do vinho. Para os defensores dos naturais, trata-se um elemento dispensável, uma vez que a própria uva produz seus conservantes e, além disso, a meta é sempre a mínima interferência do homem no vinho. Bem, a conversa vai longe e depois a gente continua.

VAMOS AO QUE INTERESSA

Toda esta introdução é para falar dos vinhos orgânicos de Mendoza, Argentina, apresentados na quinta-feira, véspera de Carnaval, no Seo Rosa Gramado. Foram degustados três rótulos da linha Amansado Jovem e um da Familia Cecchin, que se mostraram equilibrados, corretos, desses que a gente classifica como “fáceis de gostar”. Sobre os Amansado, a ilustração bem-humorada de um cavalo no rótulo explica o nome da marca. É uma referência a tempo de espera, a apuro, a evolução. Aí, podemos associar à idade das vinhas, mais de 50 anos, o que indica plantas mais complexas e maduras, qualidade valorizada na produção de vinho.

A uvas provêm da sub-região de Luja de Cuyo, precisamente, das Finca La Elsi, com dez hectares plantados, e La Heroica, às margens do Rio Mendoza, adquiridas pela família Brennan. O enólogo que assina os vinhos é o respeitado Juan Pablo Michelini. Para abrir a noite, um Amansado Jovem Rosado feito a partir de Cabernet Sauvignon. A iluminação noturna do Seo Rosa não favoreceu a análise visual, mas dá para afirmar que o vinho tem um bonito tom entre casca de cebola e grená. Bastante frutado, com boa acidez e de estilo descontraído, apesar dos 14% de teor alcoólico.

A noite seguiu com um Amansado Jovem Cabernet Sauvignon, um tinto equilibrado, com notas de frutas vermelhas frescas e ervas no desenvolvimento, como tomilho e sálvia. Nenhum vestígio de pirazina, responsável pelo aroma de pimentão dessa uva, o que é muito bom. Da mesma linha, a surpresa da noite foi o Amansado Jovem Pedro Ximenez, uma uva bastante associada à Espanha, em especial, ao Jerez. Vinho com açúcar residual na medida, ótima acidez e um delicioso toque mineral. Outra “penetra” muito bem-recebida na degustação foi o Família Cecchin Graciana.  Esta vinícola também se destaca pelos vinhos orgânicos e, aqui, dá a versão novo mundo para uma uva europeia pouco conhecida dos brasileiros. A Graciana é originária da Espanha, regiões de Navarra e Rioja, e pelo que vimos, se aclimatou bem ao terroir mendocino. Vinho elegante, delicado, boa acidez e taninos macios.

E assim rolou a noite. Podemos cravar, sem medo de errar, que tomar vinho orgânico é uma opção saudável, politicamente correta, contemporânea e que traz muito prazer.

ONDE ENCONTRAR

Vecchio Mondo, www.vecchiomondo.com.br, FB: VecchioMondoVinhos, Instagran: @vecchio.mondo, email: fabricio@vecchiomondo.com.br

 

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