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As Campineiras – “A Hipocondríaca da Ponte Preta”
por Cesar Póvero
Publicado em 30 de agosto de 2014

Assim que se casou, Clotilde se mudou com o marido para o bairro da Ponte Preta, não só pelo bairro, havia uma paixão, ela era também uma grande torcedora do time, algo um pouco fora do normal para uma mulher naquela época. Sim, pois quando se mudou para lá, seus filhos nem tinham nascido e saiu de lá já avó, uma senhora idosa, não chegou a conhecer os bisnetos. Porem antes disso aconteceram muitos fatos curiosos, já que a saúde de Clotilde era muito frágil, ninguém sabia quanto duraria sua vida de cristal, um coração de porcelana, assim mesmo definida por ela.

Quando seus filhos já namoravam, as sobrinhas também, Clotilde praticamente recusou o convite para ser madrinha de casamento, afinal para que escolher uma madrinha que pouco iria viver? Clotilde sempre vivia no hospital Casa de Saúde, era o seu recanto preferido, assim vivia passeando de ambulância subindo e descendo a Avenida Monte Castelo. O que facilitava tais idas e vindas, era certo parentesco um tanto distante com um médico do mesmo hospital, já que sua situação financeira nunca havia sido privilegiada. Todos já sabiam, a qualquer hora, Clotilde poderia não voltar da viagem de ambulância!

As grandes olheiras denunciavam seus sintomas, coração sempre fraco, estomago que não funcionava bem, pulsação sempre cheia de cuidados, o fígado não ajudava e com o passar dos anos, o peso da idade, todos os ligamentos e juntas pareciam querer desmoronar em doenças, nada que comia fazia bem, uma tristeza.

Relutando, aceitou ser madrinha da sobrinha mais nova e sobreviveu. Tanto sobreviveu, que a família foi perdendo seus entes queridos, os netos já bem crescidos e Clotilde sempre anunciando sua última partida para o hospital, provavelmente sem volta. As sobrinhas ficaram viúvas, seus cunhados e cunhadas se foram, e Clotilde ali frágil como um jequitibá rei. E Clotilde sempre com as agulhas e linhas nas mãos fazendo tricôs e crochês. Com o tempo os boatos e comentários eram diversos, até que ponto os diversos problemas de saúde existiam? Provavelmente sim, mas ninguém ousava apostar até onde era verdade. O marido, pobre homem, vivia como um escravo da saúde da esposa, os filhos sempre se sentindo a beira da orfandade.

Entre boatos e fios de tricôs e crochês dos vários artesanatos, com os quais presenteava os familiares, que saiam das mãos sempre inchadas de Clotilde, escapavam maledicências, fofocas, a língua de Clotilde era mais pontiaguda que suas agulhas. Tal fama era tão grande quanto à fragilidade de sua saúde.

Certa vez uma de suas sobrinhas, inocentemente reparou que suas olheiras desapareciam quando estava internada, que a mudança de ambiente lhe causava bem estar e segurança. Clotilde muito sem graça exibiu um sorriso amarelo. Somente anos depois o cabeleireiro de Clotilde revelou a uma das sobrinhas que frequentava o mesmo salão de beleza, que as tais olheiras saiam com água, isso mesmo! Maquiagem, grande mistério, pois ninguém sabe onde ficava tal estoque, já que se tratava de uma mulher sem vaidade e que não tinha saúde para andar na rua nunca, os pulmões não suportavam, para tudo, os filhos ou o marido, tinham que sair e comprar para ela.

Seguindo o tempo, mais cunhados partiram desta para melhor, cunhadas, os maridos das sobrinhas, inclusive aquela da qual ela não sobreviveria ao casamento, ficaram viúvas. O marido de Clotilde, forte como um touro se foi repentinamente. Clotilde viveu muito, cada vez mais com a saúde mais abalada.

Num dia, os fios de linha que contornavam um pano de prato cessaram, a ambulância rasgou o bairro da Ponte Preta e Clotilde não mais voltou, com olheiras ou sem? Ninguém sabe, ninguém se atreveu perguntar aos filhos se sabiam das proezas cosméticas de Clotilde e quais realmente seriam os seus verdadeiros problemas de saúde, tais mistérios foram para o Cemitério das Saudades em seu jazigo perpetuo enquanto a Ponte Preta levava a torcida ao delírio com mais um gol.

Qualquer semelhança com fatos ou pessoas campineiras, é uma mera coincidência, esta é uma obra de ficção.

Créditos da imagem: Estádio da Ponte Preta em Campinas.

 

 

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