Liquidificultura
As Campineiras: “A Ridícula da Vila Industrial”
por Cesar Póvero
Publicado em 15 de agosto de 2014

Stella nasceu na Vila, – a Vila Industrial – nas ruas próximas ao Teatro Castro Mendes, sua mãe a trazia pela mão, atravessando o túnel que liga o centro de Campinas a Vila. Stela era uma produção independente, algo muito ousado para os anos oitenta. Tal ideia surgiu anos antes, enquanto assistia à novela Dancyn Day’s, sua mãe sonhava em parir, mas nada de aparecer um pretendente que valesse a pena. Quando Gilberto Braga escreveu sua novela “Água Viva”, anos depois, nascia a nossa protagonista que levava o nome da personagem de Tônia Carreiro, “Stella”.

Desde pequena, nossa personagem já era bem diferente da requintada personagem da novela, pois brincava nas ruas da Vila, bem ali perto do antigo Curtume, subia em árvores, praticava as mesmas peraltices dos moleques. Sua mãe sempre era chamada, devido o comportamento da filha na escola.Stella cresceu assim, sem medo de ser ridícula, sempre com short por debaixo do vestido para não causar vexame, usando todas as possibilidades em meio aos amigos da Vila. Sua mãe, em certa época, decidiu voltar às origens, ficar mais próxima dos parentes em Minas Gerais e assim deixou a Vila, Stella sentiu de deixar vários amigos da rua, os quais aceitavam seu lado ridículo de menina/moleque. Entre todos havia João, um dos quais mais gostava de brincar.

O tempo passou e a mãe de Stella, já casada, e após presentear a filha com irmãos e irmãs, sim, sua mãe gostava muito de ter filhos, mas agora Stella já era uma mulher. Não era mais aquela menina/moleque, tinha certa vaidade, mas falava o que pensava e o que queria, e nunca levava desaforo para a casa, nem mandando embrulhar para viagem.

Agora o amigo João que havia deixado na pré-adolescência, também era um adulto, nunca havia reparado nisso, era um homem menor do que os grandalhões, os quais lhe interessava, aqueles capazes de dominá-la. Porem Stella e João eram grandes amigos, saiam juntos com os amigos da Vila entre outros.

Stella abusando do “ser ridícula” trabalhava na noite campineira, vestida ridiculamente de personagens caricatos em festas temáticas e eventos.

Um dia, repentinamente beijou João, namorou João, este namoro terminou e voltou por diversas vezes. Brigavam tanto e se desejavam tanto, algo inexplicável, um fenômeno da natureza cheio de força.

Entre o inexplicável e o imprevisível, João sofreu um acidente e aparentemente ficou bem, mas aos poucos, com o passar dos dias, seus “possíveis fusíveis” foram se apagando, um a um, ele não ouviu seus avisos, os cuidados, os exames para prevenir sequelas. Ao contrário dos contos de fadas, seu príncipe adormeceu e logo Stella soube que esperava um filho dele. Hoje seu filho tem um ano, ela visita seu príncipe, ele ainda nada diz, esboça sorrisos, reage com olhares, ninguém sabe até que ponto ele reconhece sua amada e entende que aquele menino é seu filho, tudo indica que sim.

Mas Stella nunca desiste, sempre animada visita o amado, cuida do filho e da casa onde vive hoje na Vila, onde tudo começou, esta sempre por ali, descendo do ônibus na Av. João Jorge e seguido pela Av. Sales de Oliveira em direção a sua casa. De noite, se diverte e ganha sendo coloridamente ridícula numa casa noturna, entre outros trabalhos para se manter e seu filho também, se divertindo e divertindo os outros e mais do que nunca se permitindo ser ridícula, afinal até o destino, nada parecido com os contos de fadas, as vezes pode ser ridículo, por que “ela’ não seria? Caia na gandaia! Entre nessa festa!

Fotos: De cima para baixo, casas da Vila e abaixo, Teatro Castro Mendes

Qualquer semelhança com fatos, pessoas reais de Campinas, é mera coincidência, esta é uma obra de ficção.

 

 

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