Liquidificultura
As Campineiras – “A Sereia do Taquaral”
por Cesar Póvero
Publicado em 5 de junho de 2018

Agatha e a água nunca se deram bem e suas vidas se cruzaram sempre, muito além da simples hora do banho. Já, suas duas irmãs sempre gostaram de nadar, mergulhavam, ela não, sempre sequinha.

Isso era um grande contraste, pois na época das matinês, filmes para crianças exibidos pela manhã ou á tarde, seu pai a havia levado nos anos setenta para assistir um filme sobre sereias no Cine Windsor e ela ficou hipnotizada, sonhava com aquilo.

Porém, seu pai era um exímio nadador, apenas como hobby, também praticava remo, já sua mãe, não gostava de entrar na piscina, não mergulhava, mas não tinha nenhum problema com a água, sua mãe apenas tinha vergonha de no clube vestir o maiô. Então assim fazia companhia para a filha.

Assim Agatha sempre achou que era a filha menos querida do papai, por que era a que não nadava. A sereia que não deu certo.

Algumas tentativas pelo pai foram feitas e as irmãs tentaram ajudar, distraindo Agatha. De nada adiantava, logo ela percebia que estavam tentando colocá-la na piscina e armava o maior berreiro.

Certo dia já adolescente, uma médium lhe disse que ela havia morrido no mar em sua última encarnação, sem sequer ela ter mencionado o medo. Ali Agatha encontrou uma certa explicação. Foi nesta época que assistiu a estreia de “Splash” – uma sereia em minha vida. Filme com Daryl Hannah e Tom Hanks no Cine Jequitibá. Ficou apaixonada por aquela história de amor.

Mesmo assim já adulta fez natação e conseguiu desafiar o medo e aprender a nadar. Na praia também deixava a água lamber os joelhos, até se arriscava deitar quando as águas estavam calmas e aí então o manto azul a cobria e ia e voltava.

Esta suposta fobia nunca a impediu de amar a hora do banho onde demora demais, adorava a água no copo, ou em qualquer lugar, sua transparência, sua cristalinidade, e a sorvia com gosto. Garota sempre muito hidratada.

A água exercia certo fascínio e beleza ao mesmo tempo, lembrava-se da infância quando achava que seu pai preferia as irmãs do que ela, mas era ela que ele levava no Parque Portugal, conhecido como Lagoa do Taquaral para ver a caravela. Aquela embarcação causava medo e sedução.

Até chegou a dizer para seu pai que se fosse uma sereia poderia estar nadando ali, mas ele logo a consolou que uma sereia não sobreviveria ali, pois a água era muito suja e turva.

Também ia levar pão para os patinhos no lago que havia no jardim que ficava bem no meio do Viaduto Miguel Vicente Cury, uma bela área verde, chamado de – o “Lago dos Cisnes”. Um dos cartões postais da cidade nos anos de 1970, exibindo um cenário que parecia um oásis com “aves que passeavam num espelho d’água entre os canteiros e as árvores” com um relógio de sol, um lugar de lazer para todas as faixas etárias.

Nunca esqueceu os passeios ao Bosque dos Jequitibás onde admirava o chafariz que jorrava, ou então o pequeno lago da Praça Carlos Gomes, onde também queria alimentar os patos que disputavam um pedaço de pão.

Hoje a família encolheu, seus pais faleceram, suas irmãs se casaram, Agatha não se casou, apenas morou junto e não durou muitos anos. Ainda mora no taquaral, num apartamento próximo a Avenida Nossa Sra. De Fátima, esqueceu como se nada, não praticou mais.

A água fascinante das piscinas de azulejos azuis do passado agora é distante. Nem lhe incomoda mais, sonho antigo. Agora suas irmãs nem vão mais ao clube, nem mesmo gostam de praia preferem cartões postais mais cinzentos.

Hoje é uma mulher madura e o azul da água vem em galões de água para beber para dentro de seu apartamento e Agatha adora receber os rapazes que trazem de bicicleta a sua fonte para matar a sua sede. Fonte, sedução, desejo, em sua liberdade, independência, sem medos, sem fobias. Mesmo com água no estoque pede mais, para não faltar o que beber.

Desta maneira os garotos sempre se ausentam um pouco mais que o normal da distribuidora e bebem da fonte de Agatha, e ela sussurra a frase musical, no ouvido de um de seus preferidos: – Água de beber, água de beber, camarada!

A sereia urbana em meio à cidade de concreto mergulha em sonhos reais de desejos, ainda em boa form,a sacia sua sede e a dos seus “peixinhos”, é assim que ela se refere à eles, os entregadores de água.

Enquanto não embarca na nau do amor, simplesmente navega em ondas de prazer e se imagina – “ela” como uma das sereias avistando a chegada da caravela… a Anunciação”

“Qualquer semelhança com campineiras reais é mera coincidência, pois este texto é uma obra de ficção”.

Créditos da imagem: Caravela no Parque Portugal, conhecido como Lagoa do Taquaral.

A caravela da Lagoa do Taquaral foi construída no próprio local e inaugurada em 1972. A embarcação é réplica da nau Anunciação que trouxe Pedro Álvares Cabral às terras brasileiras em 1500.

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