Consoantes Reticentes…
As Lições do Adeus
por Marcelo Sguassábia
Publicado em 27 de janeiro de 2012

A cena final de Os Descendentes, além de ser emblemática para o lindo desfecho da história, faz o espectador parar por segundos, ou até minutos, e pensar na sua própria vida, na condução que deu até aquele momento pra sua história e como fazer tudo valer a pena dali pra frente. No filme, quem tem que avaliar a todo o momento seu desempenho enquanto homem em seus diversos papéis sociais e se autodescobrir em cada erro e acerto é Matt King, advogado havaiano vivido por um excelente George Clooney, que arranca lágrimas e risadas em uma mesma cena.

Ao se deparar com a esposa em coma profundo após um acidente de barco, Matt se vê responsável pela manutenção da mulher em estado vegetativo que nunca o viu como um marido exemplar e a criação de duas filhas que sequer o conheciam como pai presente. Além dos problemas familiares, Matt é o depositário de um espólio familiar de mais de meio bilhão de dólares, e está sendo pressionado pelos primos (os descendentes do título) a assinar a venda das terras, que por sinal são de beleza ímpar, mostrando, juntamente com a trilha sonora típica, o paraíso que é o Havaí.

Paraíso confrontado pelo inferno pelo qual o personagem de Clooney está passando. Ele, sozinho, tem o desafio de construir laços familiares em meio à desconstrução da sua própria família. O mérito do diretor Alexander Payne está exatamente neste processo gradativo de aprendizagem; nas lições de vida, sem moralismos, que os protagonistas aprendem ao assumirem o turbilhão de sentimentos e sensações que a fase pela qual eles estão passando apresenta.

Quem assiste Os Descendentes se coloca no lugar da filha adolescente que quer apenas crescer, no lugar da filha mais nova que busca algum exemplo para seguir, no lugar da mãe quase morta que luta a cada minuto para deixarem que ela morra em paz, ou no lugar do pai que tem de lidar com a criação das filhas, com o casamento fracassado, com a pressão dos primos e com a descoberta de uma traição. Neste ponto é que entra a atuação digna de premiações de Clooney. Ele deixa de lado sua veia turrona e vive um personagem singelo, humano, que está aprendendo a viver com a situação criada pela própria vida. O fim iminente da vida da esposa parece fazer brotar uma nova vida na família King.

Pelo desenrolar da trama, Os Descendentes parece ser um daqueles queridinhos da Academia: tem na medida certa humor, drama, questões familiares, um elenco que conversa entre si em se tratando de qualidade, uma trilha sonora que privilegia os ukelelês e os sons tradicionais do Havaí, um protagonista poderoso e um roteiro que deixa qualquer um inquieto ao sair da sala de cinema. Para mim, o favorito à estatueta de Melhor Filme até agora.

Campinas.com.br sorteia ingressos para o filme. 

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