Liquidificultura
As Teatrais – “D” – Dia, Deus e o Diabo…
por Cesar Póvero
Publicado em 29 de maio de 2016

Cenário necessário uma ou duas cadeiras, uma mesa, duas xícaras.

Rabugentos e ranzinzas – Ele – Deus –  num pijama ridículo – Ela – Diabo – em extravagante traje de praia, chapéu, óculos, ampla saída de banho, muitas cores.

Diabo (para a plateia) – Batem a porta. É, parece mesmo que batem a porta. Incrível essa coisa chamada carência. Realmente o ser humano é muito carente. Vou abrir por pura carência, óbvio. Já sei quem bate, por isso que ainda não abri. Abre (berra) Vamos entra! E vê se para de bater nesta porta antes que ela parta em duas ou que eu lhe parta a cara em dois!

Deus (Feliz) – Hello!!! Que dia lindo!!! Mais um dia feliz em nosso universo!!!

Diabo (debochando) – Hello!!! Meu Deus, que chatice!!!

Deus – Você sempre me chama…

Diabo – Força de expressão!

Deus (boazinha e irônica) – Hum! De mau humor como sempre. Achei que você estivesse precisando de companhia.

Diabo – Enganou-se.

Deus – Então… se não precisa de companhia posso ir indo.

Diabo – Não! Já que veio, fique…

Deus – Esta carente?

Diabo – Não me fale esta droga de palavra! Quem fica carente é você que gosta de gente. Eu não fico carente, não gosto de gente. Apenas te recebo pra não te magoar. Assim, por alguns segundos enquanto dura sua visita, ouço alguns ruídos. Silêncio demais me enjoa.

Deus – Que bom que te faço algum bem, “sou” ruídos por alguns segundos. Podemos beber algo, um curaçau blue?

Diabo – Eu to tomando vodca, cacau e… é “um capeta”, é ótimo, muito popular ali no planetinha.

Deus – Deus me livre! Quero dizer, eu me livro (gargalha da piada).

Diabo (quase concordando) – Muito engraçado… e você fica rindo assim na beira do abismo?

Deus – Abismo?

Diabo – Como não, tudo já esta pra acabar, não?

Deus (perdida) – Não sei, está?

Diabo – Lógico que está, em que mundo você vive?

Deus – No mesmo que você.

Diabo – Alguém anda obedecendo aqueles dez mandamentos?

Deus – Calma, não é por aí… meu contador ainda não passou esses números atualizados…

Diabo – Não vê que estamos em tempos apocalípticos. Está tudo pela hora da morte, não vê as guerras, o aquecimento global, a criminalidade, a destruição em família, terremotos, tsunamis, prédios caindo… e aquela catástrofe, a pior de todas…

Deus – Qual delas… o navio?

Diabo – Lady Gaga! É um sinal do fim dos tempos!

Deus (extremamente feliz) – É a sua visão pessimista. Eu vejo muito mais bem do que mal. Sou o único ser que te suporta no Universo. Você não tem mais ninguém nesse mundo. Por isso me trate bem antes que eu desista.

Diabo – Olha só, a Madre Teresa botando as asinhas de fora.

Deus – É por isso que você vive num inferno, gosta de ver o circo pegar fogo.

Diabo (sarcástico) – Ah! Gosto. Gosto mesmo. Gosto muito! Quer que eu faça o quê? Que eu vá fazer um trabalho filantrópico. É por mim que o mundo tem alguma emoção, chamo de tempero…

Deus – Hoje você ta insuportável.

Diabo – E você ta açucarado demais, impossível de se engolir, me da até um choque de tanta glicose em excesso.

Deus – Se você não mudar o rumo dessa prosa e começar a falar como gente civilizada?

Diabo (gargalhando) – Gente civilizada! Deus me livre… ops!

Deus – Vamos tentar conversar como dois seres civilizados? Vamos começar tudo do inicio. Bom dia!!!

Diabo – Péssimo dia.

Deus – Acho que hoje concluirei algo grandioso.

Diabo – Tenho certeza que hoje definitivamente destruirei algo incomensurável.

Deus – Não sei por que aceito sua companhia tão pessimista?

Diabo – Essa sua bondade em demasia me repugna, tenho vontade de vomitar. Nunca acordou querendo ganhar, beber, comer, poder fazer e acontecer e não se preocupar com o resto deste mundo. Eu sempre preciso de mais, há tanto por aí.

Deus – Quero pássaros voando, sol brilhando, crianças sorrindo… só isso…

Diabo – Já vou. Agora você me tirou do sério, essa fome por felicidade me da asco. Isso que ta aí fora é culpa sua de só ficar assistindo tudo de braços cruzados. Ganância pela felicidade alheia. (…) Lembrei-me que te odeio.

Deus – Mesmo assim, te desejo só o bem!

Diabo – Não disse! Ganância pela ridícula alegria fútil da desumana humanidade.

Deus – E você, o que vai fazer agora depois de nosso encontro diário?

Diabo – Preciso de mais, mais, mais emoção, aventura! Acho que vou derrubar uma torre… onde será dessa vez?…

Deus (desistindo) – Então já vou indo, tenho que tomar as minhas providências, (desabafando) Diabo!!!

Diabo – Até amanhã, continue andando nas nuvens, até despencar…

Deus (saindo irado) – Vá pro inferno! Pro diabo que o carregue!

Diabo – E Não apareça mais aqui! E que Deus te leve… ops! Pra bem longe…. (confessa pra plateia) e depois eu é quem levo a culpa de tudo! Tudo eu, tudo eu… aí que calor… Sabe qual é o problema? É que você pensa muito, escolhe muito, fala demais… não sei como até hoje a humanidade não descobriu que Deus é mulher?

Deus – Olha só o que você me fez! Me deixa nervosa! Quebrei a unha! Fica tranquilo, nada vai acabar, só mandei fazerem uma faxina lá embaixo, detesto sujeira… (sai).

 

 

Compartilhe

Copyright ©2010-2018 Campinas.com.br. Todos os direitos reservados.

+ Liquidificultura