Consoantes Reticentes…
Barbeiro ou cabeleireiro?
por Marcelo Sguassábia
Publicado em 24 de maio de 2013

Sem desviar a atenção das tesouradas na cabeça de seu “freguês”, Nadir comunica sem muito alarde: “vamos mudar de endereço”! Eu, que iniciava meu corte com o Paulo, na cadeira à direita e o freguês do Zé (ou José, como costuma educadamente exigir), na cadeira da esquerda, perguntamos quase em uníssono: “como assim”? O tom surpreso tem explicação. Se fosse qualquer um desses novos pequenos comércios do Cambuí, que surgem num dia e fecham três meses depois, seria compreensível, mas o Salão Taquaral, ao que tudo indica pelo menos para nós, assíduos fregueses, foi um dos primeiros salões de barbeiro de Campinas, sugerindo inclusive que a cidade se formou em volta dele, muito antes até da existência do saudoso Turíbio. Exageros à parte, realmente fica difícil imaginar outro endereço para o nobre estabelecimento. “Vai ser aqui pertinho mesmo, na rua de cima”, se apressa em lembrar o Nadir, preocupado com a resistência de todos, inclusive dos fregueses diários, que disputavam logo cedo as primeiras notícias do Correio daquele sábado, e que quase caíram dos bancos. Passado o susto coletivo, o Paulo explica que já era hora de um espaço maior, com mais conforto, onde poderíamos inclusive levar nossas esposas, quando necessário.

Pronto! O assunto da manhã já estava determinado, e como em qualquer boa mudança, todo mundo se sentiu no direito de dar um pitaco, contribuindo com o futuro do negócio. “Nadir, vamos aproveitar e repaginar o visual do salão, começando pela logomarca. Vamos fazer um plano de marketing, um folder, desenvolver um site…” sugeri. O freguês da esquerda emendou: “Eu trabalho com um software de gestão para pequenas empresas, que cabe direitinho no negócio de vocês. Vocês poderão facilmente gerenciar o fluxo de caixa, montar a agenda de cada um, otimizando os horários, controlar as despesas e um monte de outros recursos, e com isso aumentar a lucratividade”! Um rapaz que parecia alheio a tudo, aproveitou a oportunidade: “vocês deveriam instalar uma espera telefônica. Tem um amigo meu que faz isso. Imaginem que legal…para falar com o Paulo, disque um, para falar com o Nadir, disque dois…” e foi logo interrompido pelo José que aprovou a ideia dizendo que não ter um atendente de telefone atrapalha muito o trabalho e completou dizendo que pensaram inclusive em contratar uma recepcionista, que pudesse entre outras coisas lavar a cabeça daqueles que desejassem (ideia reprovada imediatamente pelo Nadir, temendo distorções de papeis).

O Pompeo, um bugrino desses falantes, que já sabia da notícia – obviamente porque bate ponto no local diariamente – se envolveu no papo e sugeriu a infeliz ideia de uniformizar os profissionais, com o nome de cada um bordado do lado esquerdo, rejeitada pelos envolvidos com o argumento de que já era muita “frescura”, que cada um tem um jeito de se vestir. A reação provocou a ira do Betão, um loiro alto, quase ruivo, desses que tem, segundo o José, um cabelo “duro” de cortar, e que deveria pagar o dobro por isso: “não querem uniforme mas ouvi falar que vão abrir um salão pra mulheres, no prédio vazio ao lado…”, ideia também desmentida pelas partes.

O papo empreendedor acabou quando lembrei que com tanta inovação o salão teria que mudar o nome para Taquaral Cabeleireiros e elevar o preço do corte em aproximadamente 50 por cento. Com muita risada todo mundo entendeu que aquilo era só brincadeira e o Nadir concluiu: “não vai ter nada dessas frescuras não, só vai mudar o endereço mesmo. Isso aqui é salão de barbeiro”. Vamos falar de futebol!

Graças a Deus!

Wagner Bastos é publicitário, professor da PUC-Campinas e “freguês” do mundo simples e prazeroso.

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