Faça as Malas
“Boyhood”: quando o ordinário se torna extraordinário
por Marcos Craveiro
Publicado em 24 de dezembro de 2014

Não há como falar sobre o filme “Boyhood” (2014), a nova produção de Richard Linklater, sem falar da ousadia do projeto que o cerca. Durante doze anos, em média uma vez por ano, o diretor reuniu os mesmos atores centrais para contar a história de um garoto dos 6 aos 18 anos. Um projeto que a principio fora feito de forma quase secreta, em que poucos pareciam acreditar devido ao seu ineditismo e ao tempo de duração das filmagens, se torna um das produções mais surpreendendo do ano (ganhando vários prêmios da crítica especializada e sendo um dos mais cotados ao Oscar 2015). São tantos os fatores que fazem de “Boyhood” essa obra tão inesperada que fica difícil elencar todas eles. Aliado a esse “frescor” do ineditismo em uma obra de ficção, temos ainda o “prazer” de acompanhar todos os atores envelhecendo praticamente à nossa frente, principalmente o garoto Mason (Ellar Coltrane) e as mudanças tão propícias que ocorrem da saída da infância para a adolescência e início da fase adulta. A narrativa de “Boyhood” é praticamente isso: acompanhamos o cotidiano de uma família através das mudanças ocorridas com a personagem desse menino e sua relação com o mundo que o cerca e como isso acaba influindo (ou não) naquilo que ele se torna.

Difícil não olhar para Mason e o projeto/filme de Linklater sem lembrar-nos da personagem Antoine Doinel criado por François Truffaut no início da nouvelle vague francesa, nos idos dos anos 60. Assim como Mason, Doinel (feito pelo excelente ator Jean-Pierre Léaud) foi um personagem que, juntamente com seu ator, vimos crescer frente às câmeras. Desde “Os Incompreendidos”, de 1959, até “Domicílio Conjugal”, de 1970, acompanhamos as peripécias de Doinel pela vida. Truffaut filmou durante onze anos essa personagem (espécie de alter ego do próprio diretor), em quatro longas metragens e um média-metragem, enquanto Linklater nos mostra doze anos em apenas um filme. 

O tempo passa sem que nos damos conta, acompanhamos Mason em sua jornada como silenciosas testemunhas de alguém que se torna muito próximo a nós em questão de minutos, mesmo que o carisma do ator/personagem oscile durante essa jornada, do mesmo modo que a capacidade interpretativa do mesmo. 

Como lidar com um projeto no qual o acaso é tão presente? Como lidar com pequenos contratempos que possam surgir com os atores principais?

Linklater transforma “Boyhood” em seu projeto de vida, investindo longos doze anos em sua realização, feito no intervalo de outros filmes (“Antes do pôr-do-sol”, “O homem duplo”, “Eu e Orson Welles”, “Bernie” e “Antes da meia-noite”), assim como seus atores principais, Patricia Arquette e Ethan Hawke, que fazem os pais do garoto, e se comprometeram a ficarem todo esse tempo à disposição de Linklater.

Não existe no filme uma grande curva dramática e nem um grande acontecimento que molde Mason e seus familiares, o que vemos são pequenos fragmentos do cotidiano de uma família como outra qualquer: ida a escola, briga de irmãos (que vai mudando com o passar dos anos), problemas com pais divorciados, mudanças, entre outros. Linklater opta por não exceder no melodrama, deixando que esses fragmentos contem a história de Mason e de qualquer outra pessoa que possa se identificar com essa jornada. 

Aqui novamente Linklater faz uma escolha arriscada, se o projeto em si já possui doses grandiosas de erros que poderia acontecer, ele opta, na contramão do cinema comercial, feito de histórias edificantes, por uma narrativa quase minimalista, nos privando de uma jornada grandiloquente. Mas uma vez faz uma opção essencial para a realização de “Boyhood”: o tempo flui na narrativa, a história está nos pequenos gestos, nas pequenas coisas ordinárias do dia-a-dia que muitas vezes nem as notamos. Linklater transforma essa jornada “pequena” e “simples”, igual a tantas outras que vemos por aí, em um filme extraordinário, que nos leva a refletir quais são as escolhas que nos colocaram onde estamos.

Ao final da projeção nos sentimos parte dessa família e das agruras que acompanhamos durante esses doze anos, nos fazendo querer ver o que a vida ainda reserva para todas essas pessoas. Pode ser ficção, sabemos que são atores interpretando personagens, mas nunca um filme nos revelou uma intimidade tão próxima à nossa, vendo o que é crescer e se tornar um jovem adulto, com um mundo de possibilidades a sua/nossa frente. A emoção, quando vem, pois Linklater a evita em vários momentos chaves do filme, é simplesmente natural e desprovida de qualquer artificialismo/manipulação, assim como a cena da mãe que se irrita com a partida do filho para a faculdade e a solidão que terá que enfrentar após esse momento. Pequenos dramas que nos torna mais humanos e nos coloca cúmplices de uma existência que poderia ser do nosso melhor amigo, nosso primo, nosso vizinho ou nós mesmos.

Veja o trailer: 

 

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