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Casa Geraldo: a meta é fazer o melhor vinho de Minas
por Suzamara Santos
Publicado em 25 de setembro de 2018

Você, certamente, já ouviu falar dos vinhos da Casa Geraldo e, se for curioso, até tomou alguns. Pois essa vinícola, instalada em um trecho privilegiado da Serra da Mantiqueira, lá pros lados de Andradas, Sul de Minas Gerais, vem se destacando como mais um projeto bem-sucedido que tem no manejo do ciclo produtivo da parreira a chave do sucesso. O método, que está bem famoso no Brasil, é chamado ora de Dupla Poda, ora de Colheita de Inverno, ora de Ciclo Invertido, ora Dupla Poda Colheita de Inverno (o mais correto). Independentemente de como você o conhece, os nomes querem dizer a mesma coisa.

Eu gosto de chamar de vinhos da Mantiqueira porque acho bonito, embora o procedimento que induz a videira a produzir os frutos nos meses secos do Inverno para aproveitar a amplitude termina e a ausência de chuvas na região, seja aplicado também em outros lugares do Brasil. No último sábado (22/09/18), tive o prazer de conhecer a vinícola num passeio muito bacana, em que não faltou o jeitinho mineiro de receber, os bons vinhos produzidos lá e aquela comidinha farta, com sabor de roça e tradição, com uma pitada cosmopolita aqui e ali. Ponto positivo para a empresa, que percebeu cedo o potencial para enoturismo no local e tratou logo de oferecer infraestrutura para recepcionar grupos com mais de trinta pessoas.

A visita inclui caminhada até os vinhedos, onde algumas garrafas esperam pelos visitantes, bate-papo com a equipe da casa, almoço em bufê à vontade, incursão pelas adegas onde os vinhos repousam em barricas ou autoclaves e compras de vinhos, quitutes mineiros e souvenirs. Chegamos em tempo de ver apresentação de uma orquestra de violas que ocupava umas das amplas varandas anexas ao restaurante tocando clássicos da nossa música caipira. Tudo muito acolhedor e, importante, profissional.

A Casa Geraldo é tocada por três irmãos, que desempenham funções complementares na empresa. Carlos Geraldo Marcon, o Carlinhos, é o enólogo; Michel Marcon, o administrador; e Luís Henrique Marcon, agrônomo. Conversar com eles é como mergulhar na mais autêntica mineirice. Mas não se engane, o sotaque carregado, o jeito “simplão” e as sonoras gargalhadas são só moldura para o profundo conhecimento adquirido na lida com as vinhas, com a terra e com os complexos procedimentos de vinificação.

Casa Geraldo é um desdobramento da marca popular Campino. Elaborada com uvas americanas, a linha Campino é um sucesso comercial com seus respeitáveis 2 milhões de litros por ano, contra 200 a 300 mil litros da Casa Geraldo. Este vinho é feito com as cepas Bordô, Isabel, Niágara e Jacques. Apesar bom desempenho da marca, Carlinhos já prospecta o futuro da empresa com a supremacia dos vinhos finos. “Esse terroir é perfeito vinho fino; dá pena ver cepas americanas ocupando o espaço onde as uvas europeias florescem tão bem”, conta ele, sem disfarçar a pontinha de nostalgia que uma transição como essa desperta.

Afinal, o Campino conta a história da família, todos os perrengues vividos pelo seu Geraldo (o avô, que batiza a vinícola), os esforços para edificar uma marca de respeito, as cabeçadas, o aprendizado, as dívidas feitas e saneadas e, mais importante, as vinhas. Ao abrir mão desse patrimônio, a família entende que o vinho fino, não o de mesa, é a vocação daquela região, em que vicejam também cafés especiais e oliveiras. E um dos sacrifícios a ser considerado quando se pensa na conversão dos vinhedos é a extinção da uva Jacques, cada dia mais rara no País, e que é parte do acervo botânico relacionado ao desenvolvimento do vinho brasileiro.

Por enquanto, a transformação mais próxima é a separação das instalações das marcas, reforçando a autonomia entre elas. Hoje, os vinhos Campino e Casa Geraldo compartilham os mesmos equipamentos. Logo, as áreas serão individualizadas para que cada uma funcione com infraestrutura própria. A adequação dos espaços faz parte do ímpeto de prosperidade dos irmãos Marcon. “A minha meta é fazer a melhor empresa de vinhos de Minas Gerais. Quero uma produção de qualidade e sustentável”, afirma com convicção Carlinhos.

Parece que ele está no caminho certo. Para o cultivo de uvas viníferas, a Casa Geraldo conta com a assessoria da equipe de técnicos da Epamig Uva e Vinho, sediada em Caldas, e capitaneada pelo agrônomo Murillo Regina, uma espécie de “pai” da dupla poda no País. Está em teste, por exemplo, com grande potencial para entusiasmar os fãs de vinhos portugueses, a Touriga Nacional – em breve, teremos boas novas sobre esse projeto.

Da década de 1980, quando começou o projeto de vinhos finos, até hoje, a evolução foi relativamente rápida. Chama a atenção a variedade de rótulos e produtos da marca Casa Geraldo. Entre as cepas cultivadas, destacam-se Shiraz (a estrela da Mantiqueira), Cabernet Franc, Cabernet Sauvignon, Tannat, Moscato Giallo, Tempranillo, Pinot Noir, Merlot, Sauvignon Blanc, Chardonnay e Prosecco.

A diversidade confirma o que já vem sendo ventilado nas rodinhas especializadas há muito tempo: Minas e São Paulo, com seus invernos secos são terroirs a serem descobertos. Se depender dos Marcon, não vão faltar oportunidades de conhecer esse novo ambiente. Nomes como Segredo, Alma Sauvignon Blanc, Espumante Champenoise Memórias, Hola Carmenére, Family Reserve (pequeno lote, queridinho do enólogo), Todo Bien Malbec, Moscatel Rosé Charme, Espumante Brut (Chardonnay e Pinot Noir), Espumante Relicário, Linha Origens e Três Tons (branco e tinto) são alguns vinhos produzidos por lá e que devem ser considerados por quem procura custo-benefício. A empresa produz ainda azeites, cafés e grappas.

O entusiasmo com a safra 2018, que contagia o Brasil, é grande também entre a turma da Mantiqueira. Aguardem o Sauvignon Blanc que vem por aí. A amostra recém-vinificada e tirada diretamente do inox, encantou os visitantes com a fragrância exuberante de maracujá. Espere ainda pelo Shiraz e Cabernet Sauvignon. Frescor, acidez e muita fruta, apontando para um estilo moderno, conectado com o clima brasileiro. O Rosé também provocou suspiros entre os presentes. Enfim, muitas surpresas nos esperam É um vinho mineiro, sim, senhor, com categoria e muita personalidade. Fica aqui minha torcida, meu otimismo e minha sede para bons vinhos nacionais.

Gostou? Informações sobre a vinícola, passeios e vinhos podem ser obtidas no site www.casageraldo.com.br

 

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