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Liquidificultura
Cortiços, Próxima Edição e A Idade da Ameixa
por César Póvero
Publicado em 28 de junho de 2011

Cesar Póvero acompanhou os espetáculos do Festival do Teatro Brasileiro – Cena Mineira, realizado de 16 a 26 de junho em Campinas.

“Cortiços”

“Cortiços” utiliza de recortes da obra “O Cortiço”, de Aluisio de Azevedo, e cumpre o que promete, dando apenas pinceladas da história pra quem já sabe, e estimula que se conheça, no caso de quem ainda não leu.

Com ótimo trabalho corporal em situações imagéticas, as personagens que se desdobram revelam o dia a dia do cortiço. Como se aquele fosse talvez todos os cortiços ou o próprio mundo, seus pecados, crimes, dores, etc. A solução cênica é fantástica e utilitária onde tudo o que move financeiramente o cortiço de João Romão é representado por garrafas PET cheias e em diferentes cores – mina, as roupas das lavadeiras e as riquezas.

Um elenco de apenas cinco atores mostra as principais intrigas em seus principais focos. A personagem Pombinha, moradora que escreve cartas para os analfabetos, usa de recursos bem interessantes de meta linguagem para esclarecer o decorrer do espetáculo. Contemporâneo, original, dinâmico, prejudicado apenas por um texto falado muito baixo no início por uma das atrizes, e problemas de dicção e projeção de um dos atores em cenas muitos ágeis.

A peça também perde quando repete seguidamente cenas de festa e confusão com burburinhos sem acrescentar. Provocam desinteresse, deveriam alternar-se mais. Porém, a peça deslancha e chega a ser um trabalho braçal do elenco carregando as garrafas diversas para formarem outras situações. As músicas são bem escolhidas e não previsíveis, a iluminação também é excelente.

Ficha Técnica – Concepção: Cia. Luna Lunera e Tuca Pinheiro / Direção e Coordenação Dramatúrgica: Tuca Pinheiro / Intérpretes Criadores: Ana Flávia Rennó, Cláudio Dias, Débora Vieira, Marcelo Souza e Silva e Rômulo Braga. Saiba mais: http://cialunalunera-corticos.blogspot.com

“Próxima Edição – Espreme que Sai Sangue”

O espetáculo de rua, “Próxima Edição – Espreme que Sai Sangue”, mostrou um elenco afinado, que atua, toca e dança costurando esquetes que flertam totalmente com o folhetinesco e com o universo “Rodriguiano”. Em figurinos no estilo “retrô”, em preto e branco, tais como os jornais e suas manchetes que são o motim do espetáculo, e o vermelho que representa bem a paixão, a traição e o sangue.

Com direção ágil e ritmada eles agitaram os lugares por onde passaram levando teatro para quem pode e não pode ver, para quem quer e não quer. Com cenários com quatro lados que se movem e rápidas trocas de roupa. Acho que ficaria ainda melhor dentro de um teatro, independentemente do tipo de palco. A qualidade do som e a ausência de luzes, a dispersão e falta de educação do público que está passando sempre prejudica. Incrível como as pessoas não reparam o quanto estão incomodando os outros enquanto conversam, comem e falam ao celular, já que estão em um teatro de rua. Assisti no teatro de arena do Centro de Convivência e a peça competiu o tempo todo com yakisobas, pasteis, etc, dia da feira de artesanato, onde muitos vão pra comer. Porém um grande público educado, atento e fiel permaneceu do início ao fim. Dou todo o mérito para a “Cia. Malarrumada” que se apresentou debaixo de sol sem perder o sorriso e o riso, e que ainda ia se apresentar em Paulínia no mesmo dia.

Ficha Técnica – Elenco Atual: Gabriel da Luz, Glauco Mattos, Leila Verçosa, Polyana Horta, Ronaldo Alves e Suzana Cruz / Direção: Eduardo Moreira. Dramaturgia: Jimena Castiglioni, Layla Roiz e Eduardo Moreira. Saiba mais: http://www.ciamalarrumada.com.br.

“A Idade da Ameixa”

A peça “A Idade da Ameixa” fechou com “chave de ouro” o Festival de Teatro Brasileiro – Cena Mineira na fase Campinas e Paulínia. Provando que é possível, sim, fazer humor sem apelar para o popularesco e o que é melhor, em um texto poético do argentino Aristides Vargas. Com cenário e figurinos essenciais, ótima luz, dois bons atores homens cheios de carisma, levam do riso a comoção, uma história contada por duas irmãs. Elas viajam pelo tempo, contando sobre as vidas e destinos das mulheres presas numa casa como se todas aquelas vidas fossem fábulas da imaginação de duas meninas, um dia mulheres. É para se ver mais de uma vez.

A direção de Guilherme Leme (ator de diversas novelas da Rede Globo, diretor e produtor) é ótima e na medida certa usando de poucos recursos e ao mesmo tempo aproveitando o essencial de todas as maneiras. A ameixa está o tempo todo como metáfora e no fio condutor da dramaturgia que é surpreendente. Uma verdadeira prova que o bom teatro ainda existe, sem os tantos apelos e recursos explorados atualmente.

Ficha Técnica – Elenco: Ílvio Amaral, Maurício Canguçu / Texto: Aristides Vargas / Direção: Guilherme Leme. Saiba mais: http://www.cangaral.com.br

Do que pude acompanhar da Cena Mineira, fiquei com ótima impressão quanto à versatilidade e ao bom gosto, tanto nos infantis como nos adultos, escolha dos textos, figurinos, cenários, músicas, desenhos de luz e desempenho dos diretores.

Após São Paulo, o Festival do Teatro Brasileiro segue viagem para o Paraná e Rio Grande do Sul. Confira!

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