Consoantes Reticentes…
“Dentro da Casa”: O labirinto voyeur de François Ozon
por Marcelo Sguassábia
Publicado em 28 de maio de 2013

Na mitologia grega, o labirinto é uma forma complexa, com caminhos intricados que possui o objetivo de confundir quem o percorre. Com entradas e saídas múltiplas, o caminhar por essa estrutura sinuosa torna-se um jogo no qual cada escolha nos aproxima ou nos afasta cada vez mais de uma saída.

Utilizando essa metáfora na construção de seu novo filme, “Dentro da casa” (“Dans la maison”, 2012), o diretor francês François Ozon constrói uma obra instigante que pode ser vista ou entendida por diversas entradas, com uma multiplicidade de pontos de vistas tais quais um labirinto pode oferecer em seu caminhar.

O filme é baseado em uma peça de teatro, El chico de la última fila, de Juan Mayorga; e Ozon confessa que achou a história perfeita para ser adaptada: “Quando eu assisti, eu senti imediatamente que essa era a oportunidade para falar sobre meu próprio processo de fazer cinema. O vai e vem entre realidade e escrita leva a uma reflexão sobre a própria narrativa, sobre o que é criar, e sobre o que é ser público”. Em um cinema que está sempre flertando com gêneros diversos (drama, comédia, musical, suspense), Ozon encontra aqui excelente material para discorrer sob alguns de seus temas recorrentes: paixão, pertencimento, morte e a busca incessante por afeto.

Germain (Fabrice Luchini), professor de literatura, não aguenta mais a mediocridade dos escritos de seus alunos quando se depara com uma redação acima da média. O jovem Claude (Ernst Umhauer) escreve sobre a família de um amigo, que estuda na mesma classe, instigando o professor a se tornar um ouvinte participativo em sua narrativa. O professor vê em Claude a oportunidade de transforma-lo em um excelente escritor para suprir suas próprias frustrações com a escrita. Mas Claude, em sua aparente ingenuidade, cria ardis que seduzem o professor, enredando-o em sua história, em uma tênue linha entre fantasia e realidade. A esposa do professor (Kristin Scott Thomas), que administra uma galeria de arte (não por acaso com o nome de O Labirinto do Minotauro) também participa dessas leituras, se tornando um contraponto curioso e cético para o envolvimento emocional com que Germain se lança nessa tarefa.

Usando como artifício, nos tornar cúmplices de sua narrativa, Ozon constrói um “jogo” entre realidade e imaginação e nos deixa à mercê de uma história vertiginosa, a qual acompanhamos com imenso prazer a cada desfecho proferido. Além de criar essa narrativa em espiral, nos jogando de um lado para o outro dentro desse labirinto narrativo, Ozon também propõe uma análise da nossa relação com o cinema e a imagem produzida por ele. Nessa história contada quem é o voyeur? O aluno que narra a história e escolhe a família como seu objeto de desejo? O professor que lê essas histórias e o incentiva nessa escrita, ou nós que assistimos tudo isso passivamente?

Temos aqui uma situação tripla nesse universo de olhares: quem vê essa família é o garoto, mas nunca sabemos se o que ele vê é algo que está acontecendo ou algo criado por sua criatividade impar; o professor vê através do olhar do garoto e sente, de início, repulsa pela maneira com que ele utiliza essa família, mas em seguida se sente compelido a continuar com essa pequena farsa, pois reconhece nele um talento que fora negado a ele próprio. E temos nós, meros espectadores, que vemos aquilo que o diretor quer que vejamos, seja na relação do garoto com a família ou na maneira que ele muda a história de acordo com as correções do professor. Esse subterfúgio da imagem audiovisual, que não nos deixa saber até onde o que vemos pode ser “real” dentro dessa narrativa cinematográfica ou uma mera tentativa de nos confundir, é o que eleva o filme de Ozon a um patamar de grande alcance.

O suspense é construído em torno das aparências e cresce de forma vertiginosa, de acordo com o avanço da narrativa do aluno, nos fazendo testemunhas de seus atos para tornar-se parte dessa família. Até que ponto o professor vai permitir o prosseguimento desse exercício apenas por um pequeno prazer intelectual? Até que ponto nós, como espectadores dotados de um olhar complacente, estamos dispostos a seguir esta história?

Quem olha é visto e acaba se reconhecendo nas figuras do filme. Quem nunca acompanhou uma narrativa com tanto prazer, ansioso para chegar ao seu desfecho? Poderíamos julgar o professor por envolver-se tanto com a história criada a ponto de ajudar o aluno fora das aulas, apenas para que a história continue? A fronteira entre o dever do professor e a realização de um desejo particular é muito tênue.

Seria o aluno um prodígio da arte da escrita ou um personagem com diversos problemas psicológicos de aceitação e afeto ao ponto de precisar de uma outra família, esta sim perfeita e funcional, para se sentir pertencente a algum lugar? Seria o professor a figura que precisa validar esse pertencimento?

São diversas perguntas que nos fazem perambular por esse labirinto de imagens. Mesmo que algumas não possuem respostas, são os prazeres de uma história bem contada que nos permite ficar atentos a cada cena. Com isso, as referencias ao diretor inglês Alfred Hitchcock, ele sim um mestre na arte de nos prender com suas narrativas, não são meras coincidências. Adorado pela crítica francesa da revista Cahiers du Cinema, Hitchcock influenciou alguns diretores franceses, entre eles, Claude Chabrol, seu “pupilo” mais direto. Não dá pra dizer que Ozon seja um cineasta que se espelhe em um cinema com fortes influencias “hitchcockianas”, mas aqui, em Dentro da casa, essas influencias são claras (assim como no anterior Swimming Pool, com quem esse novo trabalho de Ozon guarda algumas semelhanças).

A última cena do filme é uma óbvia homenagem ao filme “Janela Indiscreta” (“Rear Window”, 1954), de Hitchcock, obra que também discute essa clara relação entre observados e observadores, na qual um acaba se refletindo no outro, da mesma maneira que nós, espectadores, também nos refletimos naquilo que vemos, em uma relação de cumplicidade voyeur com a câmera e o objeto filmado.

O filme está em cartaz em Campinas no Cine Topázio. Confira a programação.

Veja o trailer:

 

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