Blog do Vinho
Dezembro é propício para conhecer os espumantes
por Suzamara Santos
Publicado em 6 de dezembro de 2018

Natal e Réveillon chegando é hora de espocar champanhe, certo? Errado. Não se deve “espocar” champanhe, pois você estará desperdiçando o melhor desse vinho, justamente o gás carbônico. Para essas deliciosas bolhinhas se formarem na garrafa são necessários cuidado, ciência e método na elaboração, portanto, vamos respeitar, né!? Recomendado: não agite a garrafa ao tentar abri-la, retire a cápsula protetora, solte delicadamente a gaiola (arame que prende a rolha) e, atenção agora, com a mão esquerda (se você for destro, claro) segure firme o gargalo pressionando a rolha com o dedão para que ela não seja expulsa bruscamente e leve junto a perlage (bolhinhas). Com a mão direita segure o corpo ou a base da garrafa e faça movimentos curtos e rápidos nos dois sentidos tentando desencaixar a rolha – você vai sentir quando ela começar a se desprender. Não tem barulho de “bum” e, sim, um gentil e curtinho “tss”. Resumindo: é a garrafa que se movimenta, não a rolha. Entendeu?

Mas se você acha que virada de ano é como um pódio de Fórmula 1, sugiro utilizar um desses filtrados baratos e divertidos que abundam no mercado, tipo Chuva de Prata, e curtir o banho coletivo com amigos e familiares – se estes não se importarem em molhar a roupa nova e o cabelo arrumado, claro. E já que toquei no assunto, posso apostar que a maioria de nós não vai tomar champanhe nas festas e, sim, espumante. Relembrando: a distinção “champanhe”, por lei, só pode ser empregada nas bebidas feitas na região de Champagne, na França. Aqui, falamos espumante, mesmo que o vinho seja feito igualzinho ao champanhe de lá, ou seja, com as uvas Pinot Noir, Pinot Meunier e Chardonnay, e pelo Método Champenoise, também chamado de Clássico ou Tradicional. Note que no exemplo são duas uvas tintas e uma branca. Isso mostra que é possível elaborar vinho branco com uvas tintas. Para isso é preciso controlar a presença das cascas no mosto durante a vinificação: mosto sem contato com a casca = vinho branco; mosto com contato com a casca = vinho tinto; mosto com pouco contato com a casca = vinho rosé. Assim é possível obter vinhos tranquilos e espumantes de todas as matizes.

Peterlongo é parte da história do espumante brasileiro. Foto: Divulgação

De volta a Champagne, uma curiosidade: existe uma vinícola fora da França que pode usar (e usa) a palavra champanhe no rótulo. E é brasileira. Ganha um Peterlongo quem adivinhar qual é. Acertou… A Peterlongo, empresa centenária de Garibaldi (RS), já tinha registrado o nome quando regulação de Champagne foi instituída, em 22 de julho de 1927. Opss…. Em 1927 o Brasil já fazia espumantes, é isso mesmo? Não só fazia, como já tinha concurso de uvas e vinhos promovidos em Garibaldi. Um documento oficial de 1913 comprova o prêmio recebido pela Peterlongo pelo seu espumante Moscatel. Então, amigos, quando se fala da vocação brasileira para produção de vinhos borbulhantes, estamos falando de uma história antiga, que já podemos chamar de tradição. Hoje, os espumantes nacionais chamam a atenção pela diversidade, elegância e qualidade e são produzidos em quase todas as regiões vinícolas do País, tanto pelo Método Tradicional como Charmat.

Oi!?? Calma, vou resumir. O gás carbônico é gerado numa segunda fermentação do vinho. Isso pode ocorrer dentro da garrafa, num processo mais artesanal e lento, ou induzido em tanques de inox, num procedimento, digamos, industrial e rápido. O primeiro processo é o Champenoise, o de Champagne. Já o outro, é chamado de Método Charmat em referência a Eugène Charmat, o cara que patenteou a técnica em 1907. Mas há treta das grandes aí: os italianos garantem que o verdadeiro pai da criança é o enólogo Federico Martinotti, que já usava a técnica em 1895. Assim, se você estiver na Itália, é melhor evitar polêmica e falar Método Martinotti, pois é assim que eles gostam.

Cave Geisse, em Pinto Bandeira, é referência em qualidade. Foto: Divulgação

É bom lembrar que a Itália também é craque na elaboração de espumantes – os Ferrari e os Franciacorta chegam a bater muitos champanhes de grifes por aí. Outro país que sabe fazer espumantes é a Espanha – você já tomou Freixenet e Cordoniú, com certeza . Lá se fala “cava” e também só se permite o Método Clássico. E qual a diferença entre um e outro?. Os dois métodos alcançam qualidade. Com o Champenoise, por conta da presença das leveduras na fase de maturação do vinho, no período em que as garrafas descansam nas pupitres (depois explico) tem-se mais estrutura para envelhecimento e, por consequência, complexidade final, com notas de nozes, panificação, mel, frutas secas. Já com o Charmat, os espumantes têm mais frescor, frutas tropicais, maçã, maracujá e acidez vibrante, ideais para consumo ainda estão jovens.

O Brasil também tem suas regulações para produção de espumantes, aplicadas nas IPs (indicações de Procedência) e na DO Vale dos Vinhedos (Denominação de Origem). A classificação por teor de açúcar, por exemplo, distingue seis estilos de espumantes. Veja:

Nature – até 3g/l

Extra-Brut – de 3g/l a 8g/l

Brut – de 8g/l a 15g/l

Sec ou seco – 15g/l a 20g/l

Demi-sec ou Meio Seco ou Meio Doce: 20g/l até 60g/l

Doce – 60g/l.

 

Orus Adolfo Lona combina elegância e zelo. Foto: Divulgação

Para não perder o fio da meada, vamos resumir o mapa do Brasil. São cinco IPs: Pinto Bandeira (RS), Altos Montes (RS), ProGoethe (SC), Monte Belo do Sul (RS) e Farroupilha (RS). A Indicação de Procedência é uma etapa anterior à Denominação de Origem no processo de certificação de um terroir. A região de Pinto Bandeira está prestes a se tornar a segunda DO brasileira (a primeira, já citei, é o Vale dos Vinhedos), especializada em espumantes. Lá estão as ótimas Cave Geisse, Chandon, Don Giovanni, Dom Cândido, Almaúnica, Salton, Pizzato, Lovara, só para citar algumas. Campanha Gaúcha e Vale do São Francisco estão na fila para se tornarem IPs. E não pense que paramos por aqui. É impossível fazer uma lista justa das boas marcas brasileiras sem deixar gente importante de fora. Miolo, Adolfo Lona, Casa Perini, Garibaldi, Domno, Hermann, Marcus James, Campos de Cima, Decima, Don Laurindo, Vallontano… A lista é imensa.

Só para constar, para se obter um selo de IP ou DO é necessário apresentar extensos estudos técnicos da região, vasta documentação e um rosário de protocolos que serão avaliados com lupa por uma equipe técnica especializada. E tascar no rótulo o nome da Denominação de Origem ou da Indicação de Procedência é ganhar mais credibilidade junto ao consumidor, mas também seguir rigorosamente uma série de regras e leis. Em Pinto Bandeira, por exemplo, só pode ostentar o carimbo de IP o espumante feito pelo Método Tradicional, com as uvas Chardonnay, Pinto Noir, Riesling Itálica e Viogner. Um Moscatel Espumante da IP Pinto Bandeira tem que apresentar no corte as famílias Moscato e Malvasia. Há exigências também relacionadas ao cultivo e procedimentos dentro da cantina (vinícola). No Vale dos Vinhedos são proibidos o uso de chips de madeira e chaptalização, procedimentos aceitos em muitos outros países. Esse assunto fica para outro dia. O que interessa agora é começar a entender um pouco mais do nosso vinho. Dezembro é propício para isso.

 

 

 

 

 

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