Blog do Vinho
Diego Arrebola, três vezes o melhor do Brasil
por Suzamara Santos
Publicado em 16 de abril de 2018

O campineiro Diego Arrebola acaba de conseguir uma façanha. Ele conquistou pela terceira vez o título de Melhor Sommelier do Brasil, competição organizada pela Association de la Sommellerie Internationale (ASI) . Com isso, se credenciou para um desafio ainda mais difícil. Vai tentar o título de Melhor das Américas, no Pan Americano de Montreal, no Canadá, em maio. Segue com ele, Paulo Limarque (D’Amici), o segundo melhor, escolhido na mesma competição. Como numa brincadeira de redes sociais, há a expectativa e a realidade. A expectativa é que até lá Arrebola esteja concentrado na sua preparação, se abastecendo de publicações especializadas, degustando vinhos importantes e se aprimorando em treinamentos específicos com profissionais de fora; tudo isso com apoio financeiro suficiente para não se preocupar com boletos e afins.

Mas a realidade é que Diego é brasileiro e por aqui essa atividade de alta especialização está longe de receber o respaldo que merece. Quem conhece um pouco do ofício de sommelier sabe que para conquistar um lugar ao sol e se tornar competitivo internacionalmente é preciso enfiar a cara no livro muito mais do que o nariz no vinho. Sim, porque um sommelier de alto nível, como é o caso do tricampeão, é um acumulador de conhecimento. Além de uvas e safras, ele precisa entender de geografia, história, agricultura, solo, meio ambiente, clima, química… E ainda mandar bem em idiomas. Escolher esse caminho profissional é topar “passar a vida inteira estudando e se atualizando”. Esse é um dos recados que Arrebola nos deixa neste rápido bate-papo em que fala de competições, da profissão, do vinho nacional e de suas próximas metas. Com a palavra, o melhor do Brasil três vezes:

 

Suzamara: Desde quando você está no mundo de vinho e qual é a sua formação?

Diego Arrebola: Estou no ramo desde 2004 e sou formado pela Associação Brasileira de Sommeliers (ABS-Campinas), pela Associazione Italiana e pela Court of Master Sommeliers Americas.

 

Três vezes o Melhor Sommelier do Brasil é uma grande conquista. E o que vem agora?

Minha meta é a superação, sempre. Enquanto eu ainda me empolgar com os concursos, meu objetivo será superar o desempenho que obtive no último, ou seja, superar o 9º lugar no Pan Americano em maio e, se confirmada minha participação, superar o 21º lugar no Mundial 2019. Se a confirmação da vaga no Mundial vier em tempo hábil para uma preparação adequada, então minha meta será chegar à semifinal, ficando entre os 12 melhores do mundo.

 

Como você está se preparando?

Basicamente, estudando e aproveitando as chances que tenho para degustar e viajar. O ideal seria contar com acompanhamento específico, mas infelizmente não temos recursos para isso no Brasil.

 

Como seria a preparação ideal, com recursos?

A preparação ideal envolveria suporte para aquisição de literatura, vinhos para degustação e treinamentos específicos com profissionais no exterior, focando tanto em serviço quanto em degustação, além de viagens a regiões produtoras. É importante entender que, seja quem for o profissional, ele ainda tem as suas obrigações e contas a pagar, logo, dedicar um tempo maior ao estudo significa, na prática, redução de receita; e nem sempre isso é possível. Assim como um estudante de doutorado em uma grande universidade precisa de uma bolsa que permita a ele dedicar-se aos estudos, ou um atleta profissional precisa de uma bolsa para poder treinar com tranquilidade, o mesmo cabe ao profissional do vinho que se preparar para uma competição como essa.

 

O que é mais difícil nestas competições: teoria ou a prática?

Sempre a teoria. O mundo do vinho é muito vasto e, por mais que estudemos, sempre há mais para aprender. Seguramente, o que ocupa mais tempo na preparação é o estudo, pois a teoria tem um peso importante para garantir a vaga em uma semifinal ou final.

 

A profissão de sommelier tem futuro no Brasil?

O fato é que o sommelier precisa se reinventar, pois as particularidades do nosso mercado deixam pouca margem para que restaurantes e empórios remunerem profissionais que se encarregam exclusivamente do vinho e das bebidas. Juro que eu gostaria de ter a resposta para essa pergunta…

 

Como você vê a produção do vinho brasileiro? Estamos no caminho certo?

Está melhorando; temos uma nova geração de produtores mais conectados ao que acontece fora daqui, trazendo significativas inovações para nossa vitivinicultura. Só falta o governo colaborar, baixando impostos, reduzindo a burocracia e eliminando barreiras para o trânsito de mercadorias.

 

Qual é a melhor experiência que você já viveu com o vinho? E a pior?

É difícil cravar uma resposta para ambas as perguntas… Seguramente, as melhores experiências envolvem as oportunidades que essa profissão me proporcionou de conhecer locais e culturas distintas. Nesse sentido, a primeira vez que vi o Vale do Rio Douro e minha primeira vez na Cote d’Ôr são alguns dos momentos mais marcantes. Mas seria reducionista em excesso afirmar que isso é o melhor, pois acho que o melhor ainda está por vir. Quanto ao pior, na profissão e na vida, não me apego a isso; posso sofrer e passar raiva no momento, mas faço questão de não ficar relembrando e remoendo aquilo que me faz mal.

 

Você bebe todo dia? Que estilo de vinho predomina na sua adega?

Não todos os dias, até porque a carga de trabalho burocrático em frente à tela do computador é muuuuuito maior do que qualquer escola de sommellerie te ensina, e deixa menos tempo para isso. Minha adega é pequena, mas é eclética; valorizo vinhos bons, independentemente de sua origem. Tenho uma queda maior por Madeira, Riesling, Barolo e Bourgogne mas, infelizmente, tenho menos garrafas do que gostaria destes exemplares.

 

Uma dica para quem está pensando em seguir a carreira de sommelier:

Entenda que você só será um profissional de bom nível se passar o resto da sua vida estudando e se atualizando. Entenda também que vinhos e bebidas é só parte de uma profissão que demanda aprendizado de idiomas, rotinas administrativas, fluência no uso de computadores, e bom nível de cultura geral. Você vai ter uma profissão altamente satisfatória, mas isso não vem de graça, não.

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