Cinema Literal
Donos do próprio destino
por João Nunes
Publicado em 21 de setembro de 2018

Na faixa dos 50, os amigos Gelson, marceneiro eleitor de Bolsonaro; Martin, professor adepto de Haddad e Samira, técnica em informática que escolheu Alckmin tomam cerveja num boteco do bairro onde vivem. O álcool já subiu um tanto. Clara Nunes, ao fundo, canta: ninguém ouviu/ um soluçar de dor/ no canto do Brasil…

– Atentado foi demais!
– República das bananas.
– Não comece a falar mal do Brasil. Somos uma nação jovem.
– Da mesma idade dos Estados Unidos, veja bem.
– E o dobro da Austrália, único país (junto com a Nova Zelândia) do hemisfério sul que se pode chamar de Primeiro Mundo.
– Que país tenta matar o adversário?
– Os Estados Unidos mataram John e Robert Kennedy.
– E Martin Luther King.
– Luther King foi racismo.
– Que o Brasil finge que não existe.
– Como o machismo. Aqui, mulheres são coadjuvantes.
– Acho que a solidariedade dos outros candidatos a Bolsonaro foi por medo de serem os próximos alvos.
– Não. Eles sabem que, se não houver controle, vira barbárie.

Há uma pausa tensa. Gelson se agarra ao celular, Samira olha a TV, Martin toma longo gole de cerveja mirando o nada.

– É errado o Lula tentar ser candidato.
– Mas a gente sabe como foi o julgamento dele.
– Você não acha que foi a CIA, né?
– Esse Moro tem dois pesos e duas medidas.
– Só no Brasil, um cara que aplica a justiça vira vilão e um corrupto se transforma em herói.
– Se era pra condenar corrupto, por que o Aécio continua solto?
– A hora dele vai chegar.
– Ele acabou politicamente. Será deputado federal sem nenhum respeito.
– Agora, Samira, o que você viu no Alckmin? Veja no que ele transformou São Paulo!
– Vou votar em um cara sem personalidade como o Haddad que usa a máscara do Lula? Pior, só o Bolsonaro.
– Não cometa a injustiça de fazer essa comparação.
– São dois lados da mesma moeda.
– Por isso você prefere o muro! Não lhe faz bem o cheiro e a falta de beleza da periferia.
– Ser tucano é ter bom gosto. Não é isso que seu partido ensina?
– Não vou entrar nesse jogo de coxinha versus mortadela. Haddad é professor da USP, toca bossa nova no violão, bebe vinho francês e mora nos Jardins.
– E o asséptico do Alckmin? Sabe o que o picolé de chuchu parece? Quarto de hospital, aquele padrão verdinho-piscina.
– Começou a baixaria.
– Terreno onde Bolsonaro é o rei. Ele chuta pra todos os lados, joga porcaria no ventilador pra ver se acerta em alguém.
– E defende a ditadura, o que significa falta de liberdade. Eu não quero isto pro Brasil.
– Tentaram calar a boca dele.
– Sem vitimização, pelo amor de Deus.

Ficam em silêncio por um tempo. Samira cantarola com Clara Nunes o samba de Mauro Duarte e Paulo César Pinheiro: esse canto que devia/ ser um canto de alegria/ soa apenas como um soluçar de dor. Martin retoma a conversa em tom evocativo.

– Lembra o filme sobre o imperador?
– Júlio Cesar?
– Isso. Cássio e Bruto fazem complô para matá-lo.
– Você vai comparar Bolsonaro a Júlio César?
– Não, só quero citar uma frase. “Há momentos em que somos donos do próprio destino”.
– Pois nunca senti o destino escapar tanto das minhas mãos.
– E o texto se completa dizendo: “e não é culpa dos astros”
– E de quem seria?
– Não sei.
– Nem eu.
– Eu tampouco.
– Pelo conjunto da obra, votar no Bolsonaro, nem pensar. O Haddad representa um governo de 14 anos que acaba de deixar o poder e um dos responsáveis pela crise de representatividade do país.
– Se entendi, Samira, o dissimulado PSDB de Alckmin é a saída?
– Não, Gelson, é falta de opção mesmo.
– O que me diz, Martin?
– Vivemos dias terríveis.
– Sejamos um pouco otimista.
– Júlio César, em outro contexto e fora da peça teria dito; “a sorte está lançada”.
– Ele foi otimista ou pessimista?
– Ele optou por um caminho na expectativa de dar certo.
– Pelo jeito, vamos apostar na esperança mais uma vez.
– Acho que sim.
– Esperança nunca é demais. Lancemos a sorte.

Referência ao filme “César Deve Morrer” – foto divulgação

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