Consoantes Reticentes…
Dos tempos em que se queimava literalmente o filme
por Marcelo Sguassábia
Publicado em 10 de novembro de 2018

 

Da escolha do filme em 12, 24 ou 36 poses à colocação na câmera, passando pela delicada operação de prender a lingueta exposta para fora do cartucho no carretel da máquina. Do acondicionamento do cartucho à checagem das pilhas, que precisam estar carregadas o suficiente para os disparos de flash.

Do ensaio de cada motivo, enquadramento, abertura de diafragma e tempo de exposição, escolha entre luz natural ou artificial ao clique que só quinze ou vinte dias depois se saberia se ficou ou não digno de legar à posteridade.

Da retirada do filme rebobinado da máquina à revelação do celuloide em uma espiral hermeticamente fechada por um tanque de plástico preto, numa etapa onde nenhum tipo de luz é permitida para não vedar o filme. O procedimento é executado unicamente pelo tato e com as mãos enluvadas, para que as digitais não marquem o negativo. Além disso, o tanque tem que ser chacoalhado o tempo todo, para que a química envolva o filme homogeneamente.

Revelado, o rolo de celuloide é posto para secar no laboratório em varal apropriado com um peso na ponta, de maneira que não enrole e não danifique a base gelatinosa de emulsão de sais de prata, onde estão as imagens em negativo que posteriormente serão ampliadas para produzir a foto.

Do negativo à ampliação em formato 18×24. Do ampliador fotográfico ao banho de revelador à base de hipossulfito de sódio. Da bacia de revelação ao preparado químico de interrupção, do interruptor ao banho fixador onde deverá permanecer por tempo mínimo de dez minutos. Da fixação à secagem dos instantâneos, em papel fotográfico.

Da foto seca ao carimbo do fotógrafo no verso, onde constam telefone e endereço, para o corte de cada fotografia em guilhotina no tamanho encomendado. Das fotos agora prontas, acondicionadas em envelope devidamente identificado com nome do cliente, junto com os negativos e as cantoneiras suficientes para colocação no álbum, de forma que não sejam necessárias cola ou fita adesiva, que com o tempo iriam danificar e amarelar as fotografias.

Da loja de artigos fotográficos à casa, onde todos se engalfinham para ver o que se salvou ou não da primeira Eucaristia de Horácio Andrade de Melo e Souza, seguida por almoço comemorativo oferecido pelos padrinhos.

Da triagem entre as que ficaram realmente boas, as mais ou menos, as que saíram na contra-luz e as irremediavelmente péssimas, à eleição das duas ou três com qualidade suficiente para irem ao porta-retrato. Ou o de bronze que fica em cima do piano, ou os de madeira entalhada na estante ao lado da lareira.

Do tempo em que se tinha todo esse imenso trabalho para salvar do esquecimento os momentos importantes à banalidade do ato de fotografar – onde um close no cadarço do sapato esquerdo vai para a mesma pasta de arquivo que a selfie tirada com o Papa.

 

 

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