Consoantes Reticentes…
Entre lágrimas e canhões
por Marcelo Sguassábia
Publicado em 6 de janeiro de 2012

Às vezes eu me pergunto como é que cineastas do gabarito de Scorsese e Spielberg, ou seja, ativos desde a década de 70 e responsáveis por obras inesquecíveis da sétima arte, conseguem persistir na qualidade narrativa e técnica de seus filmes até os dias atuais. É com este questionamento que inicio 2012 antevendo com ansiedade as estreias destes grandes diretores, incluindo Eastwood, Fincher, Burton, Scott, Nolan e Tarantino, que também destilam seu talento nas telonas até dezembro em novas produções.

Qual foi minha decepção, porém, quando me deparei, esta semana, com o precursor da temporada de grandes estreias do ano – “Cavalo de Guerra”, de Spielberg, e notei que minha noção estereotipada de que o talento dos grandes mestres do cinema é inexorável estava errada. Uma das piores produções da cinematografia de Spielberg envereda por duas vertentes: o tom clássico habitual dos épicos fordianos das décadas de 30 e 40 e o apelo comercial da relação homem x animal, refletido nos suspiros e lágrimas de grande parte dos espectadores durante as 2 horas e 40 minutos de sessão.

Apesar de admirar os grandes épicos do cinema, e entender que a produção é uma declarada homenagem a eles, “Cavalo de Guerra” sucumbe nos clichês e na subestimação da capacidade de assimilação do espectador. Algumas falas e até a presença de personagens secundários, que apenas servem como suporte à atuação dos protagonistas, poderiam ter sido extirpadas sem que o conteúdo da narrativa fosse prejudicado. Cenas e situações previsíveis que os recursos do cinema clássico não tinham como apoiar antigamente permanecem em “Cavalo de Guerra”, fazendo com que a obra se torne não uma ode ao classicismo, como deveria ser, mas um filme feito fora de seu tempo, tornando-se antiquado e vencido.

Spielberg quer mais uma vez humanizar a guerra, da mesma forma como em “O Império do Sol” e “O Resgate do Soldado Ryan”. Desta vez, no entanto, mais do que conflitos psicologizantes dos combatentes, o mote de sua narrativa se concentra na trajetória de superação de um cavalo – o Joey, que, baseado nos ensinamentos aprendidos com o dono, Albert (Jeremy Irvine), torna-se o “cavalo milagroso”, como o chamam no front da Primeira Guerra Mundial, sendo o ponto de ligação entre as atrocidades bélicas e a sensibilidade dos soldados (simbolicamente representado na cena em que, enroscado em metros de arame farpado, Joey une alemães e ingleses no meio do campo de guerra, a “terra de ninguém”, para salvá-lo).

Esse misto de sensibilidade animal e canhões recai em uma emotividade exacerbada e forçada. Por mais que a intenção tenha sido boa, algumas situações criadas em certas cenas são desnecessárias e inverossímeis, como quando a família de Albert está prestes a perder a fazenda em que moram e a única solução é fazer com que Joey, um cavalo desacreditado por todos e que acabou de ser arrendado em um leilão, are um terreno pedregoso e infrutífero. Uma chuva providencial auxilia Albert e Joey na tarefa hercúlea, que é assistida por uma plateia de gente do bem e do mal, loucos pelo sucesso ou pela derrota do animal e seu dono. Enfim, sem me ater a detalhes que podem se tornar spoilers, algumas situações, ilustradas com uma trilha sonora irritante e intrusiva, fazem de “Cavalo de Guerra” um poço de emoções baratas e gratuitas. Se sua intenção é saber chorar na hora certa, este é o seu filme.

Será que se a mesma produção ficasse a cargo de outra equipe que não estivesse amparada pelo nome Spielberg, “Cavalo de Guerra” teria a mesma repercussão que está tendo? O filme já é um dos indicados a Melhor Drama no Globo de Ouro e um dos cotados a concorrer a estatueta mór do Oscar, a de Melhor Filme, mas não deve ultrapassar, pelo menos em qualidade artística, outros nomes como “The Artist”, “Histórias Cruzadas” e “J. Edgar”, que estreiam aqui no Brasil nas próximas semanas.

Só espero que minhas outras apostas para a temporada de estreias de 2012 (inclusive “As Aventuras de Tintim”, o segundo de Spielberg só neste ano) não me surpreendam negativamente como aconteceu com “Cavalo de Guerra”. Mas atenção: mesmo que você concorde com os argumentos apresentados nesta crítica, não deixe de assistir “Cavalo de Guerra”, afinal é um filme do Spielberg, simplesmente um dos (senão o maior) cineastas de todos os tempos, e esta é apenas a minha opinião.

(Veja reportagem sobre a estreia e trailer do filme)

 

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