Liquidificultura
Hamlet em Campinas, eis a questão!
por Cesar Póvero
Publicado em 30 de abril de 2013

Hamlet passou por aqui, pela nossa província, com direção de Ron Daniels e quinze atores. Provando e comprovando que Shakespeare permanece atual e se confirmando como atemporal, falando da eterna e incansável busca do homem pelo poder, custe o que custar, traição, sangue… “Há algo de podre no reino da Dinamarca”. Como não lembrar do que houve de tão podre em nosso reino campineiro? Não me contive em viajar…

Em Hamlet, o rei é assassinado pelo próprio irmão para obter o trono. Até que ponto somos capazes de chegar pela nossa ambição? Logo lembrei de nosso antigo prefeito, no qual não votei com orgulho em nenhum de seus dois mandatos e sua quadrilha! Em Hamlet, Shakespeare – homem muito à frente de seu tempo – usa da espiritualidade para contar quem matou o rei através do fantasma do mesmo, ectoplasmado nesta versão, ou melhor, interpretado por Antonio Petrin – ator muito mal aproveitado na teledramaturgia brasileira, faz jus nesta montagem e também aparece como o principal ator da trupe que chega ao palácio.

Em nosso reino até hoje não sabemos porque mataram nosso prefeito Antonio da Costa Santos. Afinal, há mais mistérios entre o céu e a terra do que julga nossa vã filosofia.

Entre minhas viagens foi muito bom rever o antigo Teatro Municipal Castro Mendes, repaginado, com boa acústica, com uma nova cara que exorciza um pouco seu passado de antigo cinema e de seu abandono pelos governos anteriores e os orçamentos superfaturados da última gestão gerando protestos e manifestações.

Thiago Lacerda, que já havia provado ser um bom ator, prova-se muito mais no palco do que na TV, que não oferece grandes personagens, porque bons atores enlouquecem e ele enlouqueceu em “Calígula”, de Albert Camus, com direção de Gabriel Vilela no hoje soterrado Centro de Convivência. No dia da apresentação, após seu final, o protagonista manifestou-se ao secretário de cultura da época, que estava na plateia, dizendo que Campinas merecia um teatro melhor.

Enfim, ser ou não ser, eis a questão…

A filosofia de Shakespeare vem adaptada nesta versão e com humor aguçado e com o privilégio de Selma Egrei no papel da incestuosa rainha Gertrudes. Com um figurino moderno e de poucas cores, assim como o cenário trazendo a obra que deveria ser popular, mas não é para o povo de hoje, o povo do funk carioca, ligado em alto volume nos carros de dia e de madrugada, o povo da progressão continuada que só tem progressos pros governantes, o povo “Pânico” que só se diverte com a humilhação alheia. Como falar para as pessoas de hoje da poesia que há na dramaturgia de Shakespeare? Duas horas e meia de espetáculo, para uma humanidade tão imediatista e “fast food”.

Infelizmente, Shakespeare lota teatro e esgota ingressos quando tem famosos no elenco, senão estaria a míngua. Aposto como a maioria foi para ver o galã da TV e não para ver a obra em si, também tenho certeza que muitos não sabiam da duração. Ainda há pessoas que conversam durante a apresentação como se estivessem na sala de seus aconchegantes lares. Por favor, fique em casa vendo Zorra Total.

Agora em novos tempos e ventos, Campinas tem o teatro do Shopping Iguatemi, o Teatro Hilda Hilst e a Concha Acústica revitalizada, além dos demais. O importante é se aproveitar os diversos espaços como os pontos de cultura que deveriam ser divulgados e fiscalizados para bom aproveitamento da comunidade. Melhor utilização de salas da Estação Cultura e seus galpões amplos mal aproveitados, além da sala “Carlos Gomes” que deveria ter melhor aproveitamento e adequação para os espetáculos de pequeno porte.

Vale pra nós lembrarmos sobre o diálogo descontraído dos coveiros à beira da sepultura de Ofélia nesta versão. Qual a diferença entre o rei gordo e o mendigo magro? Nenhuma! Ambos vão pra debaixo da terra e serão comidos pelos vermes.

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