Faça as Malas
“Homens, mulheres e filhos”: a vida mediada por telas
por Marcos Craveiro
Publicado em 18 de dezembro de 2014

Algo não anda bem no cinema de Jason Reitman. Saudado pela crítica como uma das novas promessas de sua geração, Reitman vem perdendo força a cada filme, chegando a um momento que parece não ter mais o que dizer. Até o sarcasmo, que lhe era tão peculiar em obras anteriores, parece ter se diluído com o tempo. 

Reitman teve como primeira obra o excelente “Obrigado por Fumar” (2005) e prosseguiu com o hit indie da segunda metade dos anos 2000, “Juno” (2007), e com duas obras um pouco mais maduras: o grande sucesso “Amor sem Escalas” (2009) e um filme mais intimista, “Jovens Adultos” (2011). Com alguns problemas de ritmo e escolhas equivocadas na condução de sua narrativa, “Jovens Adultos” ainda se sobressaía como uma obra interessante, que se notava claramente a verve crítica e irônica de Reitman. 

Mas, com o posterior “Refém de uma Paixão” (2013), começa a se perceber a ladeira abaixo que Reitman vem seguindo. Se “Jovens Adultos” havia perdido um pouco do brilho do outrora genial diretor de Juno, “Refém” mais parece um “novelão” daqueles bem típicos do autor Nicholas Sparks do que propriamente um filme do diretor. Equívocos todos comentem, mas Reitman parece estar reiterando essa sua predileção por obras maisntream piegas e desnecessárias.

Com o lançamento de “Homens, Mulheres e Filhos” (2014), isso vem confirmar a teoria: definitivamente Reitman se tornou um novo diretor, visivelmente ruim, que não tem mais nada a dizer, em uma obra inócua e vazia como os rostos das personagens que ele tanto gosta de filmar encarando a si mesmo e a vida através das telas do smartphone, do notebook ou do tablet.

“Homens, Mulheres e Filhos” conta a história de várias personagens, adolescentes e seus pais, e a obsessão por estarem sempre conectados em detrimento às relações interpessoais. Todos estão mais preocupados em isolar-se em seu mundo particular do que participar do mundo ao seu redor. Temos uma mãe obcecada em vigiar a filha e o uso que ela faz da internet; um casal que há tempos perdeu o desejo e se aventuram à procura de novos parceiros pelo mundo virtual; um garoto que só sente prazer vendo vídeos pornôs na net e não consegue ter prazer com a menina mais desejada do colégio; uma mãe e sua filha e a exposição dessa adolescente nas páginas virtuais para que se torne uma celebridade; entre outras. Reitman coloca um catálogo de perturbações, todas advindas do mau uso (ou do uso excessivo) do meio virtual. Ele esquece que esse discurso, assim como a velocidade dos acontecimentos tecnológicos, pode se tornar obsoleto apenas com um clique. E é isso o que acontece com “Homens, mulheres”, sua reflexão já nasce velha, mostra incisivamente fatos que já estamos mais do que acostumados e não propõe nada de novo, pelo contrário, sua análise torna-se extremamente reducionista como se a internet fosse a grande vilã de todas as mazelas da humanidade. 

Reitman e a roteirista Erin Cressida Wilson (baseado no livro de Chad Kultgen) esquecem que faz parte do humano cometer equívocos e que nossas escolhas, entre elas como nos relacionamos com o ambiente virtual, podem e devem ser relativizadas. 

Da maneira simplista que essa reflexão está sendo colocada, mesmo com um excelente elenco (Adam Sandler, Rosemarie DeWitt, J.K. Simmons, Judy Greer, Ansel Elgort, Kaitlyn Dever), faz com que o filme nunca ultrapasse a barreira da mera curiosidade, tornando-se enfadonho quando os conflitos começam a desenvolver-se. Há um moralismo latente nesse viés que condena a internet como a única causadora de nossas angústias e solidão, principalmente ao tratar-se de uma humanidade adepta a cometer erros desde o princípio de sua existência.

Como diria Renato Russo, em uma canção da Legião Urbana, “(…) o mal do século é a solidão, cada um de nós imerso em sua própria arrogância, esperando por um pouco de afeição (…)”.

Veja o trailer:

 

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