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“La La Land – Cantando Estações”: saudosismo que encanta
por Luiz Andreghetto
Publicado em 8 de fevereiro de 2017

Nascido juntamente com o cinema falado, o gênero musical teve seu apogeu nas décadas de 1930, 1940 e início dos anos de 1950, celebrando a cultura norte-americana através de histórias otimistas e puramente divertidas. Sua crise se dá com a decadência do sistema de estúdios nos anos de 1950, com a influência do cinema europeu nos Estados Unidos e uma busca por um cinema mais autoral e de engajamento social das décadas seguintes. Com isso, o gênero, tenta se impor nas próximas décadas com os filmes de rock’n’roll (Elvis Presley, The Beatles), a ópera-rock (Jesus Cristo Superstar, Tommy) ou espetáculos de puro entretenimento da era disco dos anos de 1970 (Os embalos de sábado à noite, Grease) ou do pop dos anos de 1980 (Fama, Flashdance).

A partir dos anos de 1990, o gênero realiza alguns revivals (Chicago, Moulin Rouge, Canções de Amor), virando moda teen com High School Musical e Glee. Mas ainda faltava um grande filme que viesse preencher a lacuna dessa grande “homenagem” aos musicais clássicos, ao mesmo tempo em que propusesse algumas ousadias em sua encenação: La La Land: Cantando Estações (2016), vem para tentar, novamente, popularizar esse gênero tão pouco apreciado na contemporaneidade.

Ainda que trabalhe sob um roteiro pífio, com uma história simples focada em seus dois protagonistas, eliminando praticamente os coadjuvantes de cena, La La Land acerta justamente na escolha dos atores para esses personagens, Ryan Gosling e Emma Stone casam a perfeição com a proposta do diretor Damien Chazelle. Se, falta aos dois, potência musical e vigor nas performances coreográficas (Ryan e Emma não são nenhum Fred Astaire e Gingers Rogers, respectivamente, mas quem se iguala a esses dois ícones dos musicais?), sobra em carisma, fazendo-nos acreditar o quão crível são os seus sentimentos. E, justamente, o fato de não serem exímios bailarinos e cantores, é o que traz o grande charme à La La Land, nos evocando uma magia singela em meio as dificuldades de uma vivencia que aspira por anseios transformadores.

Essa imperfeição e fragilidade dos números musicais operam em constante sintonia com a errância dessas duas almas apaixonadas que se veem em cheque durante seu percurso romântico, fazendo com que a as músicas saiam da narrativa como um complemento aos dramas de cada um, sem nunca parecer gratuito.

Mas nem só de ousadias é feito La La Land. Há uma grande ironia na sua construção dramática pois, ainda que seu protagonista seja apaixonado pelo improviso que só no jazz é capaz de acontecer, o filme opera dentro de uma rígida construção que obedece fielmente a cartilha do gênero musical. Desde as cores que explodem na tela, as coreografias em plano aberto, até as canções e suas letras, tudo respira os áureos tempos que os musicais eram o modelo do grande entretenimento hollywoodiano, sinônimo de grandes bilheterias e de apostas certeiras de diversão para uma ida ao cinema.

Engana-se também quem espera do filme uma grande ode ao amor, como seu trailer deixa entrever. Por mais romântico que seja em determinados momentos, ainda é um filme sobre a melancolia e a nostalgia na construção de sua narrativa, um olhar para o passado carregado de saudade/ternura/decepção daquilo que não foi vivido ou do que poderíamos ter sido ou, como diria o poeta, “a vida inteira que poderia ter sido e que não foi”.

Seus protagonistas nunca estão em dúvida do quanto se amam, mas a dúvida aqui é quanto o sucesso talvez seja mais importante que esse amor que eles nutrem um pelo outro. Portanto, é extremamente sintomático, que o filme que emule um gênero que exalta a beleza, a cor e a vida, se passe justamente em Los Angeles, mas especificamente em Hollywood na sua construção de sonhos, muitas vezes, inatingíveis. Assim como o personagem de Ryan Gosling, que luta para que o jazz não seja “esquecido” no meio maisntream, La La Land chega como um grito de amor aos musicais para que esses não sejam engolidos pela indústria de entretenimento que prioriza aventuras de heróis uniformizados, sabres de luz, parques de dinossauros, entre outros temas, que tão pouco espaço tem deixado para uma maior diversidade de obras exibidas na tela grande.

La La Land, do mesmo modo que o jazz, olha para o futuro sem esquecer do passado, entregando um filme para gerações que nunca viram os musicais clássicos, mas que podem vislumbrar de onde eles surgiram e o quanto são encantadores.

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