Consoantes Reticentes…
Lua, minguante lua
por Marcelo Sguassábia
Publicado em 1 de dezembro de 2018

Lua, minguante lua

Lua, minguante lua
Um pequeno passo para o homem, um salto gigantesco para a humanidade. Tinha instruções de Houston para falar pausadamente, com boa dicção.
Quanta xaropada chapa branca. Frase de efeito, só retórica para humilhar os russos. Mas vai amanhã mesmo para todos os jornais e enciclopédias. E eu vou assumir a autoria dessa imbecilidade. Terra, sua insignificante poeirinha cósmica, você parece ainda mais desprezível vista daqui de cima, sabia?
Posso até imaginar os bilhões de habitantes dessa bola azul flutuante, comemorando o feito das formas mais tolas possíveis. As champanhes que certamente estão ainda estourando na NASA, transbordando sobre os painéis de controle que podem entrar em curto a qualquer momento e me levar dessa pra melhor.
E pipocam mais e mais as teorias da conspiração. Que a bandeira na lua não poderia estar tremulando pois aqui não venta, que a sombra que incide não sei onde não teria como estar batendo ali, etc, etc. Imagino daqui a uma semana o que já não terão inventado…
Estou cagando e andando, sendo que andar em território lunar é bem mais fácil, menos cansativo e menos perigoso que a outra atividade. Caminhar sem gravidade é uma delícia libertadora. Dar vazão ao número 2, uma aventura guiada por detalhadas instruções.
Mas evitemos elucubrações escatológicas, que não é hora para isso. Não combina nada com o sentimento de orgulho americano. O fato é que perdi o sono depois da descida do módulo e dessa caminhadinha besta. O melhor da festa é esperar por ela, e no meu caso foram anos de espera, treinamento duro, sacrifícios familiares, centenas de milhões de dólares investidos pelo governo. Mas chegando aqui… cadê a emoção, o sentimento de conquista?
Não estou sentindo isso, não. O feito já não é novidade, mais algumas horas terrenas e todos os jornais do mundo, que estampam minha cara coberta pelo capacete, já estarão embrulhando taças de cristal em caminhões de mudança.
Meus dois colegas dormem a sono solto, e nem por sonho julgariam possíveis essas minhas cogitações. Nesse instante, aprofundo a respiração, tento controlar os batimentos cardíacos e – quem diria – conto carneirinhos. Para ver se embalo e esqueço um pouco desse tédio insuportável.
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