Blog do Vinho
Meu vinho. E as regras que aprendi
por Suzamara Santos
Publicado em 16 de agosto de 2018

E aí, o que você achou do vídeo Seu Vinho. Suas Regras, criado para tentar turbinar o consumo de vinho brasileiro? Eu vi várias vezes e achei… hum… sei lá. A peça mira os Millennials (muito prazer!), também chamados de Geração Y, ou os nascidos entre as décadas de 1980 e 1990. Em ritmo animado, o vídeo contrapõe as regras clássicas da degustação, aquelas que pelejamos para aprender e nos fizeram ainda mais apaixonados pela bebida, a um jeito, digamos, “mais moderno” de apreciar.

Uma voz feminina irônica, a um passo do deboche, narra o beabá da degustação, enquanto imagens dos tais Millennials, em eufórico divertimento, desfilam em baladas urbanas, que incluem ruas, pista de dança, parque de diversões, piscina e por aí vai… O vinho (brasileiro na intenção, mas, pelas imagens, pode ser qualquer um) está em todos os momentos, consumido descontraidamente, sem qualquer apreço aos rituais de degustação listados pela narradora. Depois de desobedecer “as regras”, o vídeo finaliza com a seguinte frase: “Em resumo, para beber um bom vinho brasileiro, você precisa seguir as regras. Ou não.”

A campanha é uma iniciativa do Instituto Brasileiro do Vinho (Ibravin), Vinhos do Brasil e Wines of Brazil, entidades que desenvolvem trabalhos sérios na promoção e valorização do nosso produto. A meta é captar o interesse de um público adulto, porém jovem (os Millennials) e tirar o Brasil do irrisório consumo per capita de dois litros ao ano, segundo a Organização Internacional da Vinha e do Vinho (OIV).

Obviamente, os idealizadores devem ter se apoiado em pesquisas e estudos de mercado para eleger a linguagem, o formato e o público alvo da campanha. Em breve saberemos se o empenho foi eficiente. Fica aqui a minha sincera torcida, acompanhada de uma pontinha de desconfiança. Depois de anos falando sobre vinhos e puxando sardinha para o Brasil, estou convicta de que o maior desafio para fazer o País beber mais ainda é convencer o brasileiro que o nosso vinho é bom.

Há um enorme pé atrás em relação ao produto nacional. “Mas tem vinho bom no Brasil?” é uma das perguntas que mais ouço, independentemente da disponibilidade financeira da pessoa. Por mais que o vinho esteja em pauta, a informação correta, proporcional aos avanços dessa jovem e promissora indústria brasileira, não está chegando ou convencendo o consumidor da geração XYZ.  Outro dia, o enólogo português Anselmo Mendes, em visita a Campinas, bateu firme nessa tecla: “Eu acredito mais no Brasil do que vocês.”

Outra pedra a ser removida, a meu ver, é a premissa de que por ser vinho brasileiro tem que ser barato. Claro que todos nós queremos tomar vinho bom gastando pouco. Mas tem vinho e tem vinho. Alguns custam mais porque valem mais; é assim no mundo inteiro. De boas, alguém acredita que o produtor brasileiro quer colocar o preço dos seus rótulos nas alturas para lucrar mais, sabendo que vai quebrar a cara na concorrência com o Chile e a Argentina? Esses países abarrotam as gôndolas brasileiras com vinhos bons e ruins, beneficiados com acordos comerciais e regras do Mercosul. Aliás, os impostos são outro problema, mas esse vou pular.

Voltando à peça publicitária Seu Vinho. Suas Regras, confesso que me incomodei com uma certa indelicadeza com aqueles que aprenderam a degustar um vinho corretamente e sabem reconhecer o trabalho de um bom enólogo e as virtudes de uma boa garrafa. Esses, sim, são consumidores fiéis e, no contraponto entre narração e imagens, sobrou para eles o carimbo de conservadores. Mas engana-se quem pensa que entre eles não existam Millennials. E engana-se também quem acha que os Millennials não possam se encantar com o vinho e “suas regras”.

É saudável desmistificar o vinho, mostrar formas mais festivas de consumir, descomplicar regras, abolir “frescuras”. Existem estilos de vinho com essa pegada. Porém, há outros, muitos outros, que ficam mais interessantes se apreciados conforme o figurino e isso não é primazia dessa ou daquela tribo. Por fim, uma última observação: se tirar o som, o vídeo perde a identidade (sou chata e fiz o teste). O tema poderia ser moda, turismo, música, comportamento e qualquer outra bebida. Será uma vantagem? Veja você mesmo:

 

 

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