Blog do Vinho
O Brasil que eu quero é esse
por Suzamara Santos
Publicado em 25 de julho de 2018

Como já contei aqui, este ano estou empenhada em aprofundar meus conhecimentos sobre vinho (sim, esse tema não tem fim) e, entre os meus esforços, está o Curso de Sommelier Profissional da Associação Brasileira de Sommeliers. O programa, que se estendia dois anos, foi reformatado para ocupar sete meses, com aulas mensais de sexta a domingo.

E neste último fim de semana (20 a 22/07), o módulo – quinto do curso – foi dedicado aos temas Espumantes do Mundo, Vinhos do Chile, Vinhos da Argentina, Vinhos do Brasil, Vinhos do Uruguai, Bolívia & Peru, Adegas, Rolhas Garrafas & Estratégias de Compra. Ao longo das aulas, há prática de degustação com vários rótulos representativos dos assuntos em pauta. E é sobre essas degustações que gostaria de falar. Precisamente, da presença brasileira entre vinhos de países com larga tradição na produção e consumo da bebida.

É um treino organoléptico e aqui não se exige pontuar ou julgar os rótulos. Mas é inevitável tecer comparações, já que a experiência com várias amostras naturalmente proporciona parâmetros de avaliação. Cheguei onde queria: os nossos vinhos deixaram de ser “café com leite” quando se fala em América do Sul. Para ficar na experiência recente, eles fizeram bonito num painel que tinha ao lado gigantes como Itália e Espanha (espumantes), Argentina, Chile e Uruguai.

Cabe ao professor da vez escolher os vinhos que vão ilustrar cada módulo do curso. E Bruno Vianna, presidente da ABS-Campinas, ofereceu uma série didática, marcada pela diversidade de estilos, uvas e regiões. O primeiro destaque brasileiro, foi o espumante Punto Nero Brut, da Domno, elaborado com as uvas Chardonnay (60%) e Pinot Noir (40%), da região de Garibaldi (RS). Ele foi apresentado ao lado do italiano Prosecco Di Valdobbiandene e o cava (Espanha) Reventós I Blanc Brut.

O Punto Nero, que você encontra no mercado por pouco mais de R$ 60, mostrou-se um excelente custo-benefício (o Prosecco custa R$ 145 e o cava, R$ 180) e reafirmou a vocação brasileira para espumantes. Fresco, acidez nas alturas, espuma consistente e agradáveis notas florais mescladas a cítricos, esse vinho remete a ocasiões descontraídas, dias de sol, ar livre, noites quentes, enfim, o que se espera de um espumante brasileiro da categoria. Em resumo: honesto em sua vocação e preço. Para quem não sabe, a Domno é um braço do Grupo Famiglia Valduga, referência em vinhos finos no Brasil.

Outro rótulo que chamou a atenção foi o Miolo Vinhas Velhas Tannat 2015 (R$180), feito com uvas da Campanha Gaúcha (RS). O vinho convenceu pela elegância dos taninos (sempre um desafio para os enólogos), pelos aromas de frutas vermelhas escuras, como cassis e amora, e pela sua surpreendente profundidade. Na minha opinião, superou De Lucca Tannat Reserva 2016, do Uruguai, nada menos do que a “terra da Tannat”. Mas Campanha fica ali pertinho, na divisa entre os dois países, e é onde estão os vinhedos viníferos mais antigos do Brasil. Muitas vinícolas de respeito, tradicionais e novas, fincaram lá suas bandeiras, dando vida a um terroir promissor, moderno e dinâmico.

Vinhas Velhas, que batiza esse Tannat, é uma referência aos vinhedos da Almadén, e aqui vale um parêntese: a Almadén chegou ao Brasil, por meio de projeto que era uma espécie de “caça a terroirs”, desenvolvido por um grupo ligado à Universidade de Davis, na Califórnia, no início dos anos 1970. Nascia então uma marca popular de grande sucesso comercial (ainda é) e, melhor, um dos acervos de cepas mais importantes do País. A marca foi comprada pela Pernod Ricard (Grupo Seagram), em 2001, e hoje pertence ao Grupo Miolo, que faz bom uso de um patrimônio precioso e raro, justamente as vinhas velhas, e, de quebra, melhorou a linha Almadén, que continua popular.

Hoje, não dá para falar de vinho brasileiro sem passar pela Campanha. De lá vem outro vinho que fez bonito na seleção apresentada aos futuros sommeliers da ABS: o Pizzato DNA 99, 100% Merlot (R$ 199), que remete ao grande momento desta vinícola no Brasil. Quem acompanha a evolução do vinho nacional deve se lembrar do zunzum provocado por um “merlozinho” desconhecido, que apareceu no final dos anos 1999/2000, e encantou apreciadores de variados quilates. Ele fez tanto sucesso que a marca resolveu manter o seu DNA no catálogo, daí o nome DNA 99. Olhando daqui, pode-se dizer que aquele vinho de quase 20 anos atrás, foi a primeira evidência séria de que a Merlot é mesmo a grande tinta brasileira, como insistem o winemaker Michel Rolland, e o Master of Wine Dirceu Vianna. Saúde!

Para colocar na sua lista

Domno Punto Nero Brut, S/N – 60% Chardonnay, 40% Pinot Noir, teor alcoólico 12%. Região: Garibaldi (RS). Gr upo Famiglia Valduga. Preço médio: 61.

Miolo Vinhas Velhas Tannat, Safra 2015 – 100% Tannat, teor alcoólico 13,5%. Região: Campanha Gaúcha (RS). Disponível na Adega Abadesco Campinas. Preço médio: R$ 180.

Pizzato DNA 99, Safra 2011 – 100% Merlot, teor alcoólico: 14%. Campanha Gaúcha (RS), Preço médio: R$ 199.

 

Clima de piquenique na praça: festival de queijos e mostra de vinhos juntos. Foto: Pedro Soares Neto

AGOSTO ESTÁ CHEGANDO

Em agosto tem dois eventos de vinhos importantes para marcar na folhinha. No sábado, dia 4, acontece o Encontro de Vinho, mostra que percorre importantes cidades brasileiras, e que, nesta edição, vem acompanhada do Festival de Queijos e Vinhos. Os expositores vão ocupar a agradável Praça Carlos Gomes, Centro, estimulando o público a se espalhar pelo gramado, sob as sombras das árvores. É programa para se estender pela tarde toda, entre bons vinhos e boa comida, preparada na hora por chefs convidados. Todos os pratos terão queijo entre os ingredientes. Música e atrações culturais também estão no cardápio. Atenção ao esquema: para degustação de vinhos é preciso comprar, por e-commerce, um dos kits de degustação com limites variáveis de doses: dez doses ($ 80), quinze ($ 100) e vinte ($ 120). Também serão vendidas no local taças de 120 ml e garrafas fechadas. Os pratos poderão ser adquiridos diretamente nas tendas dos chefs, ao preço mínimo de R$ 20. Mais informações: http://www.encontrodevinhos.com.br

PORTUGAL CONTINUA EM ALTA

Ainda em agosto, dia 16, acontece a Mostra de Vinhos Portugueses de Campinas, com cinco expositores, representando as principais regiões vinícolas do país. E local não podia ser mais propício: no saguão de entrada da Casa de Portugal de Campinas. O evento será nos moldes das feiras e mostras tradicionais de vinho, ou seja, importadores e vinícolas colocam seus principais produtos para degustação e ficam por ali à disposição do público para engatar boas conversas sobre rótulos, uvas, métodos de vinificação e regiões produtoras com quem tiver curiosidade para saber mais. A Mostra de Vinhos Portugueses de Campinas é um evento criado e organizado pela empresa 3 Ponto 7 Eventos. Os ingressos custam R$ 90. Anote: 16 de agosto de 2018, quinta-feira, das 19h às 22h30, na Casa de Portugal Campinas (saguão de entrada), Rua Ferreira Penteado, 1349, Centro. Informações e ingressos: https://www.eventbrite.com.br/e/mostra-de-vinhos-portugueses-campinas-2018

 

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