Liquidificultura
“O Encontro com o Eu”
por Cesar Póvero
Publicado em 2 de dezembro de 2013

O encontro consigo mesmo pode se dar aqui, numa página em branco de uma folha qualquer, o encontro consigo mesmo pode se dar sobre a fronha do travesseiro enquanto se cai em si ao fim do dia, olhando para o teto.

Acredito que a maioria das pessoas não tem esse encontro, hoje com nossos jornais, telejornais e portais de notícias o que mais se vê e se lê são as mazelas do mundo, a caixa de pandora escancarada com a tampa aberta. Como tais seres que se dizem racionais podem cometer tantas atrocidades e colocarem ao fim do dia suas cabeças em seus respectivos macios travesseiros e adormecerem?

Aposto que o que mais há no mundo são pessoas fugindo de si mesmas, elas não se encontram mais com si próprias, por isso precisam estar conectadas a tantos aparelhos, a tantas futilidades, tantos ruídos, máquinas e ações.

É difícil nos dias de hoje sairmos do alto de um edifício e seguirmos para o alto de uma montanha, precisamos encontrar este momento de outra maneira em meio ao caos do dia a dia. Enquanto nos ligamos a uma trama de rede social e nos jogamos na teia das amizades que não existem, afinal ninguém tem quinhentos, mil ou mais de mil amigos, isso é pura ficção, nos afastamos mais e mais das pessoas próximas e verdadeiras e mais ainda de nossa essência, de nós mesmos.

A rede social não é o tema deste texto, a acho importante para nos conectarmos em devidos momentos sim, e voltando ao tema o mais importante é não nos afastarmos de nós, do que somos, do que queremos, do que sonhamos, do que realmente precisamos em meio a uma rede/teia/trama de possibilidades uteis e fúteis de nosso dia a dia.

Talvez a gente não queira se encontrar, provavelmente não dê tempo em meio a tantos compromissos, contas, dívidas, compartilhamentos, ligações, necessidades, desejos… Não fugir de si, provavelmente a maioria da humanidade está numa corrida em massa para o lado oposto de si e muitos querendo ser outro ser, outra casca, outra embalagem, o ser estético invejável.

Muitas vezes é tarde, ou nunca é tarde? Para que a gente se lembre do que foi, não com apego ao passado, mas como referência de natureza e sua essência de seu cerne, se encontre com calma, não necessariamente todos os dias, mas semanalmente, depois um pouco mais, até que tais encontros fortuitos se tornem hábito, necessidade, sem pressa, nem tropeços, natural como o acordar e dormir que deve ser sem drogas licitas ou ilícitas. Acordar… para o dia, para a vida, para si e tomar uma xícara de paz consigo mesmo.

Só nós dois. Eu e eu mesmo, sem egocentrismo, apenas origem… vida…

 

Crédito da imagem: René Magritte.

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