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Cinema Literal
O evento “Vingadores: Ultimato”
por João Nunes
Publicado em 14 de maio de 2019

“Vingadores: Ultimato” (“Avengers: Endgame”, EUA, 2019), de Joe e Anthony Russo, estreou em 25 de abril. Fui vê-lo 18 dias depois. Primeiro, porque não tive a fissura da estreia de um filme que não me mobiliza e, segundo, porque esperei baixar a poeira da quase histeria provocada pelo lançamento – não se falava em outro assunto.

“Ultimato” não é um filme. Sim, trata-se de cinema-entretenimento de qualidade, mas pode ser chamado de evento. Só não diria intergaláctico porque (ainda) não temos comprovação de vida inteligente fora da terra. Se houvesse, e em Marte existisse gente, ele teria também estreado no planeta vermelho.

As dimensões do lançamento extrapolam qualquer histórico anterior – não há nada comparável. Só no Brasil, ocupou 80% das salas existentes e, no primeiro fim de semana, arrecadou 1,2 bilhão de dólares de um custo em torno de 400 milhões. Estamos falando de projeto e lucro impensáveis para qualquer cinematografia fora dos EUA.

Os produtores têm noção exata do cinema que fazem e a quem se dirigem: crianças, adolescentes, jovens, porcentagem de adultos nostálgica da juventude e, outra, de adultos adeptos do entretenimento puro e simples. E fazem cinema como se fabrica sabonete: qualidade, apuro, certeza do público consumidor e da necessidade desse mesmo público.

Ritual

Hoje, o espectador tem muitas plataformas à disposição e pode assistir a um filme em qualquer tempo e lugar. Por isso, “Ultimato” pode ser visto como os últimos suspiros do que restou do cinema romântico no qual pessoas se reuniam em sala escura como em um ritual.

“Vingadores” vai além desse papel, pois leva o conceito de espetáculo ao paroxismo seja na concepção do projeto, seja na capacidade de estimular massas no mundo inteiro com seu conceito de máximo entretenimento apoiado nos efeitos especiais de última geração criados em computador. Para completar, oferece uma história de super-herói humanizada que se acomoda na tela gigante e 3D e se completa com alto consumo de pipoca e refri.

Tudo isso apresentado por três horas. Não precisava tanto; porém, os produtores confiaram no princípio de que convém não apenas ser, mas parecer evento. Com isso, faz o efeito desejado perdurar por mais tempo aumentando o consumo da comida e da bebida e o apego ao produto – tal apego levará milhares de espectadores de volta ao cinema para rever o filme mais de uma vez.

No produto da Marvel se evidencia alta e sofisticada tecnologia e o melhor das áreas técnicas (efeitos, roteiro prescrito com muita ação, ritmo alucinante para impedir o espectador de respirar, música anódina, mas intensa e contínua, convincentes atores em cena, história bem contada).

O vilão se chama Thanos (Josh Brolin) e, óbvio, quer destruir o mundo (velho e famigerado clichê). Que obsessão é essa do vilões de HQ? Se conseguirem o intento, herdarão um mundo destruído e sobre quem exercerão poder? E contra quem se insurgirão depois? Bem, estas são algumas contradições do universo das HQs. Mas, justiça seja feita, o desfecho surpreende.

Os produtos fílmicos fadados ao sucesso (neste caso, de super-heróis) têm, ainda, enorme capacidade de se comunicar bem com todos os segmentos aos quais se destina. Outro mérito. Uma dessas comunicações está a cargo do humor. Muito boa as piadas sobre “De Volta para o Futuro”, entre outras, assim como o roteiro acerta em cheio no personagem Thor (Chris Hemsworth) – disparado o melhor do filme.

Para uma produção que não me instiga sobraram elogios meus para “Vingadores: Ultimato”. De verdade, não fosse profissional da área, eu não sairia de casa para vê-lo, mas é impossível não dizer que se trata de bom entretenimento. O fato de não me mobilizar não quer dizer que seja ruim – eu apenas não me enquadro em nenhum dos alvos dos produtores.

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