Faça as Malas
Os 15 melhores filmes de 2014
por Marcos Craveiro
Publicado em 29 de dezembro de 2014

#top15

“Boyhood” (EUA, 2014), direção Richard Linklater

Não há como falar sobre o filme “Boyhood” (2014), a nova produção de Richard Linklater, sem falar da ousadia do projeto que o cerca. Durante doze anos, em média uma vez por ano, o diretor reuniu os mesmos atores centrais para contar a história de um garoto dos 6 aos 18 anos. Um projeto que a principio fora feito de forma quase secreta, em que poucos pareciam acreditar devido ao seu ineditismo e ao tempo de duração das filmagens, se torna um das produções mais surpreendendo do ano (ganhando vários prêmios da crítica especializada e sendo um dos mais cotados ao Oscar 2015). São tantos os fatores que fazem de “Boyhood” essa obra tão inesperada que fica difícil elencar todas eles. Aliado a esse “frescor” do ineditismo em uma obra de ficção, temos ainda o “prazer” de acompanhar todos os atores envelhecendo praticamente à nossa frente, principalmente o garoto Mason (Ellar Coltrane) e as mudanças tão propícias que ocorrem da saída da infância para a adolescência e início da fase adulta. A narrativa de “Boyhood” é praticamente isso: acompanhamos o cotidiano de uma família através das mudanças ocorridas com a personagem desse menino e sua relação com o mundo que o cerca e como isso acaba influindo (ou não) naquilo que ele se torna (continua no link).

“Ela” (“Her”, EUA, 2013), direção Spike Jonze

Um dos filmes mais românticos e sensíveis do ano. Impossível não se reconhecer nas várias situações apresentadas em “Ela”, uma fábula sobre os relacionamentos modernos e a solidão a qual todos nós, seres humanos, estamos predestinados (ou não) a sentir. Theodore (o extraordinário Joaquim Phoenix) vive em uma cidade futurista e não consegue aceitar o divórcio da mulher que amava. À beira de uma depressão, caminha de casa ao trabalho, como se nada mais fizesse sentido em sua existência. Tudo isso muda com a compra de um novo sistema operacional, dotado de uma inteligência artificial, Samantha (voz de Scarlett Johansson). Mais do que uma crítica à era da hiperconectividade, na qual computadores são os intermediários de vários relacionamentos, “Ela” fala do quanto o amor pode ser complexo independentemente de qualquer tecnologia que possa vir a explicá-lo ou a substituí-lo. Fala da necessidade de estarmos em mundo sempre conectados, mas, acima de tudo, fala sobre a necessidade que temos de estar conectados a alguém especial. Com um roteiro primoroso (o primeiro escrito por Jonze, os anteriores foram feitos em colaboração), com um clima retro no figurino e fotografia e uma excelente trilha sonora da banda Arcade Fire, Ela cativa logo nos seus primeiros segundos, nos levando em uma jornada de descobertas e emoções. Com um roteiro primoroso (o primeiro escrito por Jonze, os anteriores foram feitos em colaboração), com um clima retrô no figurino e fotografia e uma excelente trilha sonora da banda Arcade Fire, “Ela” cativa logo nos seus primeiros segundos, nos levando em uma jornada de descobertas e emoções. 

“Praia do Futuro” (BRA/ALE, 2014), direção Karim Ainouz

Se, à primeira vista, existe algo que salta aos olhos no cinema do diretor cearense Karim Ainouz é a proximidade com que ele utiliza a câmera em relação aos corpos de seus personagens. A câmera gruda em seus atores para não mais deixá-los por um segundo qualquer, perscrutando cada centímetro de seus corpos, sejam em êxtase, sejam em sofrimento. Karim acompanha vertiginosamente seus personagens que estão sempre em movimento, empreendendo uma busca que, na maioria das vezes, não sabem qual é. Nesse universo de deslocamento físico, no qual os personagens estão submetidos, a estrada torna-se a metáfora perfeita para extrair com exatidão esse não pertencimento a lugar nenhum e/ou sentimento de estranhamento frente a uma realidade que não condiz com as necessidades internas de tais personagens. Em seu primeiro longa-metragem, “Madame Satã” (2002), esse deslocamento dava-se em um sentido mais restrito às questões sexuais que perpassavam o personagem: um dos mais famosos travestis da cena noturna brasileira (continua no link).

“Hoje eu Quero Voltar Sozinho” (BRA, 2014), direção Daniel Ribeiro

Lançado despretensiosamente em 2010, ninguém imaginava que o curta-metragem “Eu Não Quero Voltar Sozinho” se tornaria uma espécie de cult instantâneo, falando tão diretamente a tantos adolescentes que iniciavam seus passos na vida amorosa e/ou sexual. Quatro anos depois o diretor Daniel Ribeiro lança um dos desdobramentos desse seu trabalho: o longa-metragem “Hoje Eu Quero Voltar Sozinho” (2014). Partindo da mesma premissa do curta realizado em 2010, acompanhamos o dia a dia de três adolescentes: o deficiente visual Leonardo, sua melhor amiga Giovana e o recém-chegado Gabriel e como esse novo aluno se interpõe na amizade dos outros dois alterando as relações que até então pareciam ser ideais (continua no link).

“Dois Dias, uma Noite” (“Deux jours, une nuit”, BEL/FRA/ITA, 2014), direção Jean-Pierre e Luc Dardenne

Como sempre os irmãos Dardenne não erram. Os belgas Jean-Pierre e Luc vêm em uma sequencia de excelentes filmes, sempre no estilo que os consagraram: atores bem dirigidos, histórias cotidianas, narrativa naturalista, em obras não menos que impactantes. Foi assim com Rosetta (1999), O Filho (2002), A Criança (2005), O silêncio de Lorna (2008) e O garoto da bicicleta (2011). Em Dois dias os Dardenne mostram uma operária (a cada dia melhor atriz Marion Cottilard), em crise de depressão, que está prestes a ser demitida e para isso tem o final de semana pra ir, de casa em casa, convencer seus companheiros de trabalho a votar contra a sua demissão na reunião de segunda-feira. Uma história aparentemente banal que os Dardenne conseguem transformar em uma grande jornada em busca da autoestima perdida. Os irmãos são hábeis em construir de forma simples um emaranhado de sensações no qual vai jogando suas personagens e nos colocando juntamente com elas no centro dos conflitos. Sem dúvida alguma, os Dardennes são os cineastas mais interessantes do continente europeu e nunca decepcionam.

 

“O Lobo Atrás da Porta” (BRA, 2013), direção Fernando Coimbra

Filme nacional com uma surpreendente estreia na direção de Fernando Coimbra. O filme acompanha os desdobramentos do sumiço da filha de um casal (Fabílua Nascimento e Milhem Cortaz), sendo que a principal suspeita do desaparecimento é a amante dele (Leandra Leal). Uma tensa jornada pelos (des)caminhos do desejo e a passionalidade de amores mal resolvidos. Simples e extremamente complexo, o filme é um tour de force do elenco principal, em uma história que nos deixa perplexo com o seu desfecho. A maldade é mostrada através de sua faceta mais ingênua e torpe, de uma forma tão crua que não nos deixa incólume.

 

“O Lobo de Wall Street (“The Wolf of Wall Street”, EUA, 2013), direção Martin Scorsese

Aos 71 anos de idade, o diretor Martin Scorsese prova, com “O Lobo de Wall Street” (2013), estar no auge de sua carreira. Mostrando uma vitalidade que parecia haver se perdido em alguns dos seus filmes anteriores, Scorsese consegue revitalizar-se e entrega um dos filmes mais insanos e excessivamente engraçados da temporada de premiações americanas, que culminou com cinco indicações d’O Lobo ao Oscar 2014. Martin continua com sua predileção por personagens solitários, quase psicopatas sociais, que conseguem se reinventar ou mergulham em um espiral de decadência do qual não mais conseguem voltar. Jordan Belfort (um Leonardo DiCaprio à beira da perfeição), o personagem central de “O Lobo de Wall Street”, é o anti-herói “scorsesiano” por excelência: sua ambição só é comparável com o tamanho de seu apetite por sexo, drogas e diversão, que vão desde elevados patamares de afronta a códigos morais até discursos motivacionais verborrágicos (continua no link).

“Garota Exemplar” (“Gone Girl”, EUA, 2014), direção David Fincher

David Fincher não é um cineasta ingênuo, sabe muito bem como contar uma história e usar de ardis visuais para corroborar suas ideias. Fincher tem obsessão por vasculhar a mente de seus personagens, desnudando-os no limite de suas idiossincrasias, analisando milimetricamente o que cada um tem a nos oferecer, com certa predileção pelo lado mais sombrio dessas personalidades. Foi assim com “Clube da Luta”, “Seven”, “Zodíaco”, “A Rede Social”, entre outros. Fincher sabe melhor do que ninguém mostrar personagens que se refletem em outros personagens. Quanto mais sabemos de Tyler Durden, o personagem de Brad Pitt em “Clube da Luta” (1999), mais conhecemos o personagem de Edward Norton. Quanto mais tentamos descobrir e acompanhar os passos do assassino do zodíaco, mais desvendamos os meandros da mente de Robert Graysmith (Jake Gyllenhaal), o jornalista responsável pelo caso em “Zodíaco” (2007). Isso apenas para ficarmos em dois exemplos. Portanto, não seria diferente em seu décimo filme, “Garota Exemplar” (2014) (continuar lendo).

“Relatos Selvagens” (“Relatos Salvajes”, ARG/ESP, 2014), direção Damián Szifrón

Saudado pela crítica como uma mistura de Pedro Almodóvar com Quentin Tarantino, o filme argentino “Relatos Selvagens” (2014), está um pouco além dessas referências fáceis. O diretor Damián Szifrón consegue nos mostrar um lado perverso e intolerante da natureza humana que facilmente pode ser “ativado” através de pequenos surtos que desencadeiam reações que crescem e culminam em consequências catastróficas, algumas à beira do nonsense, recheadas de humor negro, com uma rara acidez até então pouco vista no cinema de “nuestros hermanos”. Grande sucesso nas bilheterias argentinas, “Relatos” parece que vai repetir esse feito por onde passa: foi bem recebido no Festival de Cannes, lotou sala na 38º Mostra de São Paulo e é o filme que a argentina indicou para concorrer ao Oscar de melhor filme estrangeiro desse ano (continuar lendo).

“O Grande Hotel Budapeste” (“The Grand Budapest Hotel”, EUA, 2014), direção Wes Anderson

O cineasta norte-americano Wes Anderson é um caso bem atípico dentro do cinema produzido em seu país, quiçá do cinema contemporâneo mundial atual. Com uma filmografia de poucos títulos (“Pura Adrenalina”, “Três é demais”, “Os excêntricos Tenenbaums”, “A vida marinha com Steve Zizou”, “Viagem a Darjeeling”, “O fantástico Sr. Raposo” e “Moonrise Kingdom”) e sem nenhum grande êxito de bilheteria, Anderson é dono de um cinema extremamente autoral e de um estilo muito bem definido e reconhecido dentre a produção contemporânea. Anderson cria histórias (o roteiro de todos os seus filmes são de sua autoria) levemente lúdicas, com um grande senso de nostalgia, com enquadramentos nos quais a simetria é uma das mais fortes características de sua mise en scene. Sua obsessão por imagens simétricas ganhou até um vídeo “homenagem” na internet que exemplifica essa paixão que Anderson tem por direcionar elementos cênicos no centro do quadro fílmico (continuar lendo).

“Tom na Fazenda” (“Tom à La Ferme”, CAN/FRA, 2013), direção Xavier Dolan

Confesso minha birra com o cineasta Xavier Dolan. Histérico e mimado pelos festivais internacionais que o ovacionam como um grande cineasta, ele não passa de um cara com um bom repertório cinematográfico, mas que excede nos maneirismo em suas obras, beirando o irritante. Tal foi minha surpresa ao ver que Dolan conseguiu transformar “Tom na Fazenda”, seu quarto filme, em sua melhor obra, até então. Tom na fazenda injeta um sopro de “verdade” no cinema de Dolan, no qual ele segura as rédeas do seu exibicionismo cinematográfico, que padece de um fashionismo quase gratuito, para construir uma obra densa e cheia de referencias, de Hitchcock a Claude Chabrol. O jovem Tom (o próprio Dolan), com a morte do namorado visita a família dele em uma fazenda distante. Lá descobre que a mãe não sabia de nada e cria uma tensão, um jogo de gato e rato, com o irmão mais velho do ex-namorado. Com grandes planos abertos que alterna com planos aproximados que beira o claustrofóbico, Dolan cria uma obra intensa, pois, até então, não sabíamos se ele seria capaz de abrir mão de seu artificialismo para realmente deixar que a narrativa fosse a condutora fundante de sua obra. Pena que a resolução final pareça ser tão apressada em um filme que prometia tanto.

 

“Clube de Compras Dallas” (“Dallas Buyers Club”, EUA, 2013), direção Jean-Marc Vallée

Ron Woodroof (Matthew McConaughey, Oscar de Melhor Ator de 2014) é o típico machão texano dos anos 80: alienado e aficionado por mulheres, bebidas e rodeio. Em um outro “lado” da cidade vive o transexual Rayon (Jared Leto, Oscar de Melhor Ator Coadjuvante de 2014), figura à margem da sociedade que jamais seria visto e/ou percebido por Ron, a não ser através daqueles momentos tão singulares que a vida nos proporciona. Baseado em fatos reais, “Clube de Compras Dallas” (2013) conta a jornada desses dois seres tão díspares entre si e a luta pela sobrevivência que empreendem contra a Aids, o governo dos Estados Unidos e a industria farmacêutica americana. O filme acompanha a luta de Ron para não tomar o AZT, droga experimental que começou a ser usada nos pacientes com Aids nos anos 80, que provou-se, posteriormente, ser um grande complicador nesse tratamento, pois destruía todas as células das vítimas, doentes ou não. Com isso, Ron cria o “Clube de Compras Dallas” do título, para ajudar, assim como ele, pessoas desamparadas pelo Governo americano, a terem acesso à compra de remédios ilegais, que se mostravam mais eficazes no tratamento (continuar lendo).

“12 anos de Escravidão” (“12 Years a Slave”, EUA/ING, 2013), direção Steve McQueen

Forte e contundente ao falar de escravidão, o filme do inglês Steve McQueen (dos excelentes Hunger e Shame) peca por um certo academicismo quando comparado com suas obras anteriores, mais ousadas em forma e conteúdo. Ainda assim, 12 anos é um ótimo exemplo de um filme muito bem dirigido, com um excelente elenco (Chiwetel Ejiofor, Michael Fassbender, Lupita Nyong’o, Paul Dano, Benedict Cumberbatch) e, mesmo contando uma história tantas vezes já vista, ainda consegue nos emocionar.

“A Culpa é das Estrelas” (“The Fault in Ours Stars”, EUA, 2013), direção Josh Boone

Um dos grandes sucessos da temporada de verão, merecidamente. Pode ser que alguns reclamem que seja clichê demais, meloso demais, adolescente demais, mas é impossível não se envolver e se emocionar com a história de dois adolescentes com câncer que se apaixonam. O filme (baseado no livro de John Green, também um enorme sucesso) consegue se desvencilhar de vários clichês impostos por esse tipo de temática e narrativa voltada ao público adolescente, fazendo uma obra que dialoga com qualquer pessoa que tem sentimentos (sim, se você não chorou ou sofreu em “A culpa” é porque você é insensível). O filme acerta em sua proposta graças a escolha de seu elenco, principalmente o casal central. Shailene Woodley (Hazel) é uma presença luminosa em cena, carregando o filme inteiro “nas costas”, com uma interpretação madura e sincera, tendo como contraponto um carismático Ansel Elgort (Gus). Pode não ser o melhor filme do ano (e não é), mas com certeza, é o mais honesto em retratar uma juventude fora dos estereótipos tão propagados por uma indústria (principalmente a americana) na qual todos precisam ser perfeitos.

“Ninfomaníaca vol 1 e 2” (“Nymphomaniac vol I e II”, DIN/ING/EUA/FRA, 2014), direção Lars Von Trier

Lars Von Trier continua trabalhando com alguns temas que lhe são caros: a culpa relacionada ao sexo, a incapacidade de uma entrega total ao objeto de desejo, a religião (seja ela qual for) permeada por um sentido agudo de exasperação. Joe (Charlotte Gainsbourgh) é encontrada na rua por um homem, Seligman (Stellan Skarsgard), que a leva para casa, cuida de seus ferimentos, enquanto a ouve narrar suas aventuras sexuais, em busca da satisfação de um desejo que parece insaciável. Von Trier peca por um certo didatismo nessa primeira parte, principalmente nos diálogos entre Joe e Seligman, o homem que a acolhe, misto de padre, pastor e psicólogo. Alguns diálogos e algumas analogias propostas pelo diretor (Fibonacci, Bach, peixes, etc), através das elucubrações proferidas por Seligman (ou seriam do próprio Von Trier?), são levemente desnecessários e/ou intelectualizados demais, nos tirando o foco do que realmente importa na história: a crise existencial de uma mulher insaciável sexualmente à beira do desespero, relatando sua história recheada de culpa e autocomiseração.

Na segunda parte do “empreendimento” erótico/filosófico do polêmico cineasta Lars Von Trier, temos aqui a excelente Charlote Gainsbourgh assumindo o protagonismo de fato (no anterior tínhamos sua versão jovem, feita pela atriz Stacy Martin, que enfraquecia um pouco a narração). Mais pessimista e dramático que seu antecessor, sem as descobertas da sexualidade de sua então protagonista, que dava ao longa um clima um pouco mais ameno, Von Trier mostra com esse projeto, que infelizmente foi dividido em duas partes, que, como cineasta é um dos melhores marqueteiros da história do cinema. “Ninfomaníaca” (que também foi lançado em uma versão maior e pornográfica, descrita como a versão oficial do diretor) é um grande exagero egocêntrico de um diretor que parece mais preocupado com as polêmicas suscitados por seus filmes do que com a reflexão que ele possa causar. Tudo é grande em “Ninfomaníaca”, igual a capacidade que Von Trier tem de se distanciar do ótimo cineasta que prometia ser, com filmes como “Europa”, “Ondas do Destino”, “Os Idiotas”, “Dançando no Escuro” e “Dogville”.

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