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Consoantes Reticentes…
Os melhores filmes de 2013
por Marcelo Sguassábia
Publicado em 30 de dezembro de 2013

1 – “Azul é a Cor Mais Quente” (França, 2013), direção Abdellatif Kechiche

 
Grande vencedor do Festival de Cannes deste ano, Azul configura-se como o filme mais interessante e espantosamente apaixonante do ano. A jovem Adele (a extraordinária Adele Exarchopoulos) percebe-se diferente ao sentir-se mais atraída por meninas do que por meninos. Ao conhecer Emma, a garota dos cabelos azuis, Adele lança-se em um crescimento emocional, passando de uma frágil colegial a uma mulher madura, em três horas de projeção. 

O diretor Abdellatif Kechiche gruda a câmera no rosto de suas protagonistas, criando uma intimidade ímpar com os medos, anseios e desejos manifestos em cada olhar das duas atrizes. É um filme quase orgânico, de corpos entregues ao prazer, de pele suada, de gozos libertários, de bocas em close, que nos desperta e nos enternece. O importante aqui não é filmar a descoberta sexual de Adele e sim a construção de uma relação de afeto com outra pessoa e os altos e baixos dessa paixão quase avassaladora. O ápice dessa jornada se dá na entrega da atriz principal, somos praticamente impelidos a participar de cada detalhe do corpo, das sensações, das hesitações de Adele, em um “tour de force” absolutamente espetacular, principalmente por tratar-se de uma garota de apenas 19 anos.

Com uma história simples, sem grandes ousadias estéticas, envolvido em grandes polêmicas relacionadas ao seu teor sexual, Kechiche cria um épico intimista sobre a dor e a beleza das grandes paixões. Um estudo, não apenas sobre o primeiro amor, mas sobre como grandes amores duram pra sempre em nossas vidas, mesmo que a necessidade de ficarmos juntos não mais exista. O filme mais poético surgido em 2013. 

2 – “Dentro da Casa” (França, 2012), direção François Ozon

 

Baseado em uma peça de teatro, “El chico de la última fila”, de Juan Mayorga , “Dentro da Casa” constrói uma obra instigante que pode ser vista ou entendida por diversas entradas, com uma multiplicidade de pontos de vistas tais quais um labirinto pode oferecer em seu caminhar.

Germain (Fabrice Luchini), professor de literatura, não aguenta mais a mediocridade dos escritos de seus alunos quando se depara com uma redação acima da média. O jovem Claude (Ernst Umhauer) escreve sobre a família de um amigo, que estuda na mesma classe, instigando o professor a se tornar um ouvinte participativo em sua narrativa. O professor vê em Claude a oportunidade de transforma-lo em um excelente escritor para suprir suas próprias frustrações com a escrita. Mas Claude, em sua aparente ingenuidade, cria ardis que seduzem o professor, enredando-o em sua história, em uma tênue linha entre fantasia e realidade.

Utilizando como artifício nos tornar cúmplices de sua narrativa, Ozon constrói um “jogo” entre realidade e imaginação e nos deixa à mercê de uma história vertiginosa, a qual acompanhamos com imenso prazer a cada desfecho proferido. Além de criar essa narrativa em espiral, nos jogando de um lado para o outro dentro desse labirinto narrativo, Ozon também propõe uma análise da nossa relação com o cinema e a imagem produzida por ele. Nessa história contada quem é o voyeur? O aluno que narra a história e escolhe a família como seu objeto de desejo? O professor que lê essas histórias e o incentiva nessa escrita, ou nós que assistimos a tudo isso passivamente?

3 – “A Caça” (Dinamarca, 2012), direção Thomas Vinterberg

Uma garota de sete anos, na ânsia de chamar a atenção de seu professor, comete um pequeno “equívoco” que ganha proporções assustadoras, instaurando um dos medos mais recorrentes da atualidade: o abuso sexual infantil. Com esse assunto polêmico nas mãos, Thomas Vinterberg, o diretor, move-se em um terreno extremamente ambíguo para dar conta dos caminhos pelos quais sua narrativa se envereda.

O grande acerto desta proposta é colocar o personagem Lucas (um “tour de force” do genial Mads Mikkelsen, que pode ser visto na série Hannibal), o professor, como alguém ético, com um caráter incorruptível e acima de tudo inocente nessa confusão em que ele, involuntariamente, envolve-se. Com isso Vinterberg ganha nossa total empatia pelo protagonista e nos coloca em uma situação de muita reflexão em relação à situação instaurada: se fossemos nós, não sabendo o quanto Lucas é inocente, como reagiríamos? Um filme complexo que termina nos deixando com mais perguntas do que respostas. Forte e contundente.

4 – “O Verão de Giacomo” (Itália, 2011), direção Alessandro Comodin

 

Um filme simples, singelo, baseado em detalhes, em pequenas sensações e emoções. Quase uma pintura impressionista em sua construção estética, o filme de estreia do italiano Alessandro Comodin é uma obra que cintila a nossa frente, trazendo uma emocionante reflexão sobre juventude e amizade, na qual as lembranças parecem nos conduzir a um tempo idílico, no qual as horas não passam e os momentos de letargia são os mais preciosos em uma construção de um sentido para a nossa existência, mesmo que tudo seja efêmero. O filme acompanha um verão no interior da Itália do jovem Giacomo (Giacomo Zulian), um garoto surdo de 19 anos e sua amiga de infância Stefania (Stefania Comodin). Entre brincadeiras infantis, jogos de sensualidade, Comodin opta por uma genial reflexão entre o documentário e a ficção. Temos aqui dois atores representando a si mesmos, em uma história de ficção na qual muito da relação entre os dois que vemos na tela é fruto de uma relação verdadeira (Giacomo e Stefania são amigos há muito tempo, e foi através dela, que é irmã do diretor, que este conheceu Giacomo). Filme repleto de uma doce melancolia, que nos desperta os sentidos em meio a uma sutileza de gestos delicados e profundos.

5 – “Um Estranho no Lago” (França, 2013), direção Alain Guiraudie

 

Um dos filmes mais instigante do ano. Partindo de uma premissa simples: homens que se encontram a beira de um rio a procura de sexo, Allan Guiraudie, o diretor, consegue traçar um rico painel sobre solidão, sexualidade, desejo carnal e busca irrefreável pela necessidade de ser feliz. Mesmo que trate abertamente de personagens em um universo homossexual, Guiraudie consegue ser universal em sua análise de uma sociedade acostumada com sexo, mas pouco apta ao afeto. Com um fiapo de história em mãos, o importante não é o que contar e sim como contar, o que o diretor consegue transformar em maestria dentro de sua proposta. São diversas cenas contemplativas, longos planos repetitivos, que nos insere no lugar onde esses homens estão. Aos poucos Guiraudie nos envolve em uma tensão sufocante, a beira do insuportável. A referência a Hitchcock, apesar de um pouco óbvio, se aplica aqui a perfeição: em um ambiente bucólico, de aparente beleza, os atos mais vis podem ser cometidos, o perigo anda a espreita em cada moita, em cada mergulho dado. Pode parecer um filme sobre a morte (tanatos), mas na verdade é uma ode ao viver (eros), ao desespero de agarrar-se a qualquer coisa que seja para sentir-se vivo.

6 – “Perder a Razão” (Bélgica/França, 2012), direção Joachim Lafosse

 

Filme do diretor belga Joaquim Lafosse, uma espécie de Michael Haneke com menos violência e distanciamento, mas ainda assim descrente nas relações humanas. Um casal (os excelentes Tahar Rahim e Émilie Dequenne) resolve casar-se e morar com o médico Pinget (Niels Arestrup), com quem o rapaz possui uma relação de dependência. No decorrer do filme somos informados que o médico é casado com a irmã do rapaz e mantém a família que vive no Marrocos. Esse quase triângulo de situações e manipulação acaba se tornando insuportável para ela, que tenta incutir a necessidade de liberdade no marido, com consequências desastrosas. Primoroso trabalho de direção, talvez um dos melhores até então de Lafosse (Propriedade Privada, Eléve Libre), que esmiúça os percalços de relações fadadas ao fracasso, relações essas que tentam a todo o momento se impor diante de uma busca pelo afeto e pela aceitação, mas que se desintegram em cinismo e amargura. A tensão é permanente e sabemos (principalmente por causa de como o filme se inicia) que algo muito trágico irá acontecer. Através de um único plano, com a câmera estática, Lafosse faz com que nos tornamos sua testemunha em um ato vil e desesperador que, sem dúvida alguma, é um dos desfechos mais cruéis do ano.

7 – “Amour” (França/Alemanha, 2012), direção Michael Haneke

 

Um dos filmes mais comentado e premiado do ano, mas não é pra todos. Seco, direto e cruel, Michael Haneke, não poupa seus espectadores de sua total descrença com a humanidade e de uma visão trágica e pessimista da velhice. Haneke opta por um realismo que não nos deixa indiferente, somos absorvidos, ao mesmo tempo em que queremos nos distanciar daquela história, de uma maneira avassaladora. Não existe meio-termo em sua misé-en-scene, já descrita como uma “estética da crueldade”, que nos coloca em uma situação limite tal qual seus dois protagonistas. O filme acompanha um casal de idosos (os excepcionais Jean-Louis Trintignant e Emmanuelle Riva) até o momento que ela adoece e precisa dos cuidados do marido. Um tour de force de ambos os atores e uma obra de uma contundência que há tempos não víamos. Caso prefira uma visão menos amarga e que mostre um pouco de dignidade na velhice, opte por assistir “Quarteto” ou o “Exótico Hotel Marigold”. Com certeza você não encontrará nada disso aqui ou em qualquer outro filme do Haneke, um cineasta que tem se tornado essencial a cada nova produção.

8 – “Joven y Alocada” (Chile, 2012), direção Marialy Rivas

 

Filme de estreia da cineasta chilena Marialy Rivas. Daniela é uma jovem em busca de sua autoafirmação e lugar no mundo onde vive. O que complica essa busca é fazer parte de uma família evangélica, na qual os preceitos religiosos guiam a educação que a mãe lhe dá, sendo o sexo o pecado capital nessa equação. Daniela, não sendo mais virgem, é expulsa da escola e colocada pela mãe para trabalhar em uma estação de TV religiosa para que se aproxime mais de Deus. Em um ambiente de repressão, cerceada por todos os lados, Daniela cria um blog na internet, que dá título ao filme, como válvula de escape para extravasar e se autoconhecer em um ambiente em que tudo é permitido ou tudo pode ser dito. Rivas cria um filme extremamente sincero em sua abordagem da juventude como há tempos não se via. Sem concessões ou fórmulas fáceis presente na maioria dos filmes que retratam adolescentes e como eles lidam com a sexualidade, Rivas vai pela contramão: é ousada, não mede esforços para adentrar as motivações de sua personagem, sem com isso julgá-la ou redimi-la de seus erros. A jornada de Daniela é crua, seca, por vezes dolorosa, mas com doses de experimentações e alegrias tão típicas dessa idade. No Brasil, o filme ganhou o desnecessário subtítulo de “Aventuras de uma Ninfomaníaca”, extremamente machista e de pouco ou nenhuma relevância dentro da história abordada.

9 – “Antes da Meia-Noite” (Estados Unidos, 2013), direção Richard Linklater

Continuação dos excelentes “Antes do Amanhecer” (1995) e “Antes do Por do Sol” (2004). A fórmula continua a mesma, o casal central (Ethan Hawke e Julie Delpy) passa o filme todo conversando a respeito da vida, do amor, de suas experiências, dos medos, etc, aqui com uma dose menor de romantismo que os antecessores, pois ambos estão em um relacionamento que dá sinais de cansaço. “Antes da Meia-Noite” nada mais é do que um grande “discutir a relação”, sendo impossível não se identificar com os personagens e suas elucubrações. Claro que os atores centrais potencializam os diálogos e as situações vivenciadas com uma interpretação e uma química que nos faz ficar o filme todo nos perguntando: porque esses dois “realmente” não são um casal? Terno e comovente, “Antes da Meia-Noite” é repleto de uma beleza e de uma paixão por seus personagens que não nos deixa imune aos dramas por eles vividos que, no fundo, também podem ser os dramas de cada um de nós.

10 – “A Hora Mais Escura” (Estados Unidos, 2012), direção Kathryn Bigelow

 

Kathryn Bigelow consegue a proeza de fazer o filme mais sério, mais político (sem panfletarismo) e mais tenso (mesmo que o final já seja sabido por todos) do ano. É invejável o modo como ela não se alia aos maneirismos típicos dos trailers hollywoodianos, não apela a um final catártico e nem deixa as ações incorretas apenas para os vilões, misturando essa equação de certo e errado. Apesar de o foco ser uma agente da CIA e sua busca incansável pelo terrorista Bin Laden e como os EUA tentam, a qualquer custo, proteger seus interesses e sua segurança nacional, mostrando que, em uma guerra, ambos os lados usam a tortura física e psicológica como meios para atingir os resultados que almejam. Infelizmente, essa coragem da diretora fez o filme passar de favorito a azarão no Oscar 2013, quase naufragando na bilheteria. São quase 2h40 que acompanhamos a agente Maya (a excelente Jessica Chastain) e sua árdua busca pelo criminoso nº 1 dos EUA, ou do mundo, sem uma cena sequer desnecessária ou que esteja ali para aumentar a narrativa, tudo é tão coeso e tão tenso, que nem percebemos o tempo passar. Nesse espiral de violência, de atentados terroristas e da demora em localizar Bin Laden, cria-se toda a obsessão de Maya que, entre erros e acertos, termina sua busca isolada em um avião, sem saber se isso é o final ou o começo de algo ainda maior. O que já era antecipado na direção ágil e tensa de “Guerra ao Terror”, Kathryn ousa e eleva a potência máxima em “A Hora Mais Escura”.

11 – “Killer Joe” (Estados Unidos, 2011), direção William Friedkin

Simplesmente um dos filmes mais insanos do ano, extremamente perverso e amoral. Parece filme feito por algum estreante que coloca toda a sua criatividade a serviço de uma narrativa que pouco se importa com as convenções de Hollywood. Mas, pasme, o filme é feito por um veterano, o diretor William Friedkin (“Parceiros da Noite”, “Operação França”, “O Exorcista”) que, no auge de seus 78 anos, conduz com precisão uma narrativa repleta de reviravoltas e imoralidades. Ninguém presta em Killer Joe, a sordidez e a mesquinharia humana são mostradas em toda sua potencialidade. Pai e filho combinam de matar a mãe e ex-esposa, por causa de um seguro em nome da irmã mais nova. Nesse meio tempo envolvem-se na história a atual esposa do ex-marido e um matador de aluguel contratado para essa empreitada. Não espere sutilezas nesse emaranhado de más intenções que os protagonistas se enredam. Friedkin explora o elenco, colocando todos em papéis memoráveis. Além de tudo isso, Friedkin constrói uma cena antológica: ninguém conseguira olhar para uma coxa de frango frita da mesma maneira após assistir esse filme. Obra barra-pesada que não é para todos os gostos ou estômago.

12 – “Jovem e Bela” (França, 2013), direção François Ozon

Novo filme do badalado cineasta francês François Ozon. Depois do genial “Dentro da Casa”, Ozon opta por um filme mais simples e comedido em sua narrativa. Acompanhamos a jovem Isabelle (a lindíssima Marine Vacth) e sua emancipação sexual, passando de garota virgem nas férias de verão com a família a prostituta de luxo nas horas vagas. Mas porque ela se prostitui? Essa é uma questão que Ozon não responde durante o filme. Sem cair em armadilhas psicológicas fáceis ou julgamentos morais desnecessários, Ozon segue sua jovem protagonista em sua relação com a família, com os amigos e com seus clientes. Isabelle não se prostitui pelo dinheiro que ganha, pois nunca o usa, suas motivações maiores talvez estejam escondidas em seu olhar melancólico, de grande apatia e tristeza. A força deste olhar de Isabelle/Marine é onde se baseia toda a construção do filme de Ozon, somos impelidos a dividir essa jornada com a personagem, pois Ozon já nos trata como pretensos voyeur na primeira cena do filme, quando Isabelle está sendo observada na praia por um binóculo. A juventude sempre é bela e sedutora em Ozon, mas carrega uma dose extra de amargura em sua relação com o mundo adulto.

13 – “Eu e Você” (Itália, 2012), direção Bernardo Bertolucci

 

Bernardo Bertolucci nunca decepciona. Mesmo quando faz um filme menor, não em um sentido pejorativo, mas menor dentro das pretensões de sua narrativa, consegue nos comover e nos enredar em seu universo. De volta ao tema da juventude que lhe é tão caro, “Io e Te” se aproxima muito de seu filme anterior, “Os Sonhadores” (2003), no qual trata da relação de três jovens em um apartamento, enquanto maio de 68 borbulha nas ruas de Paris. Aqui o foco é menos político e mais emocional. O jovem Lorenzo (o extraordinário Jacopo Olmo Antinori) é um garoto de 14 anos, introspectivo, pouco apto ao diálogo, que imagina uma vida perfeita sem ninguém ao seu lado para lhe cobrar ou pedir coisas. Essa oportunidade vem com uma viagem da escola, a qual ele pretende não ir e ficar uma semana trancado no porão do prédio onde mora, apenas fazendo aquilo que lhe interessa, sem ter que conviver com ninguém ao seu lado. Seus planos mudam quando é obrigado a dividir o espaço com a meia irmã Olivia (a ótima Tea Falco), a quem não vê há muito tempo e que mantém uma relação problemática com a família e com si mesma. Olivia está em abstinência do uso de drogas e vai precisar muito de Lorenzo como apoio e redenção. É nessa relação forçada que surge o inevitável: Olivia talvez trilhe um caminho melhor, ou não, mas, com certeza, é Lorenzo quem sai modificado dessa relação. Espécie de rito de passagem, Bertolucci constrói uma narrativa leve e dinâmica, na qual é impossível não se emocionar com o amadurecimento psicológico de Lorenzo e sua entrega ao viver. Simples, sem nenhuma inovação, Bertolucci ainda é um grande contador de histórias e um diretor essencial dentro da história do cinema.

14 – “Django Livre” (Estados Unidos, 2012), direção Quentin Tarantino

 

Em “Django Livre”, Tarantino faz sua ópera barroca, muito similar aos espetáculos de violência produzidos pelo diretor Sam Peckinpah nos anos 60/70, com quem guarda muitas similaridades. Ao contrário de Peckinpah no qual a violência é em câmera lenta, anunciada e quase coreografada, em Tarantino ela continua coreografa, mas aparece de forma inesperada, em um êxtase frenético. O filme, como todos os outros desse diretor, trata do tema da vingança, aqui sendo o foco da ação o revide que o escravo liberto Django quer dar naquele que comprou sua esposa, o almofadinha do velho oeste Calvin Candie (o sempre ótimo Leonardo DiCaprio). Mas quem rouba o filme, situação já vista no anterior Bastardos Inglórios, é o ator Christoph Waltz, que nos deixa “siderado” em cada cena que aparece, com um domínio inegável da arte da interpretação, fazendo com que seu companheiro de elenco se torne um perplexo Jamie Foxx (o Django do título e personagem principal dessa saga) que se torna secundário a cada momento em que Waltz aparece em cena. Pode-se gostar ou não de Tarantino, pode-se criticá-lo ou se escandalizar com seu excesso de sangue e violência estilizada, mas jamais ignorá-lo.

15 – “Os Suspeitos” (Estados Unidos, 2013), direção Denis Villeneuve

Ótima estreia em uma produção americana do cineasta canadense Denis Villeneuve, conhecido por seu trabalho no filme “Incêndios” (2010). O título em português deixa um pouco a desejar ao optar por uma tradução não literal do inglês “Prisioners”. Todos são prisioneiros nesse filme: de suas obsessões, medos, desejos ou literalmente estão em algum tipo de prisão física. Duas meninas somem sem deixar vestígios e os pais suspeitam de um garoto da vizinhança. Desesperados e sem pistas efetivas, agarram-se em algumas probabilidades para que justifiquem levar o garoto e trancafiá-lo em uma casa para torturá-lo até que revele o paradeiro delas. O filme fala da falta da fé, do desespero de pessoas comuns que se vêem em uma situação que as fazem cruzar uma tênue linha entre o certo e o errado. Diante de várias reviravoltas (algumas um pouco inverossímeis), Villeneuve vai construindo um filme asfixiante, de cores monocromáticas, nos envolvendo em uma intrincada teia na qual nada é o que parece ser. Talvez essa aposta por grandes reviravoltas amenize um pouco o potencial dramático do filme, ao deixar em segundo plano o lado psicológico das personagens, principalmente por trabalhar com um elenco excelente (Hugh Jackman, Jake Gyllenhaal, Paul Dano, Viola Davis, Terrence Howard, Maria Bello, Melissa Leo). Ainda assim, é um filme exasperante que coloca pessoas comuns frente a uma situação terrível, transformando-as e levando-as para um caminho aparentemente sem volta.

16 – “Ferrugem e Osso” (França/Bélgica, 2012), direção Jacques Audiard

 

Filme francês do mesmo diretor de “O Profeta”, Jacques Audiard. Homem (Matthias Schoenaerts), que vive de empregos esporádicos e cuida do filho pequeno, conhece casualmente uma treinadora de baleias (Marion Cottilard) na boate onde está trabalhando como segurança. Ela sofre um grave acidente, fazendo com que o acaso coloque essas duas pessoas, a princípio, completamente diferentes, uma ao lado da outra. Sem ser piegas, o filme acompanha a jornada desses dois protagonistas e a busca de cada um deles por dignidade, amor e autoestima. São personagens que sofrem sem nunca reclamar, carregam marcas no corpo, mas nunca se deixam abater pelos percalços de uma existência sôfrega. Poderia ser um dos filmes mais melodramático e “sentimentalóide” do ano, mas Audiard evita qualquer armadilha que possa incorrer nessas facilidades narrativas. Seu filme é de uma tristeza exasperante, sem que seus protagonistas chorem ou lamentem-se, construindo momentos de quase poesia na maneira que essas duas pessoas se entregam um ao outro, independentemente de todas as dores e problemas pelos quais estão passando. Entrega essa também vista no casal de protagonistas, na fragilidade de Marion em contraponto com a brutalidade de Matthias, ambos a procura de uma saída para a situação em que se encontram.

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