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Consoantes Reticentes…
Os melhores filmes nacionais de 2013
por Marcelo Sguassábia
Publicado em 26 de dezembro de 2013

1. “Tatuagem” (2013), direção Hilton Lacerda

Para o filosofo francês Jean-Paul Sartre o homem é condenado a ser livre, portanto responsável pela ação e pela omissão, a escolha e a não escolha são atos desencadeados por nós. “Nenhum estado de fato, qualquer que seja a estrutura (política ou econômica da sociedade, “estado” psicológico, etc.,) é capaz de motivar por si qualquer ato” (“O ser e o Nada”, p. 539), ou seja, você não se isenta da responsabilidade só porque escolheu não escolher. São dessas escolhas ou não escolhas que traçamos em nossa vida que fala o filme “Tatuagem” (2013), que se configura como uma ode a liberdade, elevada a sua potência máxima, subvertendo os padrões de uma “moralidade” incipiente e anódina.

Temos em “Tatuagem” duas histórias que acontecem paralelamente para que, em determinado momento, se encontrem e tornem-se apenas uma. Clésio (um extraordinário Irandhir Santos, mostrando mais uma vez que é um dos melhores atores da atualidade no cinema brasileiro), junto com o amigo Paulete (o excelente Rodrigo Garcia), são os astros da companhia artística/ teatral/musical Chão de Estrelas, responsável por espetáculos iconoclastas, carregados de rebeldia e inconformismo. Fininha (a grande revelação, Jesuita Barbosa), é um cadete do exército, alguém que está dentro da “normalidade” vigente, cumpridor de seus deveres, fato relevante dentro da narrativa do filme que se passa em 1978, em plena ditadura militar. São dois mundos tão díspares, mas que acabam por colidir-se.

Logo na primeira cena do filme percebemos que existe algo errado nesse universo tão controlado no qual vive o cadete Fininha: sentado em sua cama, é enquadrado de uma maneira que as barras dos beliches pareçam barras de uma cela de prisão que o encarcera. Esse é o mote principal de “Tatuagem”: a busca/ânsia pela liberdade. Mas não uma liberdade específica, mas, sim, toda e qualquer forma de ser livre, liberdade essa que Sartre define como uma negação ao determinismo, ou seja, somos o que queremos e escolhemos ser e sempre podemos mudar o que somos, não sendo Deus, nem a natureza ou tampouco a sociedade que nos define. Os valores morais não são limites para a liberdade. Os personagens em “Tatuagem” são livres para ser o que quiserem, mas precisam arcar com o preço dessas escolhas, principalmente Fininha, que se desdobra em dois mundos completamente opostos: o quartel e o palco do Chão de Estrelas.

Os espetáculos do Chão de Estrelas são um caso à parte dentro do filme: misto de um universo meio “felliniano”, com influências do grupo Dzi Croquetes, passando pelo tropicalismo, com muito gliter e purpurina, é o lugar por excelência da subversão e da quebra dos paradigmas sociais, mas o diretor deixa-se seduzir demais por suas criações e acaba estendendo a duração dessas apresentações, perdendo um pouco o ritmo da narrativa.

“Tatuagem” é a estreia na direção do pernambucano Hilton Lacerda, até então conhecido pelos roteiros de “Amarelo Manga”, “A Febre do Rato”, “Baile Perfumado”, “Árido Movie”, entre outros, e vemos aqui uma obra sem concessões ou soluções fáceis, optando por um mergulho nos anos 70, sem perder a relevância com o hoje. Talvez seja esse o grande mérito de “Tatuagem”, trazer esse discurso da liberdade, seja ela coletiva ou individual, aos dias atuais, de grande valia em uma época na qual assistimos passivamente o apogeu da caretice, do conservadorismo e do politicamente correto.

2. “Mataram meu Irmão”, direção de Cristiano Burlan 

Documentário que nos entrega uma profunda imersão na perda de um ente querido e na violência que assola o Brasil. Um retrato humano e fraterno que resgata um personagem (Rafael, irmão de Cristiano) de tornar-se apenas mais um número nas estatísticas policiais. Cristiano sai à procura de parentes e amigos para traçar um perfil de Rafael, assassinado em 2001, devido ao envolvimento com drogas, para eximir-se da culpa de que poderia ter salvado o irmão desse final tão trágico: morto aos 22 anos e jogado em uma vala como indigente. Cristiano não tenta transformar seu irmão em uma grande vítima do “sistema”, sabe dos erros cometidos por Rafael e o caminho pelo qual ele seguiu. É nessa contundência de um relato íntimo e pontual que Cristiano consegue lançar um olhar humano sobre a periferia e a violência que destrói tantas vidas, mostrando o que é viver e morrer em bairros esquecidos às margens das grandes metrópoles. Impossível não se emocionar com os depoimentos e com o envolvimento que o diretor se debruçou nessa jornada.

3. “O Som ao Redor” (2012), direção Kleber Mendonça

O “Som ao Redor” é um filme complexo e completo, repleto de metáforas, com uma história aparentemente simples, mas que por debaixo existe muitas camadas a serem exploradas. A mais óbvia de todas é a relação de um “dono” de uma rua, que remete aos antigos senhores de engenho e sua relação com os seus familiares e as pessoas que o rodeia. Mas “O Som” não é só isso, é muito mais. O filme fala da apatia de uma sociedade que não mais se reconhece como pertencente a algo, na qual o egoísmo, a lei do mais forte, impera. Em uma cena emblemática, na qual há uma reunião de condomínio para que seja decidido a permanência no emprego do porteiro, o que se vê é um microcosmo da mesquinharia humana, a qual receber a revista Veja embalada no plástico é mais importante do que a vida de uma pessoa. Seria cômico, se não fosse patético, e extremamente trágico. O filme é vivo, orgânico, os sons que atravessam sua narrativa nos incomodam, nos impele a refletir sobre os sons que estão ao nosso redor, sejam eles internos ou externos. Há tempos um filme brasileiro não perturbava tanto assim, no bom sentido.


4.”O Abismo Prateado” (2011), direção de Karim Ainouz


Dirigido por Karim Ainouz, dos excelentes “Madame Satã” e “O Céu de Suely”, “Abismo” é uma obra quase minimalista, que abusa dos sons que nos cercam para contar a história de uma mulher abandonada pelo marido. Ela (a extraordinária Alessandra Negrini), após ouvir uma mensagem de despedida no celular, mergulha dentro de sua dor, tentando entender o porquê dessa separação em sua jornada até o aeroporto. Tudo se passa em uma noite, na qual ela decide se irá ou não atrás do ex-marido em Porto Alegre. A câmera colada ao corpo da atriz principal nos faz compartilhar das angústias pelas quais essa personagem está sujeita. É um cinema de sensações e sentimentos, ora duro e cruel, mas ainda esperançoso, assim como a música “Olhos nos olhos”, de Chico Buarque, no qual o filme é baseado. Pode não ser a melhor obra de Ainouz, mas ainda assim é muito coerente com os caminhos percorridos por sua filmografia.


5.”Faroeste Caboclo” (2013), direção René Sampaio

A tão aguardada adaptação de uma das mais populares canções da Legião Urbana, que desde o princípio mais parecia um roteiro do que uma letra de música, não decepciona. Dirigido pelo estreante René Sampaio, o filme acompanha toda a saga de João de Santo Cristo criada por Renato Russo, transformando em imagens algumas passagens da música ao mesmo tempo em que omite outras. Com a ajuda de um excelente elenco (Fabrício Boliveira, Ivis Valverde, Felipe Abib, Antonio Calloni), “Faroeste” tem uma vitalidade, força e juventude que pouco se vê no cinema brasileiro comercial. A história, todos já conhecemos, pois é impossível nunca terem ouvido a música e, mesmo que alguém diga que é um filme que já se sabe o final, “Faroeste” vale pela maneira que a narrativa é conduzida até o tão famigerado desfecho. O único senão é que o filme é subserviente demais a letra da música e a poética de Renato Russo, não deixando espaço para algumas ousadias formais ou de conteúdo, que poderiam elevar a obra a outro patamar.

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