Cinema Literal
Politicamente correto define Oscar 2019
por João Nunes
Publicado em 25 de fevereiro de 2019

Nunca na história da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas o politicamente correto foi tão definidor na escolha do melhor da indústria do audiovisual de Hollywood. Criticada em 2016 pela ausência de negros entre os indicados, neste ano foi como se direção da academia tivesse enviado memorando aos associados com a lista dos “vencedores” devidamente imposta por um mundo pautado pela aborrecida e hipócrita correção política.

Antes, um adendo importantíssimo: não confundir “aborrecida e hipócrita correção política” com preconceito. Oscar, supõe-se, é uma competição entre os melhores do cinema, não entre aqueles que “deveriam” ser premiados porque pertencem às minorias oprimidas e periféricas da sociedade – norte-americana ou não.

Fosse assim, seria necessário substituir o adjetivo “melhor” (relativo a merecimento) pelo verbo “dever”. A academia entende que determinado filme é melhor, mas se vê no dever de premiar a produção que tem como foco as minorias – independentemente da qualidade deste.

A isto eu chamo de aborrecido e hipócrita porque a retórica sinaliza uma postura socialmente aceitável enquanto na vida real tudo continuará a ser como sempre foi, ou seja, uma sociedade que segrega quem não pertence às instâncias dominantes.

Os melhores?

Tomo, aqui, as oito principais categorias para avaliar brevemente os erros (e alguns acertos) da edição 2019 do Oscar. O ganhador “Green Book – O Guia” (Peter Farrelly) está longe de ser o produto fílmico mais importante realizado em 2018. Trata-se de uma adocicada relação entre um negro e um imigrante; portanto atende de forma perfeita aos anseios corretos da academia. Nem Spike Lee gostou.

“Roma”, do mexicano Alfonso Cuarón, é muitas vezes superior e, por merecimento, deveria levar a estatueta. Então, entram os ajustes: Cuarón também é imigrante e, sua protagonista, uma índia. Pronto: ele fica com o prêmio consolação de diretor – e ainda leva o de melhor estrangeiro – e todo mundo sai satisfeito.

O trabalho de Christian Bale, no competente “Vice” (Adam Mckay), está a quilômetros de distância do caricato Rami Malek – imigrante que interpreta um cantor gay na fraca biografia de Freddy Mercury. No cinema (e só no cinema), todo mundo aceita o açucarado gay de “Bohemian Rhapsody” (Bryan Singer).

O roteiro de “Vice” é muito mais elaborado e contundente; porém, como não defende nenhuma causa foi preterido pelo de “Green Book”. Ao menos tivemos alguns acertos. Não por serem negros, mas Mahershala Ali mereceu o prêmio de ator coadjuvante, assim como Spike Lee pelo roteiro adaptado de “Infiltrados”. Não vi “Se a Rua Beale Falasse” (Barry Jenkins), mas ante a concorrência fraca o troféu deve ter ficado em boas mãos.

O grande erro

Nada foi mais equivocado do que ignorar o trabalho de Glenn Close (“A Esposa”, Björn Runge) em favor de Olívia Colman (“A Favorita”, Yorgos Lanthimos), ambas brancas e proveniente de países ricos – portanto, competindo em igualdade de condições.

O pêndulo tencionou para o lado da britânica (exagerada e, em vários momentos, caricata) porque o personagem dela era gay. Podem me contestar, mas esta é a única explicação para Glenn Close ser eliminada nesta edição do Oscar que pode ser a última chance dessa grande atriz (sete vezes indicada) ganhar a merecida estatueta.

Aqui, a academia chegou ao paroxismo: entre o melhor e o dever, apostou na correção em lugar da qualidade e esqueceu a performance essencial de Glenn, que interpreta boa parte do filme em silêncio revelando o amplo repertório de expressões que refletem as intenções do personagem. Uma pena.

De tempos em tempos, os acadêmicos de Hollywood deveriam fazer como a Igreja Católica: pedir perdão e retificar os erros. Neste 2019 perdeu a oportunidade de premiar uma grande atriz. Depois da morte dela, lhe entregarão um Oscar póstumo. Nada mais aborrecido. Mais hipócrita, impossível.

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