Consoantes Reticentes…
Quem ainda tem ouvidos, que ouça
por Marcelo Sguassábia
Publicado em 11 de janeiro de 2012

Ensaio esta reflexão há algum tempo por se tratar de um assunto polêmico e que já deu muito “pano pra manga”, porém amante do tema que sou, não poderia deixar de publicar meu ponto de vista e convidar os leitores a este delicioso exercício de raciocínio. A discussão é sobre o trabalho atual dos grandes compositores brasileiros, os grande nomes da MPB ainda em atividade.

Contrário dos que defendem que a Música Popular Brasileira não produz mais canções belas e marcantes, penso que, na verdade, nós brasileiros é que mudamos nossos hábitos de consumo em relação a esse produto de arte. “Chicólatra” convicto, utilizarei o Chico Buarque para ilustrar minha linha de pensamento. Embora o Chico, quase setentão, com cinquenta anos de carreira e quarenta e poucos discos – fora os livros e outras manifestações –  certamente não tenha mais a mesma disposição e motivação do início de sua carreira (a ditadura serviu pra pelo menos elevar os ânimos e estimular manifestações artísticas antológicas de ordem e efeito), continua sendo o mesmo Chico, genial e titular absoluto do panteão da MPB, com tantos outros. Seu último disco traz pelo menos quatro ou cinco composições que certamente seriam hits nas principais estações de rádio, se estivéssemos nos anos 70 ou 80, basta ouvi-lo com o mesmo desprendimento e interesse que ouvíamos naquela época. Algumas obras precisam ser ouvidas, não apenas escutadas, diferentemente dos chicletes insossos que bombardeiam nossos ouvidos diariamente, seja pelo rádio, pela internet ou televisão.

Mas nosso tempo e disposição para relaxar e ouvir um disco, conferir todas as suas canções e entender a obra do artista também não são mais os mesmos. Primeiro porque não precisamos mais comprar o disco, basta baixar na internet, em fragmentos, incompleto, sem romantismo; segundo porque a mídia não tem mais espaço para as novas composições, mantém o alicerce nos consagrados clássicos do passado e se preocupa mesmo em comercializar espaços para novos e questionáveis artistas que atingem de forma mais fácil e descartável a grande massa, salvo raríssimas exceções. Outro fator que prejudica é a falta de espaços musicais alternativos. Há vinte anos os bares com música ao vivo eferveciam e disputavam cada calçada dos bairros boêmios dos grandes centros e, por consequência, seus músicos também se preocupavam mais com a qualidade do repertório diante de um público mais ouvinte, maduro e exigente. Em resumo, o que mudou mesmo na minha opinião foram nossos ouvidos e não os nossos compositores. Eles continuam produzindo mas nós cada dia menos comprando e ouvindo.  É impossível reconhecer o buquê sem saborear o vinho. Não podemos comprar críticas vazias sem a capacidade de analisá-las, entendê-las e questioná-las.   

O tempo, esse personagem tão presente em tantas canções, acabou se tornando o revés da poesia. O tempo mudou, não é mais o mesmo e nós pegamos carona em seu trem veloz, para não perdê-lo no caminho e viramos um consumidor barato, que compra praticidade em vez de qualidade, mesmo sem perceber que isso diminui muito os benefícios que encontramos em cada produto. O que não podemos é culpar o Chico, o Gil, o Milton, o Caetano, o Djavan e outros monstros da nossa música pela diminuição do nosso tamanho cultural. Em dissonância com tudo isso, continuo comprando o disco, devorando seus encartes e ouvindo-o até ter massa crítica para tocá-lo novamente ou não. E para encerrar, empresto um verso belíssimo da música Nina, do último disco do Chico, que não perde para nenhuma outra de seus mais antigos álbuns: “sempre que essa valsa toca, fecho os olhos, bebo alguma vodca e vou”. 

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