Cinema Literal
Série Top 10 – O cinema em dez listas
por João Nunes
Publicado em 11 de fevereiro de 2019

Dez grandes filmes que não ganharam o Oscar*

Cada um tem a própria lista e elas podem ser elogiadas ou execradas. As dez desta série são as minhas. E, aproveitando o clima de Oscar, cuja premiação acontece dia 24 de fevereiro, a primeira contempla os dez grandes filmes que não ganharam o Oscar. Há uma ordem numérica que sugere classificação por importância. Não é exatamente isso. É quase.

10. “Touro Indomável”

De novo, Martin Scorsese merecia o Oscar e foi, solenemente, ignorado. “Touro Indomável” entre fácil na lista dos cinco melhores do diretor – que traz, outra vez, um impecável Robert De Niro e, não por acaso, ganhador, enfim, do Oscar de ator na cerimônia de 1981. De Niro apelou, pois se utilizou de meios que encantam Hollywood e engordou 25 quilos para fazer o pugilista aposentando que volta aos ringues. A Academia adorou porque transformações físicas no cinema fazem todo sentido. O vencedor foi um drama familiar: “Gente como a Gente”, de Robert Redford.

9. “Psicose”

O longa de Alfred Hitchcock nunca figurou no topo de nenhuma lista dos melhores – mas está pouco abaixo por ser uma das mais emblemáticas produções da história. E tem uma das cenas mais vistas, repetidas, copiadas e citadas dessa história. Sem falar da trilha de Bernard Hermann (nem foi indicada) e nas performances inesquecíveis de Janet Leigh e Anthony Perkins e o memorável Norman Bale. Apesar disso, das quatro indicações no Oscar de 1961 não havia nenhuma para o filme. Nem para o diretor, que, afinal, nunca ganhou a estatueta. Venceu “Se meu apartamento Falasse”.

8. “Taxi Driver”

“Rock – O Lutador” é um filme simpático e delicioso de ver na Sessão da Tarde, mas não para ganhar disputa com “Taxi Driver”. Pois no Oscar de 1977 ele concorreu em quatro categorias e não levou nada. Martin Scorsese, pela birra que a Academia tinha com ele, era até esperado, mas e Robert De Niro, certamente, a melhor interpretação da carreira dele? John G. Avildsen, o diretor de “Rock” não tem nada com isso e ganhou o prêmio de direção. E vamos convir: Jodie Foster merecia ganhar como coadjuvante. Aliás, ela faz uma prostituta de doze anos – este filme não seria feito hoje de jeito nenhum.

7. “Laranja Mecânica”

Injustiça contra Stanley Kubrick. Este é um clássico no qual tudo é superlativo: direção, direção de arte, performance de Malcolm McDowell, a música de Beethoven. Alan é um adolescente desajustado que tem uma turma da pesada. Consomem leite com drogas e saem pelas ruas cometendo barbáries. Preso, passa por processo de reabilitação, mas enlouquece quando colocam a “Nona Sinfonia” de Beethoven como trilha do processo. No Oscar de 1972, foi indicado em quatro categorias, incluindo filme e diretor e não levou nada. O vencedor foi “Operação França” e o diretor William Friedkin.

6. “Pulp Fiction”

O filme de Quentin Tarantino fez uma revolução no cinema pela maneira com que o cineasta narrou esta jornada de violência, humor e criatividade. O bailado de John Travolta e Um Thurman virou ícone pop, o roteiro desconstruído e a narrativa fragmentada são copiados até hoje, depois de o filme ser esnobado no Oscar de 1995. Obteve sete indicações, incluindo filme e diretor, e levou uma mísera estatueta de roteiro original – em que, igualmente, pese a importância desse roteiro para os roteiristas nos anos seguintes. Para piorar, Tarantino nunca foi premiado com o Oscar.

5. “Apocalypse Now”

A exemplo de “2001 – Uma Odisseia no Espaço”, o filme de Francis Ford Coppola também é grandioso e exuberante, com locações improváveis e uma interpretação antológica de Marlon Brando, coronel que enlouquece na Guerra do Vietnã. Insatisfeito com as atrocidades cometidas por ele, a inteligência militar encarrega o capitão Willard (Martin Sheen) de matá-lo. O filme ganhou Palma de Ouro em Cannes, mas no Oscar de 1980 ficou só com fotografia e som. O vencedor foi outro drama familiar “Kramer versus Kramer”. Deveria existir uma instância de reparação de erros do Oscar.

4. “Os Bons Companheiros”

Com este filme, Martin Scorsese estaria acumulando o terceiro Oscar, pois é tido como um dos melhores de todos os tempos. Fernando Meirelles nunca escondeu que o longa lhe serviu de inspiração para “Cidade de Deus” (2002). Mas a Academia o ignorou. Das seis indicações em 1991, levou o de ator coadjuvante (Joe Pesci). Ganhou o improvável “Dança com Lobos” (e o diretor Kevin Costner). Porque a Academia foi tão refratária a Scorsese e deixou passar a terceira chance de premiá-lo? Quando ganhou, com o inferior aos três anteriores (“Os Infiltrados”, 2007), pareceu prêmio de consolação.

3. “2001 – Uma Odisseia no Espaço”

O clássico de Stanley Kubrick (1968) está entre os tops na lista dos melhores e tido como experiência cinematográfica única. Da trilha e fotografia às sensações advindas dos diálogos mínimos, das imagens e da sonoridade, tudo é grandioso – e nem foi indicada para melhor filme. Das quatro indicações (diretor, roteiro original, direção de arte e efeitos) ganhou a de efeitos (estatueta que eu vi ao vivo e em cores). A trilha traz Richard Strauss (1864-1949) e a memorável “Assim Falava Zaratustra”, versão do brasileiro Eumir Deodato. O vencedor foi o inglês “Oliver” (Carol Reed).

2. “Um Corpo que Cai”

Saiu “Cidadão Kane” do primeiro lugar na lista dos 100 melhores de todos os tempos da revista Sight and Sound, do Instituto de Cinema Britânico, e entrou “Um Corpo que Cai” (Alfred Hitchcock). No Oscar de 1959 nem sequer foi indicado – tampouco o diretor – na categoria principal. Levou a estatueta de som e direção de arte. O filme, que conta a história do policial aposentado com medo de altura, também revolucionou o cinema e serve de referência técnica e conceitual. A má recepção da crítica no lançamento (1958) deve ter influenciado a academia. Pior para a academia.

1. “Cidadão Kane”

Até há pouco tempo, o filme de Orson Welles (1941) figurava no topo de qualquer lista dos melhores da história. Em 2012, perdeu o posto, mas não a aura nem a importância. Afora as qualidades intrínsecas desta obra-prima, ele foi revolucionário, pois inovou em diversas técnicas, hoje, fartamente copiadas, tais como narrativa em flashback, posição da câmera que empresta imponência à residência do protagonista, e a montagem e edição de som, entre outras. Indicado em nove categorias no Oscar de 1942, levou a de roteiro original. Ganhou o irregular “Como Era Verde meu Vale” (John Ford)

* Bônus: “Assim Caminha a Humanidade” (um dos três filmes do mito James Dean, dirigido por George Stevens) perdeu em 1956 para “A Volta ao Mundo em 80 Dias”, de Frank Coraci.

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