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Cinema Literal
Série Top Dez – O Cinema em dez listas – 10 cenas (afetivas) inesquecíveis no cinema
por João Nunes
Publicado em 17 de abril de 2019
  1. “Tubarão”

No barco, estão o prefeito bom-caráter e inseguro, o biólogo oscilante e ingênuo e o experiente, forte e seguro matador de tubarões. Este, antecipando a chegada do vingativo tubarão que acabou com preciosas vidas da cidade turística, conta, cheio de empáfia, aventuras nas quais estraçalhou monstros do mar. Quando termina a narrativa, amassa a lata de cerveja na mão. O biólogo repete o gesto, mas se constrange porque está tomando uma lata de coca. Os heróis da jornada serão o prefeito e biólogo, recado bem-humorado do diretor Steven Spielberg de conforto aos fracos e oprimidos.

  1. “Teorema”

O protagonista Terence Stamp não tem nome, mas poderia se chamar Gabriel, pois o mensageiro da carta que anuncia a chegada dele entra na mansão de rica família italiana flanado igual a um anjo. Exterminador, neste caso, pois o visitante irá seduzir toda a família, incluindo a empregada. A presença de “Gabriel” em forma de símbolo angelical desmonta a família constituída. O comunista diretor italiano, Pasolini, usa sedução e sexo como metáfora de crítica ao capitalismo. E o “anjo” impera desde a chegada da carta que diz “chego amanhã” até o anúncio da partida: “vou embora amanhã”.

  1. “Laranja Mecânica”

Allan é um delinquente juvenil da pior espécie, capaz de estuprar sem piedade uma mulher na frente do marido amordaçado cantando “Singin’in the Rain”. Condenado a passar por reaprendizado, ele aceita tudo, menos associar mal-estar físico e psicológico ao ouvir a “Nona Sinfonia” de Beethoven. Ele aceitava tudo para abandonar práticas abomináveis, mas não a esse custo. Nesse instante, o anti-herói do filme de Stanley Kubrick se humaniza. Somos capazes de qualquer maldade inerente à nossa natureza e temos humanidade suficiente para nos sensibilizar diante da obra de arte.

  1. “2001 – Uma Odisseia no Espaço”

Eu voltava de Nova York sob a tensão de áreas de instabilidade que faziam o avião balançar intermitentemente. Incapaz de controlar a ansiedade, decidi ver um filme e achei “2001”. Se morresse, seria como o astronauta solto no espaço depois de Hall impedir a cápsula de retornar à nave mãe. E o meu corpo voaria pelo espaço feito astronauta em dia de graça e pesquisaria luas e martes, estrelas e sóis. E meu espírito se alegraria ao se desprender do corpo – como o corpo da cápsula – a fim de iniciar o voo eterno, ouvindo “Assim Falava Zaratrusta”, de Strauss, relida lindamente por Eumir Deodato.

  1. “À Procura de Amy”

O melhor amigo de Holden (Ben Afleck) curte paixão secreta por ele. Este nem percebe porque se entusiasma por uma garota que só tem olhos para outras garotas. No auge da crise do protagonista, ele se abre com Alyssa. A cena, escrita pelo diretor Kevin Smith, se dá no carro de Holden numa noite chuvosa, na qual o personagem faz uma declaração que, se não entrou para a galeria do cinema como das mais bonitas e sensíveis, deveria. Ele fala três minutos e, quando termina, irritada, ela sai o carro. A cena se fecha com frase espirituosa dele, mas de gosto amargo: “Foi alguma coisa que eu falei”?

  1. “Deus e o Diabo na Terra do Sol”

Rosa se despede de Corisco com longo beijo ao som das “Bachianas” de Villa-Lobos, o compositor que melhor soube captar o espírito brasileiro unindo erudito e popular – aqui, em uma atmosfera operística; a voz da soprano cantando uma das melodias mais lindas do cenário clássico. Rosa deixa Corisco e decide acompanhar Manoel; juntos vão correr na direção do mar. Glauber Rocha impõe ritmo frenético à cena suscitando a esperança nascida da exuberância da água do mar símbolo de salvação do povo e das terras pobres e secas do sertão. Em filme árido, cena final de beleza ímpar.

  1. “Os Incompreendidos”

François Truffaut também termina seu filme levando o jovem herói Anton para o mar. Como filmou em 1959, cinco anos antes de “Deus e o Diabo…”, é possível imaginar que Glauber Rocha tenha se inspirado em “Os Incompreendidos”. Anton se sente rejeitado pelos pais e acaba em um reformatório, de onde consegue fugir após várias tentativas. A cena final é o garoto se encontrando com o mar, símbolo de saídas, o mar como início de uma nova vida, “um porto abrigo a muitos rios”, segundo a música de Sílvio César. Será diante dos mistérios do mar que Anton sonha recomeçar a viver.

  1. “Antes do pôr-do-sol”

Jesse está prestes a embarcar para Nova York – o avião parte em poucas horas. Antes de partir, Celine o convida para um chá na casa dela. Eles estão se vendo pela segunda vez e buscam explicações para frustrado encontro marcado anos antes e tentam entender a razão de não terem ficados juntos. Celine imita Nina Simone, dançando sensualmente diante de um encantado Jesse. Logo, canta acompanhada do próprio violão uma música feita para ele. “Você foi meu por um noite/e se foi para bem longe”.  Seduzido e feliz pela sedução, Jesse está prestes a perder o avião para NY.

  1. “Acossado”

Ritmo acelerado, câmera na mão, edição ágil, diálogos descontraídos, citações sem nenhuma formalidade, anti-herói magnificamente vivido pelo feio-bonito Jean-Paul Belmondo. Tudo era novo e revolucionário no filme de Jean-Luc Godard. Mas nada pareceu mais encantador que a sequência (logo no início) em que Michael rouba um carro e sai pelas estradas dirigindo em alta velocidade como se desafiasse a tudo e a todos em um movimento de liberdade plena. Os cortes rápidos da edição e os monólogos certeiros do personagem dão o tom de leveza à cena de um filme inovador e moderno.

  1. “Razão e Sensibilidade”

Elinor e Marianne (belo trabalho de Emma Thompson e Kate Winslet) perderam os sujeitos por quem estavam apaixonadas. Marianne decide morrer, enquanto a irmã lhe implora para desistir da ideia absurda. Afinal, ambas estão sós e, se ela sobreviver, farão mútua companhia. O apelo é tão singelo e desolador que fica impossível não se comover. No desfecho do filme dirigido por Ang Lee, a comoção é ainda maior. Edward anuncia que, ao contrário do que Elinor pensava, ele não se casou. Ela explode em choro desconcertante, feito comporta que se rompeu e, em vão, tenta se conter.

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