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Série Top Dez – O Cinema em dez Listas: 10 filmes desta década indicados e esquecidos pelo Oscar
por João Nunes
Publicado em 23 de fevereiro de 2019

Não são filmes excepcionais, definitivos, obras-primas sagradas, mas relevantes do ponto de vista técnico da linguagem e no modo de realizar. São diferentes, pois quem os concebeu enxerga o mundo com outro olhar que não o do óbvio. Todos desta lista foram indicados (e preteridos) ao Oscar de melhor filme. O ano referido aqui é o da cerimônia da premiação.

10. “Manchester à Beira-mar”

Se você não quer chorar, não assista a este filme (foto acima). No entanto, você perderá belo melodrama, história absurda envolvendo a derrocada de uma família por causa de um acidente. É dolorido, é sofrido, mas um grande filme. Carregado de prêmios, obteve seis indicações no Oscar de 2017 (incluindo diretor e filme); levou apenas dois: roteiro do diretor Kenneth Lonergan e ator para Casey Afleck – de fato, grande performance que o elevou a novo patamar. Ele vive atormentado pai tentando esquecer uma tragédia familiar, enquanto um deslocado sobrinho tenta se aproximar dele.

9. “Inverno da Alma”

Em 2011, “Inverno da Alma” (Debra Granik) conquistou quatro indicações para o Oscar e saiu de mãos vazias. Contudo, o mundo inteiro descobriu uma talentosa atriz. Jennifer Lawrence (uma das indicadas) está excepcional no papel de uma garota obrigada a crescer da noite para o dia a fim de cuidar dos irmãos ainda crianças e resolver uma pendenga familiar: encontrar o pai se não quiser perder a casa onde ela mora. Tudo isso se passa num lugar ermo, longe de tudo, feio e gelado. E Jennifer está espetacular – nada muito a ver com alguns dos filmes que fez posteriormente.

8. “O Jogo da Imitação”

O que se destaca de início em “O Jogo da Imitação” (Morten Tyldum, 2014) são os brilhantes diálogos de Graham Moore e a habilidade com a qual ele confecciona o roteiro. Diálogos bons são preciosa raridade. Além de irônicos e cheios de graça, eles têm consistência na construção lógica – e faz todo o sentido, pois o protagonista é o matemático Alan Turing (Benedict Cumberbatch), que poderia ser um chato, mas é adorável na maneira como argumenta e defende os pontos de vista. Obteve oito indicações ao Oscar e levou de roteiro adaptado. Muito pouco para o potencial que o filme possui.

7. Django Livre

A academia ignorou “Django  Livre” (Quentin Tarantino, 2013). Pior para o Oscar, pois o filme tem tamanha exuberância narrativa que somos arrebatados por ela. Não apenas pela belíssima fotografia de Robert Richardson (de que a Academia se lembrou), mas por um roteiro não menos que espetacular, que usa clichês do gênero western spaguetti a seu favor e faz o espectador mergulhar em história ensandecida – porque violenta (estamos no Velho Oeste, criação da própria indústria do cinema) – e eletrizante. Na mesma linha de “Bastardos Inglórios”, o diretor se vinga dos brancos.

6. “Boyhood – da Infância à Juventude”

Só pela concepção, “Boyhood – da Infância à Juventude” (Richard Linklater, 2014) deveria ganhar o Oscar (das seis indicações, levou de atriz, Patrícia Arquette). Trata-se de experiência extraordinária. Filmado entre 2002 e 2013, acompanha a vida de um garoto dos seis aos dezoito anos, mas não se trata da história de Ellar Coltrane, mas do ficcional Mason. Entretanto, o filme possui tamanha força que merece elogios para além do inusitado. Há uma aura que emana do ator que o transforma no próprio Mason – para o bem e para o mal e torna tênue o limite entre ficção e documento.

5. “O Quarto de Jack”

“O Quarto de Jack” (Lenny Abrahamson, 2017) começa como fábula: menino de cinco anos não conhece o mundo, pois está preso em um quarto desde que nasceu. Quando conhecer, terá muito a aprender, pois nunca fez coisas como subir escada, tomar sorvete, jogar bola. O único céu dele é avistado de uma claraboia. Envolvido em uma situação caótica e tentando se desvencilhar de um obstáculo ele se vê de barriga para cima olhando o céu. É um desses instantes mágicos que só o cinema pode proporcionar. Teve quatro indicações incluindo filme e diretor. Ganhou a atriz Brie Larsson.

4. “Nebraska”

Quando viajamos, nos modificamos. Esta é a crença de David (Will Forte) ao carregar o pai Woody (o ótimo Bruce Dern) para viagem inútil de Billings (Montana) a Lincoln, capital do estado do título, em “Nebraska” (Alexander Payne, 2014). Inútil, se pensarmos que o pai crê ter ganhado US$ 1 milhão. O filho sabe que não. Viaja para evitar falação e sair da cidade onde moram e respirar novos ares. E nós embarcamos com prazer nesse road movie para vermos como a vida deles ganhará sentido. Levou Palma de Ouro em Cannes. Oscar? Seis indicações. Nenhuma estatueta.

3. “A Árvore da Vida”

Uma mulher me pergunta na saída do cinema: “você entendeu?”. Não quis entender, não é o que interessa. Se o entendesse, ele ficaria melhor? Meu desejo foi apreciá-lo, abrir o cognitivo, mas estar alerta para as sensações. Mesmo as grandes cenas de digressão e do epílogo (que me incomodam) me fizeram bem, viajei na música, nas imagens, na tentativa de dar significados ou de absorver o que via e sentia. Terrence Malick constrói uma obra não para se entender e, depois, gostar ou não. O cerne de “A Árvore da Vida” (2012) está na atmosfera. Ganhou a Palma de Ouro em Cannes. Oscar? Nenhum.

2. Bastardos Inglórios

“Bastardos Inglórios” (2010) é o melhor filme de Quentin Tarantino, desde “Pulp Fiction” (1994). O primeiro episódio – nazista caça judeu escondido em casa de região rural da França – é antológica. Em grande atuação, Christoph Waltz explora nuances de um texto primoroso e pautado por direção que sabe distribuir as tensões, o humor e a catarse. Tarantino faz o que muita gente tentou e não conseguiu: mata Hitler de forma glamourosa, pois o crime se dá (literalmente) no cinema. Tudo é bom no filme, até o esforçado Brad Pitt, que, em meio à guerra, oferece delicioso humor.

1. “Meia-noite em Paris”

Quando terminou a sessão de “Meia-noite em Paris” (2012) eu estava embasbacado: como um cineasta de 77 anos (na época), depois de realizar dezenas de relevantes filmes (na maioria) consegue se renovar e criar obra tão sofisticada do ponto de vista da invenção e de ideias? E, ainda por cima, ser popular – só no Brasil foi visto por 1 milhão de espectadores. Woody Allen supera a si mesmo – em que pese se repetir. São as obsessões dele. O escritor, dizem, escreve o mesmo livro. Allen é exatamente isso: faz o mesmo filme, mas de tanto repetir, emplacou uma obra-prima (mais uma).

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