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Cinema Literal
Série Top Dez – O Cinema em dez Listas: 10 imperdíveis documentários brasileiros dos anos 2000
por João Nunes
Publicado em 11 de março de 2019
  1. “Lixo Extraordinário”

Quando foi indicado ao Oscar, em 2011, a assinatura da direção traz o nome da britânica Lucy Walker, mas há dois outros, os brasileiros João Jardim e Karen Harley. O artista tema do filme (Vik Muniz) também é brasileiro, assim como o cenário (aterro sanitário Jardim Gramaxo, em Duque de Caxias, interior fluminense) e os protagonistas (trabalhadores do aterro). Entre estes, Sebastião dos Santos, líder do aterro. Premiado no Festival de Paulínia, ele se emocionou muito. Quando o entrevistei ele me disse: “Vocês estão me fazendo chorar desde o dia em que cheguei aqui”.

  1. “Ônibus 174”

Este documentário de 2002 lançou José Padilha, consagrado anos depois por “Tropa de Elite”. Com cenas utilizadas da TV, que transmitiu ao vivo durante quatro horas esta tragédia brasileira ocorrida no Rio. Sandro Barbosa do Nascimento, ex-menino de rua, sequestra o ônibus cujo número dá título ao documentário e apavora os usuários – termina com a morte de uma jovem. O filme mostra a crueza das imagens ao vivo e entrevista envolvidos e especialistas. É um retrato da violência, miséria e abismo social deste país que, parece, nunca se cansar de navegar em turbulentas águas.

  1. “Estamira”

Curiosamente, este documentário de Marcos Prado traça um perfil da mulher do título que, aos 63 anos, com problemas mentais, era catadora de lixo do mesmo Jardim Gramaxo de “Lixo Extraordinário”. O filme acompanha o trabalho e os passos dela por vários dias, enquanto a ouvimos proferir frases de uma rica sabedoria, tais como: “existe a lucidez e a ilucidez. A gente aprende alguma coisa de tanto lucidar”. Ou: “Eu não sou como vocês que são apenas robôs sanguíneos”. Ou ainda: “Neste mundo de maldades não tem mais inocente. O que tem, isto sim, por todo lado, é esperto ao contrário.”

  1. “Branco Sai, Preto Fica”

O cineasta Adirley Queirós, morador de Ceilândia, uma das cidades satélites de Brasília piores atendidas socialmente usa no título uma frase dita por um policial durante uma batida numa balada acentuando, assim, o preconceito contra os negros. O filme de 2014 se utiliza da junção entre a ficção e o documentário, uma diferenciação que nem mais existe (hoje é filme simplesmente). Seja como for, temos a realidade e até a ficção científica neste trabalho que une criatividade e uma acurada visão política de um tema que nós brasileiros fingimos insistentemente que não existe.

  1. “Notícias de uma Guerra Particular”

O final deste documentário de João Moreira Salles e Katia Lund (1999) é aterrador. Na tela, sobre os túmulos, surgem as lápides de vítimas do tráfico – são incontáveis, como se dissesse “até quando?”. O binômio drogas/tráfico que se complementa no consumidor e gera disputas de gangues e violência e morte é mais um retrato deste país profundamente injusto que, um dia, foi chamado de cordial, alegre e futuro da humanidade. Ao assassinarmos 60 mil pessoas por ano, ofendemos a cordialidade, a alegria e a esperança de futuro minimamente seguro para as futuras gerações.

  1. “Mataram meu Irmão”

Uma cena na praia provoca sensação de bem-estar na abertura de “Mataram meu Irmão”, de Cristiano Burlan (2013). Mas não se engane. Não existe redenção no filme. A imagem é uma das poucas (como a da pipa e a do pássaro pousado numa cruz de cemitério) em que o diretor promove alívio ao espectador. Sem elas, o documentário é um painel desolador de um país distante da falsa euforia provocada porque éramos a sétima economia do mundo e onde não existia miséria nem violência. Parecia Primeiro Mundo, sede da Copa do Mundo e das Olimpíadas. Mas a realidade era outra.

  1. “Edifício Master”

Eduardo Coutinho mostra sua capacidade de sensibilizar o espectador com histórias simples e impressionantes de moradores do prédio referido no título em Copacabana, bairro do Rio, neste documentário de 2002. E esboça a tese de que modificamos nosso comportamento diante da câmera. Avesso à construção fílmica que prevê catarse ao final, o momento catártico está propositalmente perdido no meio da narrativa. Trata-se de um fã de Frank Sinatra que cantou “My Way” com o próprio ídolo e repete a dose para o espectador. Este é apenas um episódio de um filme espetacular.

  1. “Serras da Desordem”

Um dos mais importantes cineastas do Brasil, o italiano radicado em São Paulo, Andrea Tonacci, morto em 2016 aos 72 anos, resgata a história de Carapirú é um índio nômade que escapa de um ataque surpresa de fazendeiros invasores da terra indígena. Durante dez anos, ele anda sozinho pelas serras do Brasil central, até ser capturado em novembro de 1988, a dois mil quilômetros de seu ponto de partida. O filme encena essa história com o próprio Carapirú e reconta o trajeto deste índio e a tragédia que envolveu ele e comunidade dele em um filme que também mistura ficção e realidade.

  1. “Santiago”

Em 1992, aos 30 anos, João Moreira Salles gravou depoimentos de Santiago, mordomo de uma vida inteira na casa do banqueiro Walter Moreira Salles, no Rio. Treze anos depois, mais sábio e magnânimo, ele retoma o filme e o refaz se colocando como crítico do próprio trabalho. Então, temos a dimensão humana do diretor e de seu entrevistado – relação que é retrato de um país rico e pobre. Santiago continua mordomo no filme, mas João se transforma com ele. Em sequência mágica, o mordomo narra que colocava smoking para tocar Beethoven no meio da noite, em respeito ao compositor.

  1. “Jogo de Cena”

Vi este filme no encerramento do Festival de Gramado em 2007. Quando terminou a sessão, estávamos embasbacados. Sem dúvida, diante daquela plateia acabava de ser exibido uma obra-prima. E revolucionária. Eduardo Coutinho comprovava o quanto uma câmera ligada questiona a autenticidade de um depoimento. Para isso, convoca três atrizes famosas e três desconhecidas para interpretarem histórias reais que, por sua vez, são narradas também pelas próprias donas das histórias. Daí o título de um filme inesquecível.

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