Cinema Literal
Série Top Dez – O Cinema em dez Listas: primeiros filmes de 10 grandes cineastas
por João Nunes
Publicado em 28 de fevereiro de 2019

10. “Pepi, Luci, Bom e outras garotas de Montão”

Este primeiro filme de Pedro Almodóvar (1980) está longe de ser um primor, mas impressiona como tudo o que virá (ou quase tudo) depois na carreira do diretor espanhol está ali: as cores, o humor, o inusitado, o desbocado sem ser vulgar e o estilo meio cafona e exagerado e, ao mesmo tempo, terno, amoroso e cúmplice de modo que nos identificamos com os personagens. Basta ler a sinopse para se reconhecer Almodóvar: em um conjunto habitacional, Pepi (Carmen Maura, uma das musas do cineasta) é estuprada por um policial que descobre maconha na casa dela.

9 .”Gosto de Sangue”

Os Irmãos Joel e Ethan Cohen surgiram no cenário cinematográfico com “Gosto de Sangue” (1984) e revelou desde o primeiro momento a que vieram. Premiado, o filme foi o cartão de visitas da dupla, que se tornou famosa e acumulou produções de destaque adoradas pela crítica e pelos júris de diversos festivais. Filmado no Texas, o filme (como sugere o título) se encaminha para um suspense:  dono de um bar contrata detetive com o objetivo de matar a mulher e o amante dela. Como ocorre com outras produções, a longa antecipa o que veremos em seguida na carreira da dupla.

8. “Cabra Marcado pra Morrer”

Vão me execrar por considerar este o primeiro longa do grande Eduardo Coutinho. Ele coordenava projetos documentais para a TV quando decidiu filmar “Cabra Marcado…”, em 1962. Possuía grande material filmado quando veio a ditadura (1964) e parou tudo. Em 1984 ele retoma o projeto com outro olhar e resolve recontar aquela história 22 anos depois para saber o que aconteceu com os personagens – e os dois filmes se casam. Sim, o produto final acontece na maturidade de Coutinho, mas a primeira incursão do diretor no documentário, para mim, foi a primeira experiência dele no cinema.

7. “O Ascensor do Cadafalso”

Com um título pouco óbvio (enigmático na verdade), o francês Louis Malle lançou o primeiro longa de ficção em 1957 (bom lembrar que o primeiro filme de fato foi o documentário “Le monde de Silence” no ano anterior e com o qual ganhou o Oscar). Malle viria a se transformar em um dos mais relevantes cineastas do emblemático movimento francês Nouvelle Vague – que influenciou várias gerações. Uma mulher manda matar o marido e contrata um ex-policial, mas as coisas não dão muito certo e ele fica preso no elevador. É o primeiro, mas entra na lista dos melhores do diretor.

6. “Rio, 40 Graus”

O primeiro filme de Nelson Pereira Santos (1955), veja só, fez história. “Rio, 40 Graus” é só o marco inspirador inicial do mais importante movimento cinematográfico do Brasil, o Cinema Novo. Com uma linguagem que mistura ficção e documentário, ele mostra um dia na vida de garotos das favelas vendedores de amendoim em pontos turísticos de um Rio antigo e ingênuo – um tempo sem violência e miséria, de policiais gentis, de pessoas amáveis. O filme entrou na lista dos 100 melhores brasileiros no livro lançado em 2015 pela Associação Brasileira de Críticos de Cinema.

5. “Os Boas Vidas”

O primeiro filme de Federico Fellini (1953) é relato autobiográfico. O protagonista (e quatro amigos) passa os dias bebendo, procurando sexo, vagando pela madrugada vazia de uma pequena cidade do litoral italiano. Mas ele sabe que tudo aquilo vai acabar, pois está prestes a partir. A cena final é antológica (o trem cruzando a cidade e ele vendo as pessoas que ama, ainda dormindo, pois é madrugada), como se dissesse: “eu estou indo embora; vocês que fiquem aí dormindo”. Do primeiro longa para a grande obra do cineasta fica a marca de memorialista que se vê em “Os Boas Vidas”.

4. “Encurralado”

É possível ver claros sinais do futuro Steven Spielberg neste que é o terceiro longa-metragem do diretor. Uma jamanta cai na ribanceira da estrada e ele acompanha o desfecho com os estragos todos. Quando tudo se consuma, vem o silêncio. Parece não haver mais nada na cena; então, ele rompe o silêncio ao deixar cair uma calota de um dos pneus. E há uma grande surpresa: estamos diante de um filme de suspense e Spielberg consegue provocar arrepios: a tal jamanta que caiu na ribanceira, começa a perseguir um caminhão sem que se saiba o motivo. É inquietante e tenso.

3. “Cães de Aluguel”

Há dois tipos de espectadores quando se fala no primeiro longa de Quentin Tarantino (1992): os que não se surpreendem com “Pulp Fiction”, lançado em 1994, porque já conheciam o potencial do diretor e os que tiveram contato com o segundo e quiseram saber o ano de lançamento e encontrar o primeiro porque percebem que estavam diante do novo. Com “Cães de Aluguel”, Tarantino esteve na 16ª edição da Mostra Internacional de São Paulo e passou batido, pois ainda era desconhecido. Tudo o que se veria depois está ali: violência, humor, desconcerto, diálogos maneiros etc.

2. “Amores Brutos”

Depois deste primeiro longa, Alejandro Iñárritu Gonzales (2000) ganhou prestígio nos EUA, foi contemplado com o Oscar, teve dinheiro para filmar com grandes nomes de Hollywood (Brad Pitt, DiCaprio, entre outros), mas o impacto de “Amores Perros” nunca se apagou. Cada história tem a própria força, do menino interessado em briga de cachorros à atriz com problemas físicos, passando pelo homem solitário, tudo parece meio irreal, mas é profundamente verdadeiro. O filme lançou Gabriel García Bernal para o mundo – a cena do encontro dos personagens em um acidente é espetacular.

1.”E sua Mãe Também”

Este também não é o primeiro filme do mexicano Alfonso Cuarón (2001), mas o terceiro. Contudo, foi por meio dele que o diretor se tornou conhecido fora das fronteiras do México. Eu devo ter visto este filme pelo menos umas dez vezes e o pouco que sei de roteiro aprendi destrinchando-o. Tudo funciona. A narrativa aparentemente aleatória dos personagens (dois adolescentes viajam para uma praia que eles nem sabem se existe e encontram uma espanhola buscando algo justamente assim, incerto) na verdade guarda uma crítica social, sem discurso, embutida em cada cena.

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