Blog do Vinho
Seu cachorro gosta de vinho?
por Suzamara Santos
Publicado em 4 de setembro de 2017

Rede social é um paraíso para quem vê notícias como forma de entretenimento. São tantas novidades propaladas com pompa e circunstância e tão rumorosas as suas repercussões que muitas vezes é difícil discernir o que é para ser levado a sério e o que é recreação. Outro dia, deparei-me com o Dog’s Wine. Sim, existe vinho para pet. O texto anunciava a chegada do primeiro vinho de fabricação brasileira produzido especialmente para cães.

Assim, o seu amigo de quatro patas estaria com lugar garantido nas comemorações e brindes em família. E se a ideia de oferecer bebida alcoólica para o animal o incomoda, não se preocupe. É vinho de mentirinha. Não tem uva, nem álcool.  O Dog’s Wine é feito de suco de carne com água e corante natural de beterraba. Para ficar mais parecido com o néctar de Baco, foi acrescentada à fórmula aroma artificial de vinho.  

Para quem, como eu, ficou estupefato com o produto, saiba que a invenção veio na esteira do Dog Beer, a primeira cerveja do Brasil para cães. E se você digitar no Google “wine pet” vai descobrir que os gatos também foram contemplados com vinhos especiais. Já para as grandes ocasiões, há ainda a possibilidade de servir champanhe aos parceiros peludos.

O VINHO AZUL

Outra bebida que vai e volta nas redes sociais é o vinho azul – não violáceo como estamos acostumados. Azul mesmo, como licor Curaçao Blue. Batizado de Gik, foi anunciado em 2015, na Espanha. Feito com uvas brancas e tintas, não demorou para se tornar presença frequente em baladas noturnas pela Europa. No Brasil, houve restrição legal à sua comercialização por conter corantes artificiais, o que atrapalhou a sua popularidade.

A cor vibrante (bela, diga-se) é obtida por meio de adição de antocianina e pigmentos a base de corante índigo. É um vinho leve, de teor alcoólico em torno de 11%, e de sabor doce por conta do uso de adoçante na fórmula. Não provei, mas é evidente que se trata de um vinho para jovens e/ou iniciantes. Na minha modesta opinião, isso não tem nada de errado, mas está longe de representar alguma “revolução” importante no mercado de vinhos.  

Até deu nostalgia da garrafa azul, o Liebfraumilch, febre nos anos 80/90 no Brasil, mas hoje defenestrado por dez entre dez entendidos no assunto. De azul mesmo, só a película que revestia o vidro da garrafa. O vinho era branco e doce e se tornou onipresente em qualquer reunião, seja com alguns de gatos pingados seja com a paróquia inteira.

Uma curiosidade, a palavra alemã liebfraumilch tem três traduções conhecidas no Brasil: “leite da mulher amada”, “leite de nossa senhora” e “monge de nossa senhora”. Esta última é a menos citada, porém a mais correta. Entre a garrafa azul e o vinho azul, suspeito que o segundo é o mais confiável.

MELHOR QUE ACADEMIA?

Não é só o mercado que me espanta quando o assunto é vinho. Os benefícios para saúde anunciados como resultados de pesquisas em “renomadas universidades internacionais” também me causam admiração. Especialmente, quando o foco é emagrecimento. Outro dia mesmo li em letras garrafais que quem toma uma taça de vinho antes de dormir tem a cintura mais fina.

Posso garantir que se o estudo estiver correto, o efeito demora muito para aparecer na fita métrica ou não contempla a todos os bebedores. Obviamente, a notícia causou enorme frenesi entre o público feminino. O alarido ficou ainda mais estridente com a afirmação de que uma taça corresponde a uma hora de malhação na academia. Antes de se darem ao trabalho de ler o que dizia de fato o estudo, as mais afoitas já se imaginavam acordando com glúteos durinhos e pernocas esculpidas após uma sequência de vinhos noturnos.  

Essa história partiu de uma pesquisa realizada na Universidade Alberta, do Canadá, que destacava ao propriedades do resveratrol, um poderoso antioxidante encontrado nas cascas e sementes das uvas. Mas a comparação que o estudo tece com a academia fala em batimentos cardíacos, melhora da performance física e controle de colesterol etc. Ou seja, o que sempre soubemos. E vale uma ressalva: para alguns pesquisadores, os benefícios do resveratrol são superestimados, uma vez que aparece em quantidades ínfimas no vinho.

Mas o troféu de notícia mais espalhafatosa vai para o estudo que afirma categoricamente que mulheres que tomam vinho têm mais disposição sexual. A conclusão partiu de um estudo da Universidade de Firenze, na Itália, realizado com 800 mulheres de 18 a 50 anos. As que tomavam vinho com moderação regularmente demonstravam mais libido do que as abstêmias. A notícia ficou semanas fervilhando nas redes e poucos se atentaram às falhas de metodologia apontadas por outros cientistas. Bem, como sou conservadora e tomo vinho apenas porque gosto, vou me abster de mais comentários. Saúde!

 

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