Conversa de cidade
Sobre a prática cotidiana de conservação do patrimônio
por Mirza Pellicciotta
Publicado em 22 de dezembro de 2014

Por: Mirza Pellicciotta e Fabio Di Mauro

Há pouco mais de dois anos, nós tivemos a oportunidade de participar de uma experiência notável: de um curso de “Zeladoria do Patrimônio” idealizado pelo conservador restaurador Antonio Martin Sarasá e oferecido pelo Museu de Arte Sacra de São Paulo no segundo semestre de 2012.

Suas atividades nos motivaram a integrar, em 2013, dois projetos de zeladoria do Estúdio Sarasá: um deles na cidade de Santana do Parnaíba e o outro, na zona rural do município de Pontal, na região de Ribeirão Preto. 

Conhecer o centro histórico de Santana do Parnaíba, interagir com sua Oficina Escola e refletir sobre os procedimentos de zelo patrimonial empregado, nos abriu possibilidades para conhecer com maior profundidade, os processos de constituição dos espaços urbanos e rurais do município. Entre os dias 5 de abril e 28 de junho de 2013, sob a supervisão de Toninho Sarasá e em conjunto com os alunos e gestores da Oficina Escola, nós refletimos sobre o conceito de zeladoria, introduzimos fundamentos de inventariação (acompanhado por workshop no Museu Histórico Municipal), discutimos a história da cidade com a presença de ilustres convidados: do arquiteto Victor Hugo Mori (IPHAN) e do prof. Carlos Lemos (FAU USP); identificamos e estudamos os bens arquitetônicos à luz do inventário do patrimônio da cidade; resgatamos e refletimos sobre as técnicas construtivas tradicionais; introduzimos a análise de danos e patologias, bem como tratamos de questões de intervenção com base nas leis patrimoniais. A experiência, de três meses, foi muito instigante.

Concluída a zeladoria de Santana, passamos para um segundo projeto: para os trabalhos de salvaguarda do centenário Engenho Central Francisco Schmidt, em Pontal. Por seis meses, as ações que realizamos neste conjunto de edificações, nos permitiu compreender que zelar pelos bens patrimoniais móveis e edificados de um bem de valor inestimável; também consistia em dialogar e interagir com repertórios, materiais, técnicas e processo construtivos, e que falar em zeladoria do patrimônio implicava “conhecer para resguardar”, ou ainda, em “resguardar para conhecer e zelar”.

Entre os meses de junho e dezembro de 2013, nós trabalhamos com um grupo de 15 jovens (estudantes 2º grau) contratados para integrar os trabalhos de conservação do Engenho Central. E ao longo dos meses, sob a coordenação de Fabio Di Mauro e a supervisão de Toninho Sarasá, os “zeladores patrimoniais” em formação se fizeram introduzidos em conhecimentos de conservação, fundamentos de história da arte e da arquitetura; técnicas construtivas e leitura arquitetônica de estilos; leitura e interpretação de plantas técnicas; fundamentos de desenho e levantamentos; noções e práticas de segurança do trabalho; estudos de materiais, princípios de identificação de danos e patologias. Estudos que somados às ações efetivas de salvaguarda do complexo histórico, deram forma a um percurso de conhecimento que logo se fez amplificado pelas relações de pertencimento, redundando num caminho de empoderamento inestimável.  

Ainda na condição de colaboradores do Estúdio, foi a força do conceito de zeladoria do patrimônio que nos estimulou a propor e organizar, no Museu de Arte Sacra em parceria com a Faculdade São Bento, o curso de extensão universitária “Zeladoria do Patrimônio Histórico Edificado Paulista”, que se desenvolveu entre os meses de março e dezembro de 2014, sob a coordenação de Fábio di Mauro.

Neste curso, idealizado como um ambiente de estudos e trocas de experiências e referências acerca da conservação preventiva (de bens dotados de diferentes tipologias construtivas e em momentos específicos da história paulista), nossos propósitos foram os de buscar/promover a interação de diferentes campos de conhecimento. A multiplicidade de abordagens, que entendíamos necessária para criarmos perspectivas efetivas de zeladoria do patrimônio histórico; deveria estimular a constituição de uma outra modalidade profissional do campo da preservação: a do “zelador patrimonial”.

 Realizado entre os meses de março e dezembro de 2014, o curso se firmou como um fórum de conhecimento; um fórum no qual a questão do zelar por espaços e bens edificados, tombados e não tombados, públicos e privados, da capital e do interior do Estado de São Paulo… ocupou o lugar central/a atenção de 53 profissionais de diferentes formações (arquitetos, historiadores, biólogos, químicos, físicos, administradores, entre outros), de campos de atuação (docência, pesquisa, gestão pública, conservação, restauro) e de instituições, envolvidos com a problemática da preservação do patrimônio histórico edificado paulista.

Por 33 semanas, nós participamos de uma vibrante experiência de reflexão que se fez enriquecida pela convivência com 20 alunos que, ao final do curso, apresentaram planos preliminares de zeladoria para três espaços/bens que se encontravam em risco na cidade de São Paulo.

Um novo desafio nos aguarda em meados de janeiro de 2015! 

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