Cinema Literal
Sobre muros, Oscar e mexicanos
por João Nunes
Publicado em 29 de janeiro de 2019

Enquanto se esmera em construir um abominável muro para afugentar mexicanos da “América”, o ganancioso Donald Trump assiste estupefato ao cinema do México invadir Hollywood sem pedir licença. O país dos incas e dos maias ignorou projetos segregacionistas e, por meio da arte, transpôs muros, desatou nós de linhas divisórias, quebrou amarras, derrubou fronteiras.

Nas seis últimas edições do Oscar, patrocinado pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas e criado para premiar americanos, em cinco os mexicanos levaram as principais estatuetas. “Roma” ainda não se apossou do troféu. Contudo, mesmo se não conquistar as mais almejadas categorias em 24 de fevereiro, as dez indicações o referendam como um filme vencedor.

Em 2014, o mesmo Alfonso Cuaron, de “Roma”, ganhou o Oscar pela direção de “Gravidade”, mais quatro outras estatuetas. No ano seguinte, Alejandro González Iñárritu alcançou saldo ainda maior: filme e direção, além de quatro outros prêmios por “Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância”). Ele próprio ganhou direção por “O Retorno”, em 2016 – Leonardo DiCaprio conquistou a categoria ator.

Em 2017, Guilhermo del Toro provocou espanto com “A Forma da Água” e levou filme e direção, além de outros três prêmios. Se “Roma” for confirmado como vencedor do Oscar, teremos três cineastas do México laureados com as duas premiações principais (filme e direção) em cinco das últimas seis edições.

Desatento, o poderoso Imperador do Norte não se deu conta de que a arte costuma romper barreiras da política avarenta. Para ele, dois mais dois são quatro. Na arte eles podem ser vinte, duzentos e cinquenta ou seis mil novecentos e três. Trata-se de uma surpresa para os americanos acostumados a ver nos vizinhos ao sul pessoas que viviam apenas para servir.

Ocorre que os mexicanos fizeram a lição de casa e assimilaram as artes cinematográficas explorando a tecnologia hollywoodiana e valendo-se do know how da poderosa indústria. Trump os vê como elefantes na loja de cristal, tigres na sala de jantar, ornitorrincos no quarto de dormir, mas o fato é que os mexicanos subverteram a ordem e criaram filmes densos em meio à produção voltada (quase toda) para entretenimento.

Uma grande amiga (Clau Sbano) me ensinou que uma pessoa (ou situação) surge na nossa vida como presente, teste ou aprendizado. Trump tem a oportunidade de fazer uma dessas opções diante da presença “incômoda” dos mexicanos e escolher entre as alternativas a melhor para todos.

Eu escolheria logo as três. Como artistas, os mexicanos são um presente – os filmes atestam a premissa. São também teste, pois a consagrada performance no Oscar deveria fazer o presidente entender o significado de bom-senso e civilidade. Por fim, eles estão ensinando e desejam ser ouvidos. Jesus costumava terminar os sermões com uma frase em formato de mantra: “Quem tem ouvidos para ouvir, ouça”.

Com ou sem anteparos a dividir terrenos, os mexicanos estão chegando. Ou melhor, já chegaram. Trump precisa compreender que é fácil construir muros – basta colocar um tijolo sobre outro até atingir a altura desejada. Difícil será impedir que o cinema provoque uma invasão mexicana nos corações e nas mentes dos súditos do Imperador do Norte.

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