Consoantes Reticentes…
Somos tão Jovens: realmente, não foi um tempo perdido
por Marcelo Sguassábia
Publicado em 3 de maio de 2013

“Se lembra quando a gente
Chegou um dia a acreditar
Que tudo era pra sempre
Sem saber
Que o pra sempre
Sempre acaba…”

Logo no início da coletiva de imprensa em Paulínia, o diretor Antonio Carlos da Fontoura adverte que esse não é um filme apenas para os fãs da Legião Urbana e do Renato Russo, é um filme sobre jovens, “um filme de galera”, feito para a juventude de hoje. Em princípio essa declaração pode parecer um pouco desconexa com a proposta de uma biografia sobre o artista Renato Russo, mas no decorrer do filme acaba se tornando o grande acerto dessa realização.

Claro que o filme se propõe a trabalhar sua narrativa com as memórias da vida do vocalista da Legião Urbana, mas, ainda assim, não perde seu diálogo com um público ávido por um pouco de transgressão e atitude rock’n’roll nas telas do cinema: essa tal juventude acima citada.

“Somos tão Jovens” é um filme construído para dialogar através de pequenos gestos, pequenos dilemas e pequenas rebeldias com essa juventude que está sempre à procura de ídolos aos quais reverenciar ou apenas ver-se refletida nas telas. Entre tardes ociosas de diversão com os amigos, festas, bebedeiras e vontade de montar uma banda de garagem, o filme, não por acaso, tem até a palavra jovem em seu título, pois são através desses anseios, que soam, a princípio, tão clichês (mas qual adolescência que não é?) que a formação do artista Renato Russo se consolida.

A vida e as músicas do cantor tornam-se atemporal, assim como ele, em uma miscelânea de fatos (alguns com as devidas liberdades poéticas) para mostrar a construção de um mito. O filme acompanha Renato e sua turma de 1976 até 1982, quando a Legião faz seu primeiro show no Circo Voador no Rio de Janeiro, momento em que ganham a cena nacional. Portanto, não é a história da Legião Urbana que vemos na tela e, sim, do menino Renato Manfredini Jr, tímido e meio nerd, que se transforma em um dos maiores poetas do rock nacional, o mito Renato Russo.

Essa escolha por um período determinado serve também pra mostrar o Renato anterior a todos os problemas (Aids, depressão) que viriam acometê-lo posteriormente. Temos um jovem com a vida inteira pela frente, que fazia planos e só queria se divertir com os amigos, contra uma asfixiante Brasília e o poder que emanava das esferas políticas dessa cidade.

Com esta aposta, “Somos tão jovens” se torna um filme jovial, agregador, de turma, assim como a figura de Renato Russo naquele momento, mostrando o artista em formação, as amizades e as experiências e experimentações tão típicas da juventude. Ao optar por essa leveza, em uma linha extremamente tênue com a superficialidade, Antonio Carlos da Fontoura e o roteirista Marcos Bernstein acabam se tornando paternalistas demais com a figura do biografado e minimizando passagens que poderiam ser mais reflexivas ou aprofundadas da vida do cantor. Os pais de Renato tornam-se praticamente coadjuvantes nessa história, sendo muitas vezes elegidos como alívio cômico das situações de embate e estranheza entre esse choque de gerações, assumindo assim que o filme é destinado a um público que se identifica com as peripécias de rebeldia do músico. As questões relacionadas à sexualidade de Renato tornam-se pouco problemáticas ou problematizadas no longa, assim como o contexto histórico, que é um momento de grande ebulição político-social no Brasil, principalmente para quem vivia em Brasília.

Com tudo isso o filme padece de maiores conflitos, deixando que a trilha sonora (que, para quem conhece a Legião ou é fã, deixa um sabor todo especial a narrativa) nos conte o que falta dessa história e seja responsável pelos grandes momentos de emoção, principalmente quando ouvimos “Ainda é cedo” e “Será”.

Claro que nem tudo são problemas no longa, muito pelo contrário, os acertos quando vem, são maiores e mais expressivos que qualquer falta que poderíamos sentir durante a projeção.

Para um filme que se pretende ser de galera e de amigos, o mínimo que se espera é um elenco coeso e coerente com a proposta, o que é resolvido a muito contento. Thiago Mendonça brilha intensamente na pele de Renato Russo, com uma entrega que é belíssima de se ver em cena, principalmente na química alcançada com a atriz Laila Zaid (Aninha, amiga que sintetiza várias mulheres da vida de Renato) e Bruno Torres (Fê Lemos). Com eles em cena o filme ganha um brilho especial que reverbera no restante do elenco, todos muito à vontade em seus papéis, apesar de alguns excessos aqui e acolá. Thiago Mendonça inclusive aprendeu a cantar e a tocar baixo para o longa e isso faz toda a diferente nos números musicais que são gravados como apresentações ao vivo.

E a cidade de Brasília, como uma grande personagem que é, também está presente (mesmo que partes do filme tenham sido filmadas em Paulínia e Campinas), pois é ela que norteia a rebeldia dessa galera, construindo um cenário propício para extravasar todo o tédio presente em uma cidade com amplas e largas avenidas quase no meio do nada. Thiago Mendonça conta que as filmagens começaram e terminaram em Brasília, mesmo não estando lá, pois a ultima diária do filme foi feita, coincidentemente, na Rua Brasília, em Paulínia.

Coincidências “cármicas” à parte, coisas sobre as quais Renato Russo adoraria conversar, “Somos tão Jovens” é um filme que deixa muitas lacunas abertas e passa longe de realmente tentar ou querer entender a “persona” do vocalista da Legião Urbana, cheio de complexidades e contradições. Mas, ainda assim, se firma como um ótimo filme que busca uma aproximação maior com os jovens (mesmo com aqueles que são apenas no espírito), pois fala com muita propriedade com esse público, sem ser presunçoso ou condescendente, mostrando que, de uma forma ou de outra, independente da idade, somos todos partes de uma imensa geração Coca-cola.

“Somos os filhos da revolução
Somos burgueses sem religião
Somos o futuro da nação
Geração Coca-Cola”

Confira a programação nos cinemas de Campinas

Veja o trailer:
 

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