Cinema Literal
Tudo por amor. Tudo?
por João Nunes
Publicado em 22 de janeiro de 2019

A Esposa” (“The Wife”, Björn Runge, Suécia/EUA, 2019) parece destoar do propósito das mulheres em adquirir o poder que sempre possuíram; porém, foram impedidas de exercê-lo por conta de uma história escrita e consumada por homens.

A protagonista Joan (Glenn Close, em atuação iluminada e minha favorita ao Oscar) tem esse poder, mas se deixa ser eclipsada pela figura do marido Joel (Jonathan Pryce) – este, assume um papel que não lhe pertence. Se parece louvável ela entregar o poder para demonstrar o quanto o ama, causa estranheza ele aceitar a oferta sem titubear.

Onde estaria o amor dele capaz de recusar o presente e devolvê-lo a quem de direito? Pela indicação do roteiro, apenas Joan está disposta a fazer tudo em nome do amor, enquanto Joel apenas recebe os eflúvios e desfruta das benesses materiais proveniente do nobre sentimento.

Eis aqui um ponto interessante: as benesses incidem no plano material (fama, dinheiro, alimentação do ego), enquanto a recompensa de Joan se dá no espiritual. A ela não lhe importam fama, dinheiro e poder, mas amor. Uma viagem para Estocolmo a colocará em xeque: em crise, se perguntará se fez a escolha certa.

Gostaria de saber como reagem as mulheres diante dessa postura. É a mesma de Nina Simone: na força da linda canção “Sinnermam” ela clama a Deus por poder, mas não se trata de poder advindo deste mundo tão melancolicamente humano – o homem e seus anseios por bens terrenos, cuja traça corrói.

“Poder, Senhor”, Nina Simone clama desesperadamente. Mas ela, assim como Joan, não pede o poder que se desfará quando formos pó. “Meu reino não é deste mundo”, diria Cristo. Contudo, me inquieta (e me questiono) se a opção de Joan não soaria conformismo frente ao mundo concebido pelos homens e para eles.

Não creio. Joan está sintonizada com uma espiritualidade para a qual tudo se acabará quando deixarmos esta transitória vida. Nada se leva, a não ser (para quem se aplicou) um espírito renovado e evoluído, na certeza de que glórias terrenas se desfazem como o vento.

E vale lembrar um contraponto interessante. O filho deles, David (Max Irons), também se vê isolado pelo pai, também reivindica poder, igualmente se assume frágil perante a proeminência de Jonathan e sofre a dor do oprimido.

E onde ficam as reivindicações das mulheres frente ao domínio masculino? Ficam onde estão. Devem continuar lutando com pertinácia. Só não podem esquecer de que somos iguais (apesar dos milênios de pensamento machista) e de que a busca não pode ser mera troca de papéis, mas ter a igualdade como convergência.

Quanto ao amor de Joan, estou a refletir se, no papel, de homem, eu teria coragem de abrir mão de um talento dado a mim e o entregar à minha companheira. Não sei. Acho que não. Ou teria? Minha dúvida é a mesma de Joan: em Estocolmo, enquanto ouve elogios ao marido, sabe que tais palavras deveriam ser dirigidas a ela.

O que move “a esposa” a exercitar amor tão incondicional?  Deve haver razões (que o filme não explora) capaz de nos permitir compreender a extensão desse amor. Joan não é santa assim como Jonathan não é vilão. Nela, como em qualquer humano, também existem paixões humanas. E, estas, nem sempre são dignas.

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