Cinema Literal
Um olhar de Cuarón sobre o México
por João Nunes
Publicado em 6 de fevereiro de 2019

A viagem de dois amigos pelo interior do México em “E Sua Mãe Também” (2001) significou o cartão de visitas de Alfonso Cuarón para o mundo. Neste terceiro longa da carreira, o diretor enxerga o país com um olhar crítico, porém, terno. Depois, atraído pelos grandes estúdios, realizou pelo menos dois trabalhos significativos: o elogiável suspense espacial, “Gravidade” (Oscar de direção em 2014), e “Harry Potter – O Prisioneiro de Azkaban” (2004, o melhor da saga). Ao voltar às raízes em “Roma” (México, EUA, 2018, indicado em dez categorias do Oscar), o olhar do diretor sobre o país-natal se mantém terno e crítico, mas, agora, é também assustador.

Em “Roma”, ele reitera temas e formas de “E sua mãe…” – aos quais chamarei de obsessões. A primeira, de natureza poética, é o mar. Ao tempo que é refúgio da personagem Sofia (Marina de Tavira) e cenário de desfecho da história de Roma, o mar também serve de linha de condução dos personagens de “E sua mãe…”, pois os dois amigos conduzem uma turista para o litoral, onde a trama se define. Ambos encontram redenção no mar.

Outra obsessão é o abismo social mexicano. No mais recente longa a história se passa na “casa grande” de um bairro da capital chamado Roma e onde família rica emprega Cleo (Yalitza Aparicio), índia de um povoado caótico de cínica pobreza – em “E Sua Mãe…”, o garoto abastado se torna amigo de um rapaz de poucos recursos. O abismo social permeia “Roma”. Basta observar como a protagonista parece ser bem recebida, mas é destratada com frequência.

Cuarón também é obcecado pela política. A passeata de “E Sua Mãe…” e a viagem pelo interior são comentários contundentes sobre um país. A milícia armada de ideologia militar em “Roma” torna tal discurso ainda mais explícito, mesmo quando filma de modo furtivo o confronto com os manifestantes: através das vidraças de uma loja de móveis. Na mais bela e a mais terrível cena do filme ele busca estética na violência, como se quisesse aplacá-la.

Cuarón remete uma vez mais a “E Sua Mãe…” ao compor cenas no qual o (a) protagonista é cercado de encenação paralela que serve de cenário para narrativa principal – elas se tocam, mas não interagem. Estão ali para compor.

Quando a patroa se despede do marido, uma fanfarra se aproxima e, como se passasse por acaso em frente à câmera, entra em primeiro plano – mas apenas como composição. A imagem que importa é a expressão da dor de Sofia que aparece ao fundo do quadro. Ao final, depois de a mãe anunciar uma ruptura familiar, desolados ela e os quatro filhos tomam sorvete ao lado de uma noiva festejando a boda com os convidados.

No travelling para acompanhar Cleo na compra do berço para a filha prestes a nascer, de passagem, a câmara mostra soldados ouvindo instruções para a ação em seguida. A cena traz uma informação, mas o papel dela é ser coadjuvante; porém, essencial para a expressiva execução da mise-en-scène.

Melodrama

A opção de Cuarón pelo preto e branco deve ter gerado diversas interpretações; afinal, a vida foi concebida em cores. Diria ele: “trata-se de representação da realidade. A realidade é muito pior.” A ausência da cor provoca distanciamento necessário para se obter sobriedade narrativa e não despencar no dramalhão. Para representar o cotidiano de empregada vinda de região rural para a cidade, igualmente pobre e excepcionalmente rica, Cuarón se vale do melodrama. O segredo dele? Sutileza.

Almodóvar resgatou o melodrama em “Tudo sobre Minha Mãe” (Espanha, 1998). A cena da personagem de Cecilia Roth sentada no asfalto molhado de chuva, na madrugada, e segurando o corpo do filho morto no colo enquanto grita “hijo, hijo mio” poderia ser um desastre – e se tornou antológica.

Cuarón é refinado mesmo nos momentos escorregadios, caso do massacre das milícias contra os manifestantes, ou do reencontro de Cleo com o namorado e a cena de suspense que se dá no mar. Depois de “Roma”, teremos de minimizar o sentido pejorativo do vocábulo “dramalhão mexicano” – desde sempre associado ao audiovisual do México.

A História

“Roma” conta a história da empregada doméstica Cleo, indígena sem glamour, passiva, tímida, de poucas palavras e muitos pudores que se vê desprezada social e afetivamente. Obstinada, ela tenta preservar a própria cultura se comunicando na língua original com a parceira de ofício.

O roteiro é generoso com a sensível Cleo. A rotina da personagem ao final pode parecer acomodação; porém, é um desfecho digno. E eu intuo que minha interpretação sobre o uso do preto e branco esteja correta: além de se distanciar do excesso dramático para evitar que o espectador se afaste da realidade, com as cores e suas realidades o diretor/roteirista teria de encontrar outro desfecho.

Roma mostra uma realidade mexicana, mas o tema do filme é o desejo. Quem sabe Cleo se torna independente, ganha carta de alforria e viaja, não para o mar, mas para a aldeia natal precária. Lá é a casa dela, o lugar de Cleo no mundo e, portanto, o melhor lugar do mundo.

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