Consoantes Reticentes…
Vela da vida toda
por Marcelo Sguassábia
Publicado em 4 de maio de 2013

wikimedia commons

 

 

Existe uma tradição católica cultivada não sei onde, nem desde quando, mas existe. A vela de toda a vida: uma mesma vela acompanha o fiel desde o batismo até o velório, passando pela primeira comunhão, o crisma, o casamento, a unção dos enfermos. Concluída cada uma destas cerimônias, ela é apagada e guardada em casa, à espera do próximo uso, até que sua chama seja extinta em definitivo junto com o seu dono.

 

Bela tradição, de profunda simbologia: a mesma chama se renovando nos momentos decisivos da existência. Mestre Duña, o avatar da sabedoria suprema, enumera alguns possíveis desdobramentos – do fato e, literalmente, da vela, já que ela muito provavelmente trincará em vários pedaços e não estará mais parando em pé ao fim da vida do marmanjo.

 

No batizado, ao lado do padre, o padrinho segura a vela. Este sofre de Mal de Parkinson. É a primeira de uma série de fissuras no ainda reto bastão de parafina.

 

Mestre Duña adverte que há de se fazer uma ressalva que precede o batizado do cristão. Em caso de parto difícil, se acenderem uma vela nas vigílias de oração, é essa que valerá oficialmente como sendo a vela da vida do rebento, pois foi acesa por intenção dele – que para todos os efeitos já era um filho de Deus, mesmo estando ainda na barriga da mãe.

 

Crisma. Sendo a confirmação do batismo, acaba também confirmando a sina da vela rachada. Ela ganha novas fissuras quando o crismando a usa para bater na mão de um colega de sacramento, que inventou de fazer chifrinho sobre sua cabeça na hora da foto da turma.

 

Casamento. O padre se excedeu na homilia e deixou a vela acesa além da conta, consumindo quase a metade dela. O noivo, que a segurava, derrama um charco de parafina líquida nas mãos da noiva, quase na hora de colocar a aliança. A noiva morde o véu para não gritar de dor, mas num sofrido espasmo dá com o cotovelo na vela, que vai ao chão junto com o buquê de flor do campo.

 

Um belo dia, num interim de cerimônias, a estabanada faxineira foi limpar o armário e  a vela, mais uma vez, obedeceu a lei da gravidade. A essa altura já são dezesseis pedaços presos um ao outro pelo barbante do pavio.

 

Extrema unção. Após a benção do padre, o moribundo, em seu leito de morte, orienta a futura viúva: “Querida, tem só um toquinho de vela, mas deve dar e sobrar para o velório, o último ofício dessa minha fiel companheira. Você acende por uns dez minutos, apaga e coloca a pouca parafina restante no caixão. Pode ser no bolso do paletó, para ficar perpetuamente comigo, junto do coração”.

 

O pavio, mal apagado, incendeia instantaneamente o terno de tecido sintético, e em segundos temos um esturricado defunto duplamente morto.

 

Mestre Duña conclui, com sua proverbial sapiência: “Queridos amigos, essas são apenas conjecturas. Uma advertência nem contra e nem a favor desse costume, seja lá onde for costumeiro. Só quis refletir um pouco, e fazê-los também ponderar sobre as consequências, nem sempre beatíficas, de sua prática. Fiquem com meu abençoado abraço”.

 

 

 

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Marcelo Pirajá Sguassábia é redator publicitário e colunista em diversas publicações impressas e eletrônicas.

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